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  • Feira de Santana, sexta, 12 de junho de 2026

Wellington Freire

Os herdeiros de Sherman

12 de Junho de 2026 | 08h 09
Os herdeiros de Sherman
Créditos: Internet Archive

Há uma tendência recorrente em nossa época de acreditar que cada nova tecnologia militar inaugura uma guerra completamente nova. O surgimento dos drones, da inteligência artificial e dos sistemas autônomos parece reforçar essa impressão. As imagens que chegam da guerra entre Rússia e Ucrânia mostram pequenos artefatos voadores perseguindo caminhões em estradas distantes, identificando alvos por algoritmos e atacando depósitos de combustível a centenas de quilômetros da linha de frente. Para muitos observadores, trata-se do nascimento de uma nova era militar.

Mas a História costuma ser menos impressionável do que os noticiários. Por trás dos drones guiados por inteligência artificial empregados pela Ucrânia contra a logística russa, encontra-se uma ideia muito antiga. Tão antiga que remonta ao século XIX. Talvez até mais. Trata-se da percepção de que exércitos não sobrevivem apenas de coragem, patriotismo ou poder de fogo. Exércitos vivem de suprimentos. Alimentam-se de combustível, munição, alimentos, peças de reposição e fluxos contínuos de transporte. A guerra, em última instância, é uma disputa entre sistemas logísticos.

Ao ler as recentes declarações de oficiais ucranianos sobre a campanha de ataques contra caminhões, trens e tanques de combustível russos, não pude evitar a lembrança de uma figura histórica: o general William Tecumseh Sherman. Durante a Guerra Civil Americana, Sherman compreendeu algo que muitos de seus contemporâneos ainda relutavam em aceitar. A destruição do exército inimigo não era suficiente. Era necessário destruir também a infraestrutura que sustentava sua capacidade de continuar lutando.

Sua famosa Marcha para o Mar, que tanto me impressionou,  realizada entre novembro e dezembro de 1864, não foi apenas uma operação de deslocamento militar. Foi uma campanha sistemática contra a capacidade logística da Confederação. Ferrovias foram arrancadas do solo, pontes destruídas, depósitos incendiados, armazéns esvaziados e centros de transporte reduzidos a ruínas.

Sherman não estava simplesmente atacando soldados. Estava atacando a circulação de recursos. Mais de um século e meio depois, a Ucrânia parece ter chegado à mesma conclusão. A diferença está apenas nos instrumentos empregados.

Sherman enviava colunas de infantaria para destruir trilhos ferroviários. Os ucranianos enviam drones equipados com inteligência artificial para localizar caminhões-tanque em movimento. Sherman derrubava pontes. Os operadores de drones procuram interromper corredores logísticos que ligam Rostov, Mariupol, Donetsk e a Crimeia. Sherman buscava sufocar o sistema circulatório da Confederação. Os ucranianos falam explicitamente em atingir aquilo que chamam de “o sangue da guerra”: o combustível.

Mudou a tecnologia. Permaneceu a lógica. Essa continuidade histórica revela algo importante. Frequentemente confundimos os meios com os fins. Ficamos fascinados pelos drones porque eles são novos. Mas os objetivos estratégicos que perseguem seriam perfeitamente compreensíveis para um comandante do século XIX.

Na verdade, talvez fossem compreensíveis até para um general romano. Os exércitos de Roma dependiam de estradas. Os exércitos napoleônicos dependiam de comboios. Os exércitos da Primeira Guerra Mundial dependiam de ferrovias. Os exércitos da Segunda Guerra Mundial dependiam de caminhões e combustíveis fósseis. Os exércitos do século XXI dependem de redes logísticas ainda mais complexas e vulneráveis. A forma muda, mas a   dependência permanece.

Existe uma ironia histórica particularmente interessante nesse processo. Durante décadas, muitos analistas acreditaram que os avanços tecnológicos tornariam a logística menos relevante. A precisão dos armamentos, a velocidade das comunicações e a sofisticação dos sistemas de combate pareciam deslocar o foco para o campo tático. A guerra na Ucrânia demonstrou exatamente o contrário.

Quanto mais sofisticado se torna um exército, mais dependente ele se torna de uma cadeia logística extensa e frágil. Tanques precisam de combustível. Drones precisam de baterias. Sistemas eletrônicos precisam de geradores. Mísseis precisam ser transportados. Nenhuma inovação tecnológica aboliu essa realidade. Ao contrário, tornou-a ainda mais evidente.

Por isso, ao observarmos drones ucranianos perseguindo caminhões russos em estradas distantes, talvez não estejamos contemplando o futuro da guerra. Talvez estejamos observando uma de suas mais antigas verdades. Sherman teria compreendido imediatamente o que está acontecendo. Talvez até sorrisse diante da engenhosidade técnica dos novos meios. Mas reconheceria sem dificuldade a lógica subjacente. Afinal, aquilo que os drones fazem hoje não é muito diferente daquilo que suas tropas fizeram nas ferrovias da Geórgia em 1864.

A inteligência artificial impressiona. Os algoritmos despertam fascínio. Os drones ocupam as manchetes. Mas, por trás de toda essa modernidade, continua a mesma guerra. A velha guerra dos trilhos, das estradas, dos depósitos e dos suprimentos. A guerra que Sherman conhecia tão bem. A guerra que, aparentemente, nunca deixou de existir.


Nota: em tempos de anti-intelectualismo o rigor de pesquisa faz-se mais do que nunca necessário. A Partir de hoje passo a incluir uma bibliografia mínima para cada artigo publicado. O que faço aqui são apenas esboços de análises mais aprofundadas.  Os títulos ao fim de cada texto publicado funcionarão como um convite a um aprofundamento posterior por parte de um leitor interessado.

WRIGTH., John. A Guerra Civil Americana. São Paulo:  M. Books, 2008






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