Meses atrás escrevi alguns textos sobre o tsunami mercantil chinês na Feira de Santana. Pulverizado pela Princesa do Sertão, o comércio de manufaturados da China não se limita ao centro da cidade, alcançando também os bairros comerciais e, inclusive, lojas minúsculas na remota periferia feirense. A estrutura tentacular do comércio de rua desdobra-se engajando comerciantes miúdos que atuam no varejo e que veem no mercadejar uma oportunidade de renda.
Estes tentáculos, que se irradiam pelas longínquas periferias, também integram o muito mais robusto ecossistema mercantil chinês, espacialmente concentrado em artérias específicas no centro da Feira de Santana. Basicamente, no entorno do Feiraguay, onde se veem dezenas de lojas tocadas por chineses e que, inclusive, contam com orientais até no atendimento.
Conforme mencionado em texto anterior, a Rua Conselheiro Franco e as ruas próximas à Praça Presidente Médici abrigam boa parte do ecossistema. Fora dali, existem lojas de confecções que, em alguma medida, vinculam-se a empresários chineses. Mas afastam-se um pouco da vocação manifesta pelos orientais por aqui, de comercializar eletrônicos e produtos afins.
Curiosamente, no Shopping Popular e cercanias – bem no antigo e maltratado Centro de Abastecimento – não se veem os chineses com suas lojas e seus produtos ocupando boxes ou estabelecimentos próximos. Em outras palavras, não se instituiu – e nem se insinua – a constituição de uma superestrutura mercantil observável nos moldes do Feiraguay.
A crônica das ruas feirenses é fértil em cogitações sobre os “verdadeiros donos” ou sobre “quem deve assumir lá na frente” o Shopping Popular. Nos corredores estreitos do Feiraguay, nos galpões do Centro de Abastecimento, nos espaços agora largos da Sales Barbosa, na ensombreada Froes da Mota, na agitada Marechal Deodoro, em todos esses lugares esses comentários circulam.
Mas, até aqui – lá se vão seis anos – o Shopping Popular não mostrou a que veio e, à primeira vista, os chineses não tem nenhuma conexão com o equipamento. Senão, talvez já estivessem lá dentro, ou, no mínimo, ocupando o comércio na Olímpio Vital, na Avenida Canal, na Praça do Tropeiro, enfim, naquelas cercanias.
Caso estivessem, a desolação e a estranheza certamente seriam menores. Afinal, estabeleceu-se na Feira de Santana uma curiosa dicotomia. Nos estreitos e acanhados quarteirões que circundam o Feiraguay, muita agitação e comércio, sobretudo nos tempos de festa; no Shopping Popular, a tristeza dos grandes espaços desertos, sem gente, abandonados.
Embora lento, o processo de reconfiguração mercantil é incessante. O que se vê, no momento, como estático, mais à frente sempre se transfigura. Quem imaginaria, décadas atrás, que o comércio de rua declinaria, golpeado pelas vendas digitais? Quem enxergaria o avanço avassalador do comércio de bairro?
Enfim, o tema é palpitante e, mais à frente, renderá novos textos e análises, sem dúvida...
Bonfim de Feira é o distrito mais a oeste da Feira de
Santana. Também é um dos mais distantes da sede do município: pouco mais de 30
quilômetros. Para chegar até lá é necessário deixar a cidade pela BR 116 Sul e,
mais à frente, após a ponte sobre o Rio Jacuípe, seguir à direita pela Estrada
do Feijão, a BA 052. Percorrendo mais alguns quilômetros, alcança-se o acesso
mais à frente, num retorno sinalizado. Bonfim de Feira faz fronteira com
Anguera, Serra Preta e Ipecaetá, municípios vizinhos.
Em Bonfim de Feira a herança cultural da pecuária parece ser
mais acentuada que nos demais distritos feirenses. É que, por lá, muitas
décadas atrás, havia criatório e fazendas de gado extensas, propriedades da
antiga elite rural feirense. Lá também era caminho de boiadas e boiadeiros. A
igreja imponente e o casario acanhado, ainda hoje de pé, testemunharam a época
em que o distrito viveu o seu apogeu.
Inteiramente imerso na caatinga, Bonfim de Feira fica próximo
de serras que se estendem em direção a Anguera, a Serra Preta e Ipirá, a
Ipecaetá também. Lá estão, silenciosas e azuladas nos dias de estio, a Serra da
Caboranga (570 metros de altitude), a Serra do Sebastião (435m), a Serra da
Guariba (599m) e, mais distante, a Serra da Caboronga (589m), mais perto de
Anguera.
Assim como na Matinha, a população de Bonfim da Feira é
majoritariamente negra, de acordo com o Censo 2022 do IBGE: pardos (1.418)
somam-se aos pretos (1.354), totalizando 2,7 mil afrodescendentes. Os brancos
somam apenas 122 pessoas. Não há, por lá, indígenas ou amarelos.
