Johny Guimarães pertence ao número daqueles artistas cuja obra se define a partir de um conjunto de temáticas, por assim dizer, obsessivas: o erotismo e a guerra, com clara preponderância do segundo sobre o primeiro. Embora jamais tenha ouvido o som de um tiro de fuzil disparado com raiva, ou tenha tido a oportunidade de ouvir o peculiar som que produz uma bala quando penetra na carne humana, este homem se mostra um admirador dos feitos horrendos de Marte. Um fado inditoso não permitiu que ele tivesse acesso a experiências militares reais, apesar disso ele acumula em seu espírito recordações de exposições prolongadas aos efeitos da violência mais exacerbada.
Por sua condição de homem erudito, professor de História Contemporânea de uma instituição pública de ensino superior, especialista em História Militar Moderna, ele teve, ao longo de toda uma vida, acesso a fontes e relatos diretos de combatentes das duas maiores guerras do século XX. E isso se constituiu para ele numa espécie de segunda ou de duplo anímico que se constitui em parte significativa de seu ser. As pesquisas que realizou ao longo de décadas não foram apenas em nome de interesses profissionais, foram meios que ele encontrou para se comunicar diretamente com uma realidade que para ele se mostrou inacessível em termos de vivências práticas.
Nunca foi seu destino ser um guerreiro e levar um tipo de existência centrado no uso frequente da força como instrumento de mediação da realidade; não lhe foi dado lutar nas planícies de Flandres, tampouco testemunhar as manobras da Força Expedicionária Britânica, de Sir Douglas Haig, no lamaçal de Paschendaele; ele não viu seus companheiros tombarem agonizando no chão enquanto de suas bocas saía uma espuma grossa e o sargento-intendente gritava desesperadamente: “ ataque de gás, ataque de gás!”; ele não fugiu dos bombardeios da esquadrilha do general Von Richthofen, sob os céus da Bélgica; e quando os planadores alemães caíram sobre a fortaleza de Eben Emael ele não estava presente para assistir a cerimônia de armistício; ele não foi condecorado por bravura acima do exigido pelo dever, nem conheceu de perto o general Conde Alfred Von Schlieffen; e quando soou a décima primeira hora, do décimo primeiro dia, do décimo primeiro mês do fatídico ano de 1918, ele não lá, no vagão de trem, na floresta de Campiegne, para testemunhar a rendição final das tropas do Kaiser; ele não testemunhou os horrores das duas grandes guerras mundiais, mas ele as conhece profundamente como se delas tivesse tomado parte como integrante de um pelotão de tropas de infantaria ligeira, ponta de lança de um esforço ofensivo de longa duração.
Ele não foi combatente de linha de frente, mas guarda recordações atávicas do não vivido, do não-experimentado:“Muitas vidas vivemos tu e eu, Arjuna; eu me lembro de todas, mas tu não”. Essa admoestação de Krishna, dirigindo-se a Arjuna, no Bhagavad-Gita, bem que poderia ter sido proferida pela subjetividade que percorre os poemas da obra de Johny Guimarães. As recordações ali presentes parecem emanar do relato fragmentado de uma testemunha ocular que tanto pode ter sido um portador legal de armas diretamente envolvido no confronto, quanto alguém que observou e colheu informações a partir de um ponto privilegiado de observação, talvez um correspondente de guerra enviado para o front.
E aqui cabe um destaque preliminar para o termo fragmentação. A percepção dos acontecimentos presentes nos poemas é marcada pela ausência de unidade, como se resultasse da tentativa malograda de expressão coordenada por parte de uma mente submetida a um trauma prolongado. Essa ausência de ordem aparente concede um maior vigor ao texto pelo caráter de originalidade e pela acentuação da dramaticidade dos episódios militares.O tema da guerra na obra poética de Johny Guimarães não parece apenas resultado de uma escolha temática, ou de uma opção ideológica específica, resultante, talvez, de inclinações políticas específicas. Não se trata de escolha, mas de chamado. O tema militar se integra às suas expectativas existenciais mais profundas e, talvez por isso, sua representação no texto pareça - em muitos momentos, naqueles mais bem realizados - tão convincente.
Os poemas de guerra de Johny Guimarães, seus Haikais, tematizam a guerra a partir de uma perspectiva da interioridade dos acontecimentos e, por isso, a guerra é percebida pelos protagonistas a partir dos efeitos que esta desperta no cotidiano ( e na psique) de cada um deles. Isso concede uma dimensão humana aos acontecimentos e retira deles todas as construções retóricas tendentes a exaltar da forma balofa o desenrolar de uma operação militar. Humanizar nesse caso significa, dentre outras outras, corporificar o horror, concedendo a ele densidade e clareza. Os grandes deslocamentos de tropas assinalados em um mapa de estado-maior são substituídos por uma técnica que privilegia a captação de instantâneos de desintegração da dignidade humana. É um discurso poético anti épico por excelência, sem grandeza, sem exaltação de feitos incomuns por parte de homens extraordinários, sem engrandecimento artificial e sem intenções de inflar artificialmente as capacidades dos combatentes.
Sua obra demonstra que a imaginação histórica pode converter erudição em experiência interior. Se não viveu a guerra, incorporou-a como memória possível. E é dessa memória construída, simultaneamente intelectual e afetiva, que nasce a força singular de sua poesia.