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  • Feira de Santana, quarta, 03 de junho de 2026

Wellington Freire

Já não existem retaguardas

03 de Junho de 2026 | 07h 45
Já não existem retaguardas
Créditos: BBC

Durante muito tempo, a geografia foi uma forma de proteção. Montanhas, desertos, oceanos e vastidões territoriais funcionavam como escudos naturais. Havia uma distinção relativamente clara entre a frente de combate e a retaguarda. Os exércitos guerreavam em determinados espaços e as cidades distantes do conflito podiam continuar suas rotinas, ainda que sob a sombra da guerra. Essa separação nunca foi absoluta, mas era suficientemente concreta para moldar a estratégia militar e a própria experiência humana dos conflitos.

Hoje, essa distinção está desaparecendo. Na madrugada desta quarta-feira, drones ucranianos atingiram um terminal petrolífero em São Petersburgo, cidade natal de Vladimir Putin e palco de um dos principais fóruns econômicos da Rússia. Quase simultaneamente, no Golfo Pérsico, novos ataques envolvendo Estados Unidos e Irã ampliaram a sensação de que não existem mais espaços verdadeiramente seguros em tempos de guerra. Do Báltico ao Estreito de Ormuz, uma mesma realidade emerge: a erosão da retaguarda como conceito estratégico.

Os historiadores militares costumam recordar que a profundidade territorial foi um dos fatores decisivos para a sobrevivência da Rússia diante de Napoleão, em 1812, e de Hitler, em 1941. O espaço funcionava como arma. A distância desgastava invasores. Moscou podia cair sem que o Estado necessariamente colapsasse. O território oferecia tempo, e o tempo era uma forma de defesa.

Mas o século XXI está alterando essa equação. Um drone lançado a centenas ou milhares de quilômetros pode atingir refinarias, aeroportos, centros logísticos e instalações militares localizadas muito além da linha de frente. A antiga profundidade estratégica torna-se progressivamente menos relevante quando a tecnologia permite que o campo de batalha seja projetado para dentro do território nacional adversário.

O caso de São Petersburgo é emblemático. O objetivo do ataque não parece ter sido apenas material. O terminal de petróleo possui importância econômica, mas o alvo verdadeiro talvez tenha sido algo mais abstrato: a sensação de normalidade. A guerra contemporânea busca destruir não apenas infraestrutura, mas também percepções. Busca demonstrar vulnerabilidade. Busca comunicar.

Clausewitz definiu a guerra como um ato de força destinado a compelir o adversário à nossa vontade. No século XXI, essa compulsão não ocorre apenas pela destruição física. Ela ocorre pela produção deliberada de insegurança. O cidadão que observa fumaça erguer-se sobre uma cidade considerada distante do front recebe uma mensagem estratégica tão importante quanto aquela transmitida pela destruição de um depósito de combustível.

Há aqui uma transformação histórica comparável à introdução da pólvora, da ferrovia ou da aviação. Durante séculos, a retaguarda representou um espaço relativamente preservado do combate direto. Mesmo durante as guerras mundiais, quando os bombardeios estratégicos alcançaram cidades inteiras, existiam limitações tecnológicas que restringiam a frequência e a precisão dos ataques. Hoje, sistemas relativamente baratos podem ser produzidos em larga escala e empregados contra alvos localizados a enormes distâncias.

O resultado é o surgimento de uma geografia militar radicalmente nova. As fronteiras continuam existindo nos mapas, mas o campo de batalha já não respeita os limites tradicionais da distância. A guerra tornou-se difusa, permanente e ubíqua. Ela atravessa mares, contorna montanhas, ignora linhas defensivas e surge repentinamente sobre aeroportos, refinarias e centros urbanos.

Talvez estejamos assistindo ao fim de uma das mais antigas certezas da história militar: a crença de que existe um lugar atrás das linhas. São Petersburgo, assim como Kiev, Tel Aviv, Teerã ou qualquer outra grande cidade contemporânea, revela uma verdade inquietante sobre nosso tempo. A tecnologia não aboliu a geografia. Os estreitos marítimos, os portos e as rotas comerciais continuam decisivos. Mas ela aboliu algo igualmente importante: a segurança proporcionada pela distância. A guerra, que outrora avançava como uma maré visível através dos territórios, agora pode surgir instantaneamente sobre qualquer horizonte.

E quando isso acontece, a própria ideia de retaguarda transforma-se em memória histórica. Não existem mais refúgios garantidos. Não existem mais santuários geográficos. Há apenas diferentes graus de vulnerabilidade. E essa talvez seja uma das características mais perturbadoras da guerra no século XXI.




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