O distrito soma só 2.895 pessoas, distribuídas por 85,5
quilômetros quadrados. A densidade populacional é muito baixa: só 33,8
habitantes por quilômetro quadrado. Boa parte das residências localiza-na na
porção urbana do distrito: 1.910 ou cerca de 66%. Os 985 restantes
distribuem-se pelos vastos espaços rurais.
As mulheres são maioria: há 1.520 delas e 1.375 homens. O
analfabetismo permanece como um desafio: 1.668 pessoas são alfabetizadas, o que
representa 75,2% dos moradores. Por outro lado, 549 pessoas – quase 25% dos
maiores de 10 anos – não sabem ler e escrever.
A população de Bonfim de Feira envelhece: cerca de 12% dos
residentes tem idade superior a 60 anos. Note-se que, nestas faixas etárias, a
quantidade de mulheres é bem superior à de homens. Até os 14 anos de idade,
também há cerca de 12% de crianças e adolescentes. Ou seja: para cada criança,
há um idoso.
Na faixa etária dos 30 aos 49 anos também há cerca de 12% de
homens e mulheres. Há, percentualmente, menos pessoas nas faixas inferiores de
idade, entre os 19 e os 29 anos. O que explica o fenômeno? Talvez, neste
segmento, tenha ocorrido a opção pela migração, em busca de melhores
oportunidades de vida. É que ocorre em boa parte dos pequenos municípios e
distritos brasileiros.
Registros apontam que Senhor do Bonfim – o nome antigo era
Itacuruçá, que significa pedra da cruz – é anterior à própria Feira de Santana.
Sua ocupação, certamente, remonta à expansão da pecuária pelo remoto interior
do País. Hoje é denso de memórias sertanejas, plantadas pela frenética
atividade bovina de séculos atrás.
Já faz um tempo que o mundo está do jeito que o diabo gosta. Guerras, ditaduras, ameaças à liberdade e à democracia, fanatismo religioso, proliferação de discursos do ódio, governantes promovendo e locupletando-se com fraudes e falcatruas, episódios de pirataria de Estado, fome, miséria, desigualdade, migrações forçadas por conflitos bélicos e – novidade assustadora! – pelas mudanças climáticas.
Talvez seja por isso que Donald Trump – irretocável
caricatura de anticristo – esteja se coçando para escalar a guerra que promove
no Oriente Médio, recorrendo – quem sabe? – a artefatos nucleares. Inquietantes
notícias na imprensa norte-americana dão conta de que o imperador alaranjado andou tentando acessar os códigos da famosa mala
nuclear que pode decretar o armagedom. Foi contido por um general.
Enquanto o armagedom não vem, os argentinos
substituem, em suas refeições, carne bovina por muares. É isso mesmo: os hermanos
estão recorrendo à carne de burro como fonte de proteína. Na tevê, uma repórter
provou a iguaria, com ar de repugnância, para provar à população que o produto
é uma opção palatável. Tudo para manter Javier Milei, o histriônico mandatário
de lá, em alta.
Notícias recorrentes informam, com orgulho, que os
fundamentos macroeconômicos estão sólidos por lá. Nos anos 1990, o Brasil
também atravessava uma época assim. Alguém até definiu, de maneira lapidar, o
cenário brasileiro, naquele momento: a economia vai bem, mas o povo vai mal. A
Argentina foi fisgada em arapuca semelhante.
Aqui, no Brasil, parte da chamada grande imprensa
entusiasma-se, cada vez mais, com Flávio Bolsonaro, o filho do “mito”. A razão?
Seu desempenho nas pesquisas, emparelhado com Lula. Além de livrar os golpistas
da cadeia, o candidato, até aqui, não revelou nada do que pretende fazer.
Entende-se: pelo visto, não pretende fazer nada.
Com relação à carne de burro, os brasileiros podem ficar
tranquilos. Ninguém a comerá. Caso a extrema-direita ascenda ao poder,
certamente, dezenas de milhões roerão ossos, farão sopa com embalagem de
charque, comerão pequenos roedores no interior do Nordeste. Esse é o passado
que essa turma pretende resgatar, retomando o próprio cenário do governo de
Jair Bolsonaro, o “mito”, de uns poucos anos atrás. Isto se o armagedom
de Donald Trump não nos atropelar antes.
A liberação de saques de recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, o FGTS, começou no governo de Jair Bolsonaro, o “mito”. Na pandemia, foi liberado um saque no valor de até R$ 1 mil por trabalhador. Mais à frente, institui-se o saque aniversário, permitindo nova retirada de valores. No ano da eleição, nova liberação, um saque extraordinário no valor de R$ 1 mil. Esta última veio no bojo de medidas populistas voltadas para ajudar a reeleger o “mito”.
Na ocasião, críticos advertiram para o desvirtuamento do uso do fundo. Ao invés de se utilizá-lo como poupança para auxiliar o trabalhador em momentos de necessidade, como em situação de desemprego, o FGTS começou a ser sacado para financiar gastos correntes, sem critério.
Os recursos do FGTS costumam ser utilizados para financiar a construção civil, impulsionando os programas habitacionais. A contínua liberação de recursos reduz o volume disponível. Qual o efeito óbvio? O aumento dos custos de financiamento, o que torna a sonhada casa própria mais cara.
Muitos defendiam a utilização do recurso porque a remuneração do FGTS é baixa, o que é verdade. Mas a solução não passa por dilapidar o fundo e, sim, por discutir melhores índices de remuneração. Argumentos toscos a favor do “libera geral” eram comuns naqueles tormentosos anos.
O surpreendente é que, agora, o governo Lula pretende liberar parte do FGTS para trabalhadores quitarem dívidas. Ou seja: vai recorrer ao mesmo expediente do “mito”, exatamente em ano eleitoral. Acossado pelo cenário desfavorável no momento, vai recorrer à medida popularesca para tentar recuperar a simpatia do eleitor. Não há certeza de que vai dar certo, assim como não deu para o “mito”.
A poupança gerada pelo FGTS costumava ser destinada a fins nobres, estruturantes: a políticas habitacionais que resgatavam milhões de brasileiros dos custos do aluguel. Agora vai para quitar dívidas contraídas no curto prazo, inclusive geradas pelas apostas nas afamadas bets. Mais à frente, nas próximas eleições, imagino que a ideia será mais uma vez resgatada, numa espiral viciosa sem fim.
Por mais espetaculosos que sejam, os malabarismos retóricos não vão encobrir a péssima opção que se faz à cata de votos. O problema é que os impactos não virão no curto prazo. Ocorrerão mais à frente, com os brasileiros penando nos financiamentos imobiliários mais salgados para conseguir escapar do aluguel...
Naquele tempo, na famosa subida do Sobradinho, havia pouco comércio. Predominavam as fachadas sisudas das antigas residências, algumas delas já desgastadas pelo tempo. O vaivém dos antigos ônibus sinalizava que a cidade se expandia em direção à periferia, mas não eram incomuns boiadas pisando os paralelepípedos azulados, com seu passo lento. Pastavam nas áreas baldias do bairro, que iam escasseando. Depois, subiam, mansas, tocadas por aboios.
No cruzamento, no alto da ladeira, bem no acesso ao estádio Joia da Princesa, pulsava o coração comercial do Sobradinho. Ali havia pequenas farmácias, uma fábrica de tubaína já extinta, supermercado, padaria, bares minúsculos, antigos, e o badalado Ferry Boat, um bar em formato de embarcação, que se destacava naquele tempo de edificações térreas e telhados acanhados. Hoje há, lá, um posto de combustíveis.
Na quina da calçada triangular do Ferry Boat, bem na bifurcação, instalou-se uma banca de jornais que, passando por donos diferentes, subsistiu por muito tempo. Era fascinante passar por lá e conferir, semanalmente, as novas publicações disponíveis, os jornais do dia empilhados à espera dos leitores. O cheiro de papel novo das revistas era inebriante.
Às vezes o Ferry Boat fechava e a pintura descascava-se, desfazia-se sob a ação do sol e das chuvas. A garotada aproveitava os muros baixos e, com um curto salto acrobático, ocupava os espaços largos, correndo pra lá e pra cá na balbúrdia típica da infância. À época as brincadeiras eram analógicas, os primeiros jogos eletrônicos só chegavam às mãos das crianças abastadas.
Mas durante parte do tempo o Ferry Boat funcionava à noite, nos finais de semana. De casa, era possível ouvir canções fragmentadas que o vento trazia. Não sei se pelo repertório ou pela ação do vento, o fato é que as músicas soavam como profundos lamentos soturnos. Sobretudo nos domingos à noite, quando reinava o silêncio denso que antecedia as manhãs de segunda-feira.
Raros automóveis passavam produzindo aquele ruído característico sobre o calçamento liso. A vizinhança, pacata, recolhia-se cedo. Rádios e aparelhos de tevê funcionavam no volume compatível com os hábitos vigentes. As canções que rolavam no Ferry Boat, então, irradiavam-se ao sabor do vento, subindo e baixando, esticando-se, encurtando-se, numa melancolia mortificante.
Durante muito tempo alimentei o desejo juvenil de saber quem cantava aquelas músicas que atiçavam a tristeza domingueira, mais intensa nos dias frios, quando uma névoa leitosa insinuava-se antes da madrugada. Lembrava, então, da aula na manhã seguinte e o mal-estar crescia, corrosivo.
Pensava que, um dia, de alguma maneira, exprimiria aquelas sensações. Pois aí vai o texto, inesperado, depois de tê-lo começado com a intenção de apresentar números que revelam como o Sobradinho se tornou um bairro de idosos, ao longo dos anos...