O amor aos animais é ancestral e atávico, mas o fenômeno contemporâneo que resultou no crescimento exponencial da presença de animais de estimação nos lares vai muito além de uma moda ou de empatia ecológica. O que testemunhamos é uma mudança estrutural na afetividade: cães e gatos deixaram o quintal para ocupar o centro das decisões emocionais e financeiras. Esse movimento revela-se como um sofisticado escape existencial diante de uma sociedade marcada pelo isolamento, pela fragilidade dos vínculos e, sobretudo, por uma crise de confiança sistêmica no próximo.
Essa migração do
afeto tem raízes em uma profunda exaustão das relações interpessoais. Em um
mundo de conexões efêmeras - a "modernidade líquida" de Zygmunt
Bauman -, onde a superficialidade e a falta de gratidão tornaram-se subprodutos
comuns das interações, o animal surge como um porto seguro de lealdade
previsível. O vínculo com o pet é regido por uma pureza que o ser humano parece
ter perdido; o animal não possui segundas intenções e não impõe condições para
oferecer sua presença. Ele apenas é, e sua gratidão manifesta-se na perenidade
do afeto.
A OMS estima que
uma em cada seis pessoas seja afetada pela solidão. O isolamento social,
acirrado pela hiperconectividade digital, criou um paradoxo: estamos mais
próximos virtualmente, mas nunca estivemos tão sozinhos. O amor aos animais
funciona como uma barreira contra essa "solidão acompanhada". O pet
exige o toque, o cuidado real e a rotina, devolvendo ao tutor uma sensação de propósito
que a vida moderna muitas vezes dilui. Essa devoção sinaliza um mecanismo de
defesa e de proteção contra a vulnerabilidade que a convivência com outro
humano impõe.
O crescimento
monumental do setor pet — estima-se que existam 2,2 bilhões de animais no
mundo, ou um para cada quatro pessoas, com expansão anual entre 6,5% e 11,3% —
e a humanização dos animais são sintomas de uma sociedade que busca anteparo
para suas feridas sociais. Se, por um lado, essa relação oferece um alento
vital e o suporte necessário à saúde mental, por outro, escancara nossos medos.
Em última análise, amamos os animais não apenas pelo que são, mas pelo que não
nos fazem: eles não julgam, não abandonam e não rompem o pacto de amor que,
entre humanos, tornou-se um artigo de luxo sob risco de extinção.