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Cultura

Bicho da Feira: outra versão sobre o mal

Ísis Moraes - 21 de Março de 2019 | 07h 31
Bicho da Feira: outra versão sobre o mal
Foto: Ísis Moraes

Mulas-sem-cabeça, lobisomens, mouras-tortas, quibundos, curupiras, sacis, santelmos, hipupiaras, caiporas, boiúnas, monstros informes, gigantes, anões, mágicos, homens esplêndidos, cobras encantadas, lumes errantes, reis das florestas e uma infinita legião de seres espantosos acompanham o homem desde os primórdios de sua peregrinação sobre a Terra, alimentando “todas as águas vivas, ardentes e eternas do medo, do pavor sem contorno e da imaginação”, como bem define o folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo.

Infixas e terríveis, protetoras e más, invisíveis e presentes, inúteis em suas ações destruidoras, essas entidades míticas têm em comum a “ferocidade ininterrupta”, a “antropofagia bruta” e o “arremesso bárbaro” e, segundo Câmara Cascudo, remontam sempre à recordação do “inimigo”, do “estrangeiro”, à memória do ataque inesperado e depredatório de gente de fora. Evocadas do mistério, não se explicam senão pela crença cega e absoluta, afinal, como lembra o folclorista, “a fé não é básica apenas em assuntos religiosos”.

Ainda conforme Cascudo, não é possível fixar a fórmula inicial de qualquer formação mítica. Também não é possível saber como se reúnem. O certo, diz ele, é que perambulam por todos os tempos e por todas as culturas, amalgamando-se e reformulando-se, ao longo dos séculos, e que continuam entre nós, deixando rastros nas almas assombradas das crianças e plantando incertezas nos espíritos maduros, espíritos estes que, por via das dúvidas, jamais deixam de se apegar a superstições e amuletos, como que a esperar que eles previnam e afastem toda e qualquer manifestação do Mal.

O folclorista explica que esses milhões de gestos, reservas e atos instintivos, subordinados à mecânica do hábito como gestos reflexos, resultam do vestígio de cultos desaparecidos ou da deturpação ou acomodação psicológica de elementos religiosos contemporâneos, condicionados à mentalidade popular. Inevitáveis, participam da própria essência intelectual humana, não havendo momento, na história do mundo, sem as suas presenças.

No célebre Dicionário do Folclore Brasileiro, Cascudo lembra que “a elevação dos padrões de vida, o domínio da máquina, a cidade industrial ou tumultuosa em sua grandeza assombrosa são outros tantos viveiros de superstições, antigas, renovadas e readaptadas às necessidades modernas e técnicas”.

Do mesmo modo, o uso dos amuletos é uma constante etnográfica em todos os povos e épocas. Câmara Cascudo enfatiza que muitos são os talismãs usados para combater os malefícios, afastar as calamidades e trazer boa sorte: pata de coelho, olho de boto, cavalo marinho, trevo de quatro folhas, fitas, santinhos, medalhas, figas de guiné, inscrições e uma série de orações, caracteres mágicos, figuras e outros objetos trazidos ao pescoço, costurados na roupa ou conservados, com todo cuidado, em pequenas bolsas.

No entanto, um amuleto, em especial, nos interessa, aqui: o Signo de Salomão. Constituído de dois triângulos equiláteros sobrepostos, em sentido contrário, e entrelaçados em forma de estrela hexalfa, o também chamado Selo de Salomão pertence ao acervo de signos mágicos de diferentes povos, em diversas épocas, e chegou até nós por meio da tradição judaica. Ele representa a estrela brilhante do macrocosmo e, segundo a crença popular, tem o poder de livrar dos infortúnios e de afastar as entidades maléficas.

Bem antigo, portanto, é o uso assinalar as casas com símbolos religiosos e outros sinais, com a finalidade de proteger, afastar a infelicidade e resguardar seus moradores de desventuras. Segundo Câmara Cascudo, no Nordeste brasileiro, celeiro de tantos mitos oriundos da integração das três raças formadoras do país, quando se acreditava que bruxas e carochas vinham sugar o sangue das crianças, no silêncio da noite, procurava-se evitar tamanha atuação diabólica traçando Signos de Salomão nas portas dos quartos.

FEIRA E O SIGNO DE SALOMÃO – Em épocas críticas da história de Feira de Santana, a exemplo das décadas de 40 e 60, a população local também se valeu desse recurso, acreditando ser possível manter-se a salvo do bicho horroroso e feroz que, segundo relatos, andou aparecendo nas redondezas, atacando animais e espalhando o pânico entre os moradores. A entidade maléfica conhecida como Bicho da Feira também foi apelidada de Bicho do Tomba, porque o bairro, à época rural e distante do Centro, era um de seus principais pontos de ataque.

De acordo com o professor e pesquisador Cledson Ponce, da Universidade Estadual de Feira de Feira de Santana, diante do terror suscitado pela aparição da criatura, o povo recorreu ao velho recurso bíblico, passando a desenhar, nas portas das casas, o símbolo sagrado. Agora, porém, “acrescido das letras J, M, J, e encimado por uma cruz”. A inscrição significa Jesus-Maria-José e era uma forma de pedir a proteção da Sagrada Família. “Mais uma vez se confirma a tradição de origem judaica, que remonta há séculos, e que foi acrescida de elementos cristãos”, observa Ponce, na dissertação de mestrado Um entrecruzar de histórias, símbolos e estórias: o cordel iconográfico de Lênio Braga (Uefs, 2002).

A Antropologia explica que é natural que, de tempos em tempos, esses animais fabulosos apareçam, em determinados lugares, já que, misto de ficção e cultura, fazem parte do imaginário popular. “Quanto ao de Feira, ninguém nunca soube ou pôde confirmar nada. Verdade ou não, até na própria sede do município as pessoas ficaram com medo de sair de casa, principalmente à noite, pois vários eram os boatos e testemunhos de pessoas que juravam ter visto e/ou sido atacadas por ele. Novamente em começos dos anos 60, indo até meados da década, o ‘bicho’ fez suas incursões por Feira, mas desta vez de forma menos contundente”, diz o pesquisador.

LOBISOMEM? – Uma curiosidade é que o Bicho de Feira de Santana, contrariamente a alguns fenômenos registrados em outras localidades, como o Boto, na região Amazônica, e o ET de Varginha, na região mineira, nunca teve uma forma definida. À época das supostas aparições, a população se questionava se seria alguma espécie de lobisomem, embora nunca se tenha chegado a um consenso. Cada um descrevia o monstro segundo os contornos de seus medos.

No painel do terminal rodoviário, Lênio imortalizou a sua versão, com direito a Signo de Salomão e inscrição da Sagrada Família, mas, no seu caso, não pela mão do medo, e sim pela mordaz via da crítica. O monstro aparece como personificação do poder totalitário que dominou o país na década de 1960. Isso não é gratuito. Rumores sobre o bicho surgiram, em Feira, associados a dois períodos conturbados da vida política do país: a Ditadura Vargas, na década de 40; e a Ditadura Militar, deflagrada em 1964.

Além de Lênio, nas artes plásticas, alguns escritores também se apropriaram do material histórico que dá conta das incursões do bicho na região de Feira de Santana. A partir da memória coletiva da cidade, que ainda guarda resquícios do terror suscitado pela aparição da besta-fera, e dos inúmeros relatos registrados nos periódicos da época, como é o caso do jornal Folha do Norte, cujas páginas, frequentemente, davam conta do itinerário do monstro, eles recriaram e deram corpo, na instância ficcional, à mesma crítica. Um desses romancistas é o premiado feirense Fernando Ramos, falecido em 2008.

As histórias sobre o animal fantástico que, vez por outra, aterrorizava a cidade são o ponto de partida do romance O lobisomem de Feira de Santana (2002), que trata, dentre outros assuntos, do cotidiano provinciano da antiga Feira, subitamