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César Oliveira

Uma convocação a pensar no futuro de Feira

22 de Setembro de 2015 | 17h 56
Uma convocação a pensar no futuro de Feira

DISCURSO DO MÉDICO, PROFESSOR DA UEFS E DIRETOR DA TRIBUNA FEIRENSE, CÉSAR OLIVEIRA, NA SESSÃO ESPECIAL COMEMORATIVA DOS 182 ANOS DE FEIRA DE SANTANA, EM 18 DE SETEMBRO DE 2015:

Venho a esta tribuna como cidadão que se  apossa da cidade onde mora e tenta contribuir com a  visão da cidade que sonha pro  futuro, e, que por ser médico, tem sua receita particular.

 

        Sou nascido no Dom Pedro, tangi boi com meu pai em direção aos currais antigos do Campo do Gado, fiz feira na feira livre, e como morava na roça, sem luz e sem Tv, me alegrava comprar um jornal uma vez por semana quando meu pai ia ao Café São Paulo. Daí meu gosto pela imprensa. Tenho, portanto, como todos os senhores esta memória desta Feira de caçoás e tropeiros. E esta é uma memória a que não devemos renunciar, pois toda vez que nos perdemos de nossas referências, caímos em um vazio em que tudo perde o limite e nada se torna importante. E se não lembramos, não seremos lembrados.

É preciso, no entanto, que Feira não seja olhada apenas com os olhos de encantamento passado, com o ar saudosista com que às vezes pronunciamos o nome da Santana dos Olhos D’água. É crucial que olhemos para diante traçando objetivos claros  e exigências para a cidade que desejamos.

E o que é uma cidade?  Sócrates, o filósofo grego, dizia que uma cidade eram pedras e pessoas.  Em verdade, pedras, porque na Ágora, a praça grega,  onde os dirigentes iam apresentar suas propostas, os cidadãos votavam mostrando pedras. Pedra para cima, aprovado, pedra para baixo, recusado. (felizmente não havia a opção de atirar as pedras, o que talvez fosse muito útil hoje no Congresso, votando a CPMF).

Então senhores do Legislativo, do Judiciário, do Executivo, uma cidade são os cidadãos e seus dirigentes.  Pesa, então, sobre cada um de vocês com mandato, ou cargo, a responsabilidade, para o bem e para o mal, dos sucessos e insucessos de seus atos ou recusas.

Os vereadores, em particular, respondem não só pelos espaços onde buscaram votos, mas pela coletividade, garantindo a urbanidade e regulando as decisões municipais. E isso exige que se atentem sempre a manter a voz ativa, independente de suas filiações políticas, compromissos, ou objetivos pessoais.

Aos  que nos dirigem lembro que a história não perdoa os erros, nem abona os que falham.  Então, vivam seu compromisso de forma plena com esta dinâmica  Feira, para ajudá-la a enfrentar seus desafios.

E o que é que Feira tem  para enfrentar estes desafios?

Desde que passamos a ter 90% da população na área urbana as cidades se tornaram  mais que um aglomerado habitacional, e  sim, um espaço no qual precisamos encontrar a satisfação de todas as nossas ambições. E  Feira deve e pode ser o local para  realizarmos nossas  expectativas porque temos  uma cidade com extraordinário potencial. Somos um pólo regional favorecido pelo cruzamento rodoviário, por estarmos estrategicamente situados na entrada da capital, pela geografia plana que reduz os custos estruturais para expansão. Temos, agora, 615.000 mil habitantes, que transformam a diversidade de sua origem em um destino comum e harmônico. Temos um PIB de 8,2 bilhões de reais, fruto da diversificação de fontes produtoras. Um orçamento municipal de R$ 1,1 bilhão de reais. Influenciamos  no mínimo uma área de 24 municípios com 1 milhão de habitantes; ou, indo mais longe, 96 municípios com 3 milhões. 

O retrato desta força é termos  evoluído de IDH de 0,46 em 1991 para 0,712 (5° na Bahia) em 2010. A longevidade passou de 67 para 74 anos. Além disso, possuímos a segunda melhor Universidade da Bahia (uma das 50 do Brasil)  e um segmento cultural de produção significativa. Ou seja, temos régua e compasso, e somos um retrato de sucesso nestes aspectos.

Então quais os outros aspectos a serem trabalhados, neste momento?

Feira, neste momento, vive um período decisivo. Precisamos  tomar as decisões precisas para termos uma cidade saudável, sustentável,  segura, viva, inclusiva e multifuncional.  Para isso devemos mapear seus problemas, amplificar seus  potenciais, discutir com quem fez,  testar e executar.  Acreditem, estamos no limiar da cidade que queremos ter e da qualidade de vida que queremos oferecer aos moradores e visitantes.

Por quê?

Porque estamos prestes a deixar de sermos cidade para sermos região metropolitana, e porque o mundo, com a  pulverização dos meios de comunicado se transformou. As redes sociais deram voz e expressão aos que não tinham como verbalizar sua opinião e isso impacta na administração.  Não é mais possível construir uma cidade sem a participação popular, sem respeitar e ouvir as escolhas que as pessoas desejam, sem interagir. É muito salutar a iniciativa da câmara itinerante que o presidente Ronny implantou. Porque ao ouvir, reforçamos  o sentimento de pertencimento do cidadão com a cidade, de sua responsabilidade com o equipamento urbano. Portanto, a ele deve ser oferecido espaço nas decisões.  Como diz uma citação: é a colaboração entre as pessoas que está por trás de uma civilização bem sucedida.

Todos nós somos feitos de ambições, modelos, escolhas. O cidadão que não se sente pertencendo à cidade, não sendo ouvido por ela, não lhe terá amor, mas indiferença.  Faço aqui uma ressalva: não estou falando de militantes políticos de partido A ou B, mas da universalização do sentimento citadino para todo habitante ser um cuidador da cidade. Educando o cidadão para isto, construiremos uma cidade mais satisfatória, mais representativa dos desejos coletivos. Precisamos cuidar do futuro, porque o futuro, não é um lugar que nunca vai acontecer. O futuro é um presente com data marcada para chegar, portanto nos cabe adiantar o passo deste trabalho de construção.

Este trabalho exige o quê?

O essencial é planejamento. Mas não um planejamento que responda a demandas momentâneas, ou isoladas, mas aquele que determine uma opção global, um modelo de cidade.  E não é possível fazer isso sem um grupo de pessoas especializadas em urbanismo, atuando de forma permanente, sobre um plano diretor de desenvolvimento consolidado, referenciado, respeitado e adotado como diretriz.  Longe dele, há apenas o caos urbano, a improvisação,  o jogo de interesse imobiliário, o encarecimento dos serviços, o realce das dificuldades no cotidiano, que resulta em estresse, irritação,  insatisfação, agravos de saúde  físico e mental.  Nós moldamos  a cidade e depois a cidade nos molda, diz Jan Gehl.

E o que vamos moldar na cidade?

Evidente que vamos moldar a infra estrutura (água, esgoto, habitação, eletricidade, serviços básicos, transporte, emprego e renda), mas eu queria falar de um outro conceito, outra necessidade não escrita, mas imprescindível nos dias de hoje: precisamos fazer uma CIDADE AFETIVA – eu preciso de afeto, os senhores precisam de afeto – acolhedora, atenciosa, respeitadora. A cidade para pessoas.

Como se fez em Copenhague, Dinamarca, onde há o departamento para pessoas, que ouve o cidadão todo dia. Sem o aval deste departamento, nenhum projeto se executa. Ou em Medelin, na Colômbia, onde 10 % do orçamento é decidido com a comunidade.

Nós precisamos fazer uma revolução educacional, porque 44% dos homens e 33% das mulheres empregadas não têm instrução  ou ensino fundamental completo. Por isso não se pode abrir mão de universidades.

É preciso qualificar o espaço público. Pesquisa do Instituto  Paraná, acaba de mostrar que as principais queixas dos brasileiros são calçadas, iluminação, tempo gasto no trânsito, e falta de áreas verdes.

E os senhores têm o dever, independente de reeleição a qualquer cargo, de oferecer a nós, moradores, o design do nosso futuro. Esta Feira grandiosa, fantástica, que nós temos, tem potencial, econômico, geográfico, político, comercial, para se tornar a  metrópole que é seu destino. Cabe a nós determinarmos o nível da qualidade de vida que teremos.  E terá de ser assim porque os tropeiros continuarão a chegar, sem caçoás, mas com a mesma esperança de sucesso e segurança que todos que vieram para cá trouxeram na mala de mudança.

O que falei da Feira do futuro não é sonho. O futuro não é uma barganha. Feira é um território livre e uma cidade    disposta ao progresso. O que propus tem sido feito ao redor do mundo e Feira tem uma extraordinária vocação para crescer, quando bem estimulada. Isso a faz diferente, estimulante, atraente.   

Então, ao tempo em que realço meu orgulho e amor por esta cidade, os  convido para realizarem esta tarefa e nos deixarem este legado, no qual nos todos estaremos incluídos.

Me despeço  com um verso de um poeta americano Yeats, feito para uma namorada: “Eu estendo meu sonho sob seus pés. Pise com cuidado, pois você caminha sobre meus sonhos”.  Então,  cidadãos, dirigentes,  eu lhes digo: Feira estende seus sonhos, neste aniversario, sob seus pés. Pisem com cuidado, pois estão pisando sobre o sonho de 600 mil feirenses.



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