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César Oliveira

O amor aos pets como antídoto à desilusão humana

César Oliveira - 01 de Março de 2026 | 12h 10
O amor aos pets como antídoto à desilusão humana
Dados da Abras

O amor aos animais é ancestral e atávico, mas o fenômeno contemporâneo que resultou no crescimento exponencial da presença de animais de estimação nos lares vai muito além de uma moda ou de empatia ecológica. O que testemunhamos é uma mudança estrutural na afetividade: cães e gatos deixaram o quintal para ocupar o centro das decisões emocionais e financeiras. Esse movimento revela-se como um sofisticado escape existencial diante de uma sociedade marcada pelo isolamento, pela fragilidade dos vínculos e, sobretudo, por uma crise de confiança sistêmica no próximo.

Essa migração do afeto tem raízes em uma profunda exaustão das relações interpessoais. Em um mundo de conexões efêmeras - a "modernidade líquida" de Zygmunt Bauman -, onde a superficialidade e a falta de gratidão tornaram-se subprodutos comuns das interações, o animal surge como um porto seguro de lealdade previsível. O vínculo com o pet é regido por uma pureza que o ser humano parece ter perdido; o animal não possui segundas intenções e não impõe condições para oferecer sua presença. Ele apenas é, e sua gratidão manifesta-se na perenidade do afeto.

A OMS estima que uma em cada seis pessoas seja afetada pela solidão. O isolamento social, acirrado pela hiperconectividade digital, criou um paradoxo: estamos mais próximos virtualmente, mas nunca estivemos tão sozinhos. O amor aos animais funciona como uma barreira contra essa "solidão acompanhada". O pet exige o toque, o cuidado real e a rotina, devolvendo ao tutor uma sensação de propósito que a vida moderna muitas vezes dilui. Essa devoção sinaliza um mecanismo de defesa e de proteção contra a vulnerabilidade que a convivência com outro humano impõe.

O crescimento monumental do setor pet — estima-se que existam 2,2 bilhões de animais no mundo, ou um para cada quatro pessoas, com expansão anual entre 6,5% e 11,3% — e a humanização dos animais são sintomas de uma sociedade que busca anteparo para suas feridas sociais. Se, por um lado, essa relação oferece um alento vital e o suporte necessário à saúde mental, por outro, escancara nossos medos. Em última análise, amamos os animais não apenas pelo que são, mas pelo que não nos fazem: eles não julgam, não abandonam e não rompem o pacto de amor que, entre humanos, tornou-se um artigo de luxo sob risco de extinção.

 



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