Em 1991, quando a União Soviética desapareceu do mapa,
difundiu-se no Ocidente uma convicção que hoje parece quase ingênua: a de que
as grandes guerras entre Estados haviam se tornado um fenômeno do passado. A
democracia liberal triunfara, a economia global integrava antigos adversários e
a interdependência comercial parecia tornar irracional qualquer confronto de
grandes proporções. A paz deixava de ser um intervalo entre guerras para se
transformar, acreditava-se, na condição normal da História.
Essa ilusão recebeu até um nome: o "dividendo da
paz". Se o inimigo desaparecera, fazia sentido reduzir efetivos militares,
fechar bases, desativar arsenais e transferir recursos para saúde, educação e
infraestrutura. Durante décadas, grande parte da Europa seguiu esse caminho.
Exércitos foram encolhidos, programas de armamentos cancelados e a própria
ideia de uma guerra continental passou a ser vista como uma relíquia do século
XX.
A História, porém, costuma tratar com severidade aqueles que
decretam o seu fim. O anúncio do maior investimento britânico em defesa desde a
Guerra Fria não representa apenas uma decisão orçamentária. É um sintoma de
algo muito mais profundo: o retorno da política de poder como princípio
organizador das relações internacionais.
Durante boa parte das últimas três décadas, acreditou-se que
a segurança europeia estava garantida por uma arquitetura internacional
estável, sustentada pela expansão da Otan, pela integração econômica e,
sobretudo, pela garantia estratégica oferecida pelos Estados Unidos. A guerra
permanecia possível, mas parecia confinada às periferias do sistema
internacional – os Bálcãs, ao Oriente Médio, à África. O coração da Europa
julgava-se definitivamente protegido da violência em larga escala.
A invasão russa da Ucrânia, em 2022, destruiu essa certeza. Não apenas porque uma guerra convencional voltou ao continente, mas porque revelou algo ainda mais perturbador: a competição entre grandes potências jamais havia desaparecido. Apenas atravessara um período de menor intensidade. A lógica do equilíbrio de poder, das zonas de influência, da corrida tecnológica e da dissuasão militar permaneceu viva, aguardando circunstâncias favoráveis para retornar ao primeiro plano. Nesse sentido, talvez o maior erro estratégico do Ocidente tenha sido confundir ausência de guerra com desaparecimento da possibilidade da guerra.
A História Militar ensina exatamente o contrário. Os longos
períodos de paz raramente eliminam as rivalidades; apenas modificam suas formas
de manifestação. A paz de hoje pode esconder as tensões que produzirão os
conflitos de amanhã. Foi assim na chamada Belle Époque, às vésperas de
1914. Foi assim nos anos que antecederam 1939. E talvez estejamos assistindo a
um fenômeno semelhante no século XXI.
Não surpreende, portanto, que o Reino Unido volte a investir
pesadamente em defesa, que a Alemanha abandone décadas de contenção militar,
que a Polônia acelere um dos maiores programas de rearmamento da Europa e que
praticamente todos os membros da OTAN revisem suas prioridades estratégicas.
Não se trata apenas de adquirir mais tanques, aviões ou navios. Trata-se de
reconhecer que a segurança voltou a ocupar o centro das decisões nacionais.
Há uma ironia histórica nesse movimento. Durante décadas,
muitos acreditaram que o desenvolvimento econômico substituiria definitivamente
a competição geopolítica. A prosperidade seria o antídoto contra a guerra.
Hoje, entretanto, são justamente economias altamente desenvolvidas que voltam a
direcionar centenas de bilhões para arsenais, inteligência artificial, drones,
defesa cibernética e indústria militar.
Isso não significa que uma nova guerra mundial seja
inevitável. A História não trabalha com fatalismos. Mas significa que os Estados
voltaram a agir como sempre agiram quando percebem a deterioração do ambiente
estratégico: preparando-se para um conflito que esperam nunca travar.
A Guerra Fria terminou. Mas a necessidade de preparar-se para
a guerra jamais desapareceu. Apenas ficou temporariamente adormecida, enquanto
muitos confundiam uma pausa da História com o seu encerramento definitivo.
Hoje, os arsenais voltam a crescer porque os governos compreenderam uma verdade
tão antiga quanto a própria civilização: a paz não elimina a política de poder;
apenas torna menos visíveis as forças que continuam a movê-la.