Como decisões tomadas em 1947 continuam matando em 2026
Há guerras que terminam quando cessam os disparos. Outras sobrevivem aos seus soldados. Acompanhei nos últimos dias as notícias vindas da Caxemira. Protestos, confrontos, mortos, tropas mobilizadas, discursos inflamados.
À primeira vista, trata-se apenas de mais um episódio de tensão
entre Índia e Paquistão. Mas a aparência engana. O que vemos hoje não pertence
inteiramente ao presente. Os homens que marcham pelas ruas de Muzaffarabad ou
patrulham as fronteiras do Himalaia caminham, em certa medida, por estradas
abertas por pessoas que já não existem. Os mortos não assinam armistícios.
Costumamos imaginar a História como uma sucessão de épocas
claramente separadas. Os vivos ocupam o palco enquanto os mortos se retiram
para os bastidores. A realidade é menos ordenada. Os mortos permanecem entre
nós. Nem sempre como lembrança. Muitas vezes como estrutura.
A Caxemira é um dos exemplos mais impressionantes dessa
persistência. Em 1947, quando o Império Britânico abandonou a Índia, uma linha
foi traçada sobre mapas, relatórios e documentos oficiais. A partilha deu
origem à Índia e ao Paquistão, mas também produziu uma das mais profundas
feridas geopolíticas do século XX. Milhões de pessoas foram deslocadas.
Centenas de milhares morreram. E uma questão aparentemente administrativa, a
qual Estado pertenceria a Caxemira, transformou-se num problema que
atravessaria gerações.
Os protagonistas daquela decisão desapareceram há muito
tempo. General Lord Mountbatten pertence aos livros de História Militar.
Jawaharlal Nehru tornou-se estátua. Muhammad Ali Jinnah repousa em seu
mausoléu. No entanto, as consequências de suas escolhas continuam
extraordinariamente vivas.
Os mortos foram embora. Seus problemas ficaram. O historiador
francês Marc Bloch observou que a incompreensão do presente nasce fatalmente
da ignorância do passado. Talvez o caso da Caxemira demonstre também o
contrário: há passados que se recusam a passar.
A fronteira que, hoje, separa indianos e paquistaneses não é
apenas uma linha militar. É uma memória fossilizada. Um vestígio transformado em paisagem
política. Soldados vigiam montanhas porque homens mortos tomaram decisões há
quase oitenta anos. Crianças crescem aprendendo a desconfiar do outro lado da
fronteira porque seus avós herdaram um conflito que nunca encontrou uma
conclusão definitiva.
Existe algo de profundamente homérico nisso. Na Ilíada,
a guerra prossegue porque os vivos carregam promessas, juramentos e ofensas
recebidas dos mortos.
Os combatentes não lutam apenas por si mesmos. Lutam em nome de uma herança. A
guerra torna-se uma corrente que atravessa gerações. A modernidade imaginou que
a racionalidade burocrática substituiria esse mundo antigo. Não substituiu.
Mudaram os uniformes, os mapas e as bandeiras. Permaneceu a lógica da herança.
Talvez por isso a Caxemira exerça tamanho fascínio sobre
historiadores. Ela nos recorda uma verdade desconfortável: o passado raramente
está morto. Em certos lugares, ele sequer é passado. Os confrontos desta semana
parecem novos apenas para quem observa a superfície dos acontecimentos. Em
profundidade, trata-se da mesma história que se desenrola desde 1947. Os atores
mudam. O roteiro permanece.
Enquanto escrevo estas linhas, novos protestos ocorrem, novas
patrulhas são mobilizadas e novas declarações são emitidas. Tudo parece
contemporâneo. Mas, sob a névoa das montanhas do Himalaia, ainda ecoam vozes
antigas.
São as vozes daqueles que dividiram territórios, desenharam
fronteiras e imaginaram que seus atos permaneceriam confinados ao seu próprio
tempo. Enganaram-se. Os homens morrem. As decisões sobrevivem.
E algumas guerras, como a da Caxemira, continuam sendo travadas muito depois que seus primeiros combatentes desceram ao silêncio dos túmulos. Afinal, os mortos não assinam armistícios. Eles apenas legam aos vivos a tarefa de conviver com as consequências.