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André Pomponet

Uma recordação infantil da Copa de 1986

André Pomponet - 05 de Junho de 2026 | 09h 58
Uma recordação infantil da Copa de 1986
Foto: Reprodução - CBN

Em 1986 alimentei grande expectativa em relação à Copa do Mundo que aconteceu no México. Menino, acompanhava atento o noticiário sobre o Mundial, que destacava a competição ainda em meados do ano anterior. Além da televisão, emissoras de rádio, jornais e revistas ofereciam uma ampla cobertura, rica e detalhada. Diferente de agora, naquela época o Mundial mobilizava a torcida com meses de antecedência.

Quatro anos haviam se passado desde que Zico, Sócrates, Falcão e companhia haviam encantado o mundo com seu futebol na Copa de 1982. Mas havia a esperança de que o desempenho se repetisse, dessa vez com o título. O treinador também era o mesmo, Telê Santana, que retornou em função dos apelos da torcida.

Para mim, a copa começou numa ensolarada tarde de domingo no Sobradinho. O placar foi magrinho: 1 a 0 sobre a Espanha, sem o futebol vistoso do Mundial anterior. No jogo seguinte, novo 1 a 0, desta vez sobre a Argélia. Econômica nos gols, sem aquele encantamento de antes, o time pelo menos mantinha uma defesa invicta.

O entusiasmo cresceu com o 3 a 0 sobre a Irlanda do Norte. Naquele jogo, o lateral-direito Josimar fez um golaço e a empolgação cresceu. Que viesse a Polônia, já nas oitavas-de-final. Pois ela veio e a certeza do título cresceu: 4 a 0, com novo golaço de Josimar e um futebol mais solto, contagiante.

Estava muito ansioso para ver Brasil x França. No histórico das copas anteriores, os brazucas tinham aplicado 5 a 2 em 1958. “Está no papo”, pensei, com meu raciocínio de menino. O começo do jogo confirmou minhas expectativas: pressão inicial e o 1 a 0 não tardou, gol de Careca após jogada trabalhada.

Mas aí a partida tomou um rumo que eu não esperava: a França equilibrou o jogo, pressionou e no fim do primeiro tempo empatou, com Platini aproveitando desatenção da defesa brasileira. Que decepção: saí desalentado, disposto a não ver mais o jogo. O convite de um amigo vizinho para ficar flanando pelas ruas próximas, desertas, facilitou a decisão.

As pernas curtas avançavam pelas ruas vazias, mas a cabeça permanecia no jogo. Imprecações, lamentações, gemidos e urros traduziam como o segundo tempo estava sendo tenso, difícil. Curiosamente, nossa vadiagem nos levou às cercanias do estádio Joia da Princesa.

De um bar superlotado de marmanjos bebendo cerveja, perto do estádio, veio uma algazarra infernal. Gol? Não, pênalti para o Brasil. Tenso, aguardei a cobrança à distância, do outro lado da rua. Quem cobraria? Um gordo careca e sem camisa, involuntariamente, nos deu a resposta: “Vai Galinho, vai Zico”, berrou, em êxtase.

Esperei, então, a cobrança e a apoteótica comemoração. Mas, primeiro veio um urro coletivo, caretas de dor. Depois, o mesmo gordo gritou, colérico, indignado: “Filho da puta, filho da puta”. Zico perdera o pênalti e, estranhamente, eu e o amigo decidimos voltar para casa.

Na Rua da Palma a tensão era muito grande. O jogo chegava ao fim e as pessoas temiam a prorrogação, os pênaltis. Tudo parecia tão fácil até aquela partida... Confesso que não lembro se acompanhei as cobranças defronte a tevê em casa, se fiquei na calçada junto com as crianças que não acompanhavam futebol.

Só sei que, dois dias depois, a garoa miúda e fria arrefeceu muito o ânimo infantil na noite de São João. Os adultos bebiam licor para espantar o frio, mas no fundo dos olhos deles eu enxergava, com minha sensibilidade de criança, a frustração de quem curtiu o São João com a Seleção Brasileira já eliminada da Copa...



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