Confesso que surpreendeu a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional que reduz a carga horária dos trabalhadores para 40 horas e extingue o regime 6x1. Nesses aziagos tempos para o trabalhador, a medida representa um inesperado avanço civilizatório. A elevada simpatia popular pela medida, a pressão exercida pelas redes sociais e as eleições que se aproximam ajudaram a acelerar a discussão e a aprovação da proposta.
Por enquanto, a aprovação aconteceu na Câmara dos Deputados, com votação esmagadora. Até o Centrão e – mais ainda – a extrema-direita renderam-se, após diversas tentativas de sabotar a proposta. No Senado – acredita-se – também não deve haver grande resistência, embora se preveja o mesmo deplorável espetáculo da extrema-direita histriônica.
Quem dispõe de apenas um dia de folga por semana, sujeita-se a longas jornadas e a intermináveis deslocamentos para o trabalho não vive propriamente. Apenas sobrevive. Sobretudo porque, quase sempre, esse regime está associado a baixos salários. Dois dias de folga na semana – sendo um deles aos domingos – resgata muito da dignidade do trabalhador.
Ao longo da última década o cenário para o trabalhador brasileiro foi funesto. Começou com a grande crise econômica de 2015/1016, passou pela contrarreforma trabalhista de Michel Temer, piorou no desgoverno de Jair Bolsonaro, o “mito”, desaguando na contrarreforma previdenciária, na trágica pandemia da Covid-19 e em anos consecutivos de estagnação ou crescimento muito baixo.
Após a longa série de infortúnios, finalmente aprova-se uma medida que resgata, em alguma medida, a dignidade de quem trabalha, como se disse. Afinal, a “modernização” da legislação trabalhista prometida em 2017 traduziu-se apenas em mais longas jornadas laborais, achatamento salarial, precarização das relações de trabalho e elevação do adoecimento de quem trabalha.
Mas é bom lembrar que a conquista foi pontual. Não há nada que sinalize, para o longo prazo, novos avanços. Basta analisar – mesmo que muito por alto – o perfil de quem representa a população no Congresso Nacional. Tudo indica que, em outubro, deve vir coisa ainda pior. Na melhor das hipóteses, permanecerá a mesma bandalheira. Sem mobilização, portanto, não virão novos avanços.
Note-se que mesmo o governo só comprou a briga pela redução da escala 6x1 muito recentemente. Embarcou na ideia oportunamente, quando o rebuliço nas redes sociais já era grande. Mas pelo menos comprou a ideia. Grande parte dos deputados se limitou a prever grandes desgraças, mas se acovardou na hora da votação, conforme o resultado mostrou...
Durante muito tempo o Centro de Abastecimento foi um dos pilares do dinamismo comercial no centro da Feira de Santana. O movimentado entreposto atraía muita gente da zona rural e dos municípios próximos, que não deixavam de visitar becos, ruas e avenidas do agitado comércio da Princesa do Sertão. Sobretudo às segundas-feiras e aos sábados, o centro feirense ganhava vida, com gente que chegava de diversos destinos.
Neste século XXI, abandonado, o Centro de Abastecimento entrou em decadência e perdeu frequentadores; o comércio de bairro se fortaleceu e empreendimentos comerciais, como shoppings, conquistaram a clientela que, antigamente, tinha como opção exclusiva o centro da Princesa do Sertão. A expansão imobiliária, por sua vez, levou milhares a migrar para fora do Anel de Contorno, distantes do centro.
A soma destes fenômenos deixou o centro da Feira de Santana mais vazio. É muito comum ver as placas de “Aluga-se” e “Vende-se” desbotando-se, imóveis comerciais deteriorando-se e artérias vazias de passantes durante boa parte do dia. Dificuldades de deslocamento – congestionamentos, transporte coletivo precário – somam-se ao rol das mazelas.
Porém, o anúncio do prefeito José Ronaldo de Carvalho (UB), de que pretende desapropriar imóveis no entorno da prefeitura para instalar, ali, o Centro Administrativo do município, traz esperanças de revitalização para a região. Anunciou-se ampla desapropriação, que alcança as avenidas Getúlio Vargas e Senhor dos Passos e a rua J.J. Seabra. Note-se, todavia, que não foram estabelecidos prazos.
A Feira de Santana cresceu muito nas últimas décadas e a gestão administrativa não acompanhou essa expansão. Dispersos por inúmeros imóveis, os órgãos da prefeitura funcionam de maneira atomizada. A aproximação física é fundamental, com potencial de gerar sinergia administrativa e, sobretudo, oferecer aos cidadãos serviços de maneira racional e organizada, sobretudo àqueles que não tem intimidade com o universo digital.
Os impactos diretos e indiretos sobre o movimento no centro da cidade também são óbvios. Para lá afluirão os funcionários públicos e a população em busca de serviços; como desdobramento natural, vai se constituir e fortalecer uma teia de prestação de serviços secundários para esses públicos, produzindo externalidades positivas para o centro da Feira de Santana.
A iniciativa soma-se às reformas realizadas no projeto Novo Centro, que substituiu pisos, alargou calçadas, melhorou a iluminação e ofereceu condições para a humanização do centro da Princesa do Sertão. Faltaram iniciativas complementares, como trazer a prefeitura, de fato, para o coração comercial da Feira de Santana, por exemplo.
É bom lembrar que, no centro da Feira de Santana, residem hoje apenas 6.658 pessoas, distribuídas por 4.215 domicílios recenseados. Esta população é pouco superior a 1% da quantidade de feirenses contabilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Censo 2022.
Quando se concretizar, a implantação do Centro Administrativo vai figurar entre as mais importantes realizações da atual gestão municipal.
A sempre congestionada Avenida Canal é uma das vias essenciais de circulação na Feira de Santana. Começa na Avenida José Falcão, nas imediações das Baraúnas e do Minadouro, espichando-se tortuosa até a Rua Tomé de Souza, no bairro Rua Nova. O trecho entre o antigo Posto Moura – no acesso ao Sobradinho – até o Centro de Abastecimento costuma ser terrivelmente congestionado, mesmo nas horas de fluxo menos intenso.
A via abriga oficinas mecânicas, lojas de autopeças, borracharias, postos de combustíveis e o Centro de Abastecimento. Também abriga o Canal que lhe dá nome e que escoa um fluxo abominável, cujo odor é insuportável. Parte dos esgotos feirenses e da água das chuvas escoa por lá, encorpando-se em época de trovoadas ou chuvas mais intensas.
Quem vive naquelas cercanias enfrenta muitas adversidades. O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, traz números sobre uma comunidade que existe por lá há muito tempo: a Favela da Avenida do Canal, com seus 863 domicílios que se espremem à margem do canal e de estreitas vielas contíguas: as ruas Natal, Platina e Acácia. Quem não conhece, confunde-a com a Rua Nova.
Na localidade, residem 1.871 pessoas e a quantidade de moradores por quilômetro quadrado impressiona: 17,9 mil. Os pardos (47,8%), e os pretos (43,4%) constituem mais de 90% da população. O índice de pessoas alfabetizadas alcança praticamente 90% dos residentes. Para cada 100 mulheres residentes existem 90 homens, revela o censo.
Há indicadores positivos em relação à comunidade: coleta de lixo, acesso a água encanada, iluminação pública e banheiros de uso exclusivo são quase universais; a conexão à rede de esgoto ultrapassa os 96% de domicílios. Todo o entorno conta com vias pavimentadas, segundo o levantamento do IBGE.
Por outro lado, lá não existem estabelecimentos de saúde ou educação. Também quase não existem árvores: cerca de 80% das vias não têm árvores e as que tem contam com, no máximo, duas árvores. Outro drama é o acesso ao transporte coletivo: quase 99% dos domicílios não dispõem de pontos de ônibus no entorno.
Quem tem dificuldades de locomoção pena nas ruas da comunidade: quase 80% das calçadas oferecem obstáculos para os transeuntes. Rampas para cadeirantes não existem (80%) ou não há informação declarada (20%). Até calçada é luxo: pouco mais de 20% dos domicílios não dispõem do equipamento.
Os números revelam que há muito a avançar em qualidade de vida. Se por um lado há serviços públicos quase universalizados, por outro os moradores não dispõem do essencial para uma vida mais confortável. Note-se que a Favela da Avenida do Canal localiza-se quase no centro da Feira de Santana, bem distante das castigadas periferias feirenses.
Por fim, é bom ressaltar que, embora conhecida popularmente como Avenida de Canal, o logradouro oficialmente possui um nome muito mais pomposo, aderente às homenagens às grandes personalidades da História: Avenida Padre José de Anchieta...
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador da República, filho de Jair Bolsonaro, o “mito”, não tem condições de ser presidente do Brasil. Não, não vou desfiar aqui razões políticas, ideológicas, morais, éticas ou – até mesmo – criminais. Observo que o representante do Rio de Janeiro na Câmara Alta – o Senado – é demasiado ingênuo, bondoso, bobo mesmo, para assumir cargo de tamanha relevância. É bom começar recordando uma frase corriqueira nos meios políticos: na política, perdoa-se tudo, menos a ingenuidade.
Qualquer pesquisa na Internet revela as suspeitas de que Flávio Bolsonaro, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, foi investigado por peculato, a popular “rachadinha”. O crime implica em, por exemplo, embolsar parte dos salários de assessores. O senador, em sua defesa, alegou que não sabia da prática. Atribuiu-a a seu antigo faz-tudo, Fabrício Queiroz. O episódio revela um político ingênuo, incapaz de enxergar a maldade no coração do outro. Talvez até displicente.
O patriótico senador já foi acusado, também, de excessiva proximidade com milicianos e familiares destes. Condecorou até um deles, Adriano da Nóbrega, ex-PM já morto, com a maior honraria do Legislativo fluminense: a Medalha Tiradentes. Este até estava preso quando foi homenageado. Flávio Bolsonaro alegou que, até então, a conduta do finado não o desabonava. Faltou malícia no episódio, pelo visto. Talvez o senador imaginasse que o futuro chefão do Escritório do Crime estivesse preso por alguma boba infração administrativa ou fosse vítima da perseguição de algum inimigo.
Para o texto não ficar muito longo, a linha do tempo precisa correr. Cheguemos, pois, a Vorcaro e ao Banco Master. Pilhado num áudio requisitando algumas dezenas de milhões de reais para o filme sobre o pai, Flávio Bolsonaro defendeu-se: alegou que, até a data do contato, nada desmerecia o então banqueiro hoje domiciliado na carceragem da Polícia Federal, em Brasília. Engano: investigavam-no há tempos. Vá lá que o coração do senador seja enorme – uma figura bondosa mesmo – mas faltou-lhe, pelo menos, uma assessoria bem informada.
Injustamente acossado, o parlamentar reuniu-se com a bancada do seu partido. Pediu 30 dias para prestar contas do destino das dezenas de milhões de reais requisitados ao amigo Vorcaro. Mais uma vez, o senador revelou-se mal-assessorado, talvez desorganizado em sua contabilidade, mesmo sendo sócio de uma prodigiosa loja de venda de chocolates.
À altura que este texto se aproxima do seu desenlace, talvez já tenha surgido por aí mais uma explicação do senador para reforçar sua inocência. Mas vou parar por aqui. Resgatando o fio dos episódios mencionados acima, é impossível não chegar à conclusão de que o Brasil não pode ser entregue a uma pessoa ingênua. Excelente coração, generoso, bondoso, gente fina, mas sem malícia nenhuma para tocar o Brasil adiante. Na política, é pecado capital ser ingênuo.
Talvez a ingenuidade do senador – aqui já há especulação – venha de sua condição de cristão, de homem temente a Deus, defensor da família, patriota inflexível. É comovente vê-lo compenetrado nos cultos, olhos cerrados orando a Deus. Certamente ali ele encontra força e sabedoria – imagino que disponha destas de sobra -, mas não o traquejo necessário para tornar o Brasil de fato o florão da América.
Mais maduro e calejado, quem sabe lá adiante Flávio Bolsonaro não consiga fazer-se entender pelos brasileiros, que teimam em não aceitar suas explicações, forçando-o a elaborá-las em série...
O distrito de Tiquaruçu possui uma peculiaridade em relação a outros distritos feirenses: não faz divisa com a sede da Feira de Santana. Localizado bem ao norte do município, a área do distrito é fronteiriça apenas com a Matinha e Maria Quitéria, mais próximos da sede. Um dos limites de Tiquaruçu, a oeste, é cortado pela BR 116 Norte. Já a BA 504, que liga a rodovia a Santanópolis e Irará, atravessa todo o território do distrito.
Apesar da relativa distância da sede da Feira de Santana, Tiquaruçu é um dos distritos em que a cultura pulsa mais forte na Princesa do Sertão. Lá acontece, no começo do ano, a afamada Festa de Reis, que mobiliza a comunidade e atrai vistantes para conhecer a celebração.
O distrito também ostenta outra curiosidade, esta de caráter econômico. Lá se produzem bonsais com flores típicas da Caatinga. O bonsai é uma técnica milenar japonesa, que promove o cultivo de plantas em miniatura, mantendo todas as características de uma planta adulta. A iniciativa emprega tecnologia social e constitui um dos atrativos de Tiquaruçu.
O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, indica que 4.348 pessoas residiam no distrito naquele ano. Estavam distribuídas em 2.313 domicílios, localizados na sede e em comunidades como Alto dos Santos, Caatinga e Socorro. A área total do distrito é de 78,48 quilômetros quadrados, com 55,41 habitantes por quilômetro quadrado.
A exemplo do que se verifica nos demais distritos ao norte da Feira de Santana, há poucos brancos em Tiquaruçu: somente 214. Os pretos são 1.404 e os pardos, 2.727. Estes últimos constituem a imensa maioria negra da comunidade. O Censo 2022 também registrou a presença de três indígenas vivendo no distrito.
Há mais mulheres que homens, mas a diferença é pequena: 2.248 mulheres e 2.100 homens. A população é mais escolarizada que em outros distritos (81,6%), mas está abaixo da média do total do município, de cerca de 93%. A distribuição etária da população – com média de idade mais elevada – ajuda a entender a questão da alfabetização.
Há poucas crianças e adolescentes em Tiquaruçu: apenas cerca de 10% da população tem idade até 14 anos. A maior parte dos moradores (cerca de 14% entre homens e mulheres) tem idade entre 30 e 49 anos. O número de idosos também é elevado: 9% acima de 60 anos entre as mulheres e 7% entre os homens.
Para visitar Tiquaruçu é necessário percorrer cerca de 17 quilômetros pela BR 116 Norte, mais 13 quilômetros até a sede do distrito. Além da Festa de Reis, Tiquaruçu tem imóveis com fachadas antigas e uma pedra – a “pedra grande” - que desperta a atenção dos visitantes.