Como exércitos modernos gastam bilhões para conquistar uma rua
Menos do que a extensão de um quarteirão urbano. Menos do que a distância percorrida por um pedestre em poucos minutos.
E, no entanto, para conquistar esses cem metros, mobilizam-se satélites, drones, sistemas de inteligência artificial, artilharia guiada por GPS, munições de precisão, guerra eletrônica e redes de comunicação que conectam soldados no campo de batalha a centros de comando localizados a centenas de quilômetros de distância. A aparente contradição merece reflexão. Como chegamos a uma era em que a tecnologia militar alcançou níveis quase inimagináveis, mas o avanço territorial continua sendo medido em metros?
A resposta exige uma perspectiva histórica. Ao longo do século XIX, muitos observadores acreditaram que o progresso tecnológico tornaria as guerras mais rápidas e decisivas. A industrialização produziu armas mais letais; as ferrovias aceleraram deslocamentos; o telégrafo revolucionou as comunicações. Parecia lógico supor que os conflitos seriam resolvidos em campanhas breves.
A Primeira Guerra Mundial destruiu essa ilusão. Em Verdun, em 1916, franceses e alemães lutaram durante dez meses por colinas, trincheiras e aldeias cujos nomes se tornariam símbolos do absurdo da guerra industrial. Centenas de milhares morreram para que a linha de frente se movesse poucos quilômetros. No mesmo ano, no Somme, o exército britânico sofreu cerca de sessenta mil baixas apenas no primeiro dia de combate. Ao final da ofensiva, o ganho territorial obtido foi medido não em centenas de quilômetros, mas em parcelas reduzidas de terreno devastado.
A lógica era cruel. Quanto mais eficaz se tornava o poder de fogo, mais difícil se tornava avançar.
O século XX foi, em grande medida, uma tentativa de resolver esse dilema. Tanques, aviação, forças mecanizadas e doutrinas de guerra móvel surgiram para restaurar a capacidade ofensiva. Em alguns momentos, pareciam ter conseguido. As campanhas relâmpago alemãs de 1939 e 1940 sugeriam que a era das guerras de atrito havia ficado para trás.
Mas bastou que os exércitos encontrassem posições defensivas adequadas para que a realidade reaparecesse. Monte Cassino, em 1944, é um exemplo eloquente. Durante meses, forças aliadas empregaram enormes quantidades de homens, blindados, aeronaves e munições para romper uma posição defensiva relativamente limitada. O resultado foi uma sucessão de ataques sangrentos e progressos lentos, obtidos a um custo extraordinário.
Hoje, em Kostyantynivka, vemos uma nova versão desse velho problema. A diferença é que o campo de batalha está saturado por sensores. Drones observam estradas, edifícios, veículos e até pequenos grupos de soldados. Satélites monitoram movimentações logísticas. Sistemas eletrônicos interceptam comunicações. Qualquer concentração de tropas pode ser detectada e destruída em questão de minutos.
Paradoxalmente, essa capacidade de observação permanente fortalece a defesa. Mover-se tornou-se perigoso. Concentrar forças tornou-se arriscado. Ocultar-se tornou-se cada vez mais difícil. Por isso, os avanços voltam a ser medidos em metros.
A tecnologia transformou quase tudo na guerra contemporânea, exceto uma realidade fundamental: territórios não são ocupados por drones, algoritmos ou satélites. São ocupados por seres humanos.
Nenhum software pode substituir o soldado que entra em uma casa, limpa um edifício ou mantém uma posição sob fogo inimigo. Nenhuma inteligência artificial pode hastear uma bandeira sobre uma cidade conquistada.
Essa talvez seja a maior lição histórica da guerra na Ucrânia. Durante décadas, acreditou-se que a tecnologia reduziria progressivamente a importância da infantaria. O que vemos hoje aponta na direção oposta. A tecnologia ampliou a letalidade, aumentou a vigilância e sofisticou os sistemas de combate, mas não eliminou a necessidade do combatente que ocupa o terreno.
A guerra dos cem metros não é um anacronismo. É uma advertência.
Ela nos lembra que, por trás de toda inovação tecnológica, permanece uma verdade tão antiga quanto as campanhas de Alexandre, as legiões de Roma ou as trincheiras de Verdun: a guerra continua sendo, em última instância, uma disputa pelo controle do espaço físico.
E esse espaço ainda é conquistado passo a passo, rua por rua, metro por metro.
Nota: ao leitor interessado em aprofundar os temas de uso de táticas de infantaria remeto a: MARSHALL, General George S.L. Homens ou Fogo? Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora. S/D.