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Wellington Freire

O fantasma dos impérios retorna ao levante

Wellington Freire - 16 de Junho de 2026 | 13h 58

A Síria está voltando ao Líbano?

O fantasma dos impérios retorna ao levante

Há frases que desaparecem do noticiário poucas horas depois de pronunciadas. Outras, porém, possuem a estranha capacidade de despertar os mortos. Quando Donald Trump sugeriu recentemente que Israel deveria deixar a Síria "cuidar do Hezbollah", muitos observadores interpretaram a declaração apenas como mais um episódio da diplomacia errática do presidente americano. No entanto, para quem observa o Oriente Médio através da lente mais ampla da história, aquela frase continha algo mais profundo. Ela evocava uma memória política antiga, quase esquecida: a ideia de que o Líbano constitui uma esfera natural de influência síria.

Não era apenas Trump falando. Eram séculos de história sussurrando através dele. O Oriente Médio possui uma característica que frequentemente escapa aos observadores ocidentais: ali, o passado raramente está morto. Em muitos casos, ele sequer é passado.

Durante mais de quatrocentos anos, as terras que hoje chamamos Síria e Líbano integraram o vasto corpo político do Império Otomano. As fronteiras atuais simplesmente não existiam. Beirute, Damasco, Alepo e Trípoli pertenciam a uma mesma estrutura imperial. As divisões nacionais que hoje parecem naturais são, na verdade, construções relativamente recentes.

Foi apenas após a derrota otomana na Primeira Guerra Mundial que a geografia política da região foi radicalmente redesenhada. Sob o sistema de mandatos criado pelas potências vencedoras, a França recebeu o controle da Síria e do Líbano. Coube aos administradores franceses traçar fronteiras, criar instituições e, em certa medida, inventar Estados.

A independência não eliminou, contudo, as antigas percepções geopolíticas. Para numerosos líderes sírios ao longo do século XX, o Líbano jamais deixou de ser visto como parte de um espaço histórico comum. A existência de um Estado libanês plenamente autônomo era frequentemente percebida em Damasco menos como uma realidade permanente do que como uma consequência temporária da intervenção colonial europeia.

Essa visão tornou-se especialmente evidente em 1976. Naquele ano, em meio à devastação da Guerra Civil Libanesa, tropas sírias atravessaram a fronteira sob o argumento de restaurar a ordem. Oficialmente, tratava-se de uma missão de estabilização. Na prática, inaugurava-se quase três décadas de predominância síria sobre a política libanesa.

Durante anos, nenhuma grande decisão em Beirute parecia possível sem a aprovação de Damasco. Presidentes eram escolhidos sob influência síria. Governos eram formados sob supervisão síria. Serviços de inteligência sírios operavam amplamente em território libanês. A soberania formal do Líbano coexistia com uma realidade muito mais complexa.

A retirada das tropas sírias em 2005, após o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri e a intensa pressão internacional que se seguiu, pareceu encerrar aquele ciclo histórico. Mas a história raramente respeita os pontos finais que os diplomatas tentam impor.

Agora, em 2026, o simples fato de um presidente americano cogitar a possibilidade de a Síria reassumir um papel central na contenção do Hezbollah revela algo significativo. Não porque exista necessariamente um plano concreto de retorno sírio ao Líbano, mas porque determinadas estruturas históricas continuam disponíveis no imaginário estratégico da região.

Os nomes mudam. Os regimes caem. As bandeiras são substituídas. Mas certas geografias políticas demonstram uma impressionante capacidade de sobrevivência. O próprio Hezbollah, cuja existência molda o debate atual, é em parte herdeiro desse longo entrelaçamento entre Síria, Líbano e Irã. Da mesma forma, a queda de Bashar al-Assad não eliminou automaticamente os interesses históricos de Damasco ao oeste de suas fronteiras.

Talvez estejamos diante de uma das grandes lições da história internacional: os impérios raramente desaparecem completamente. Eles permanecem adormecidos nas memórias coletivas, nos mapas mentais dos estrategistas e nas antigas rotas de influência que atravessam gerações.

Às vezes, basta uma crise para que esses velhos fantasmas retornem à superfície. E então descobrimos que aquilo que julgávamos enterrado estava apenas esperando. A pergunta que emerge do atual cenário do Levante é, portanto, menos diplomática do que histórica. Os impérios realmente desaparecem ou apenas aguardam pacientemente uma oportunidade para regressar?





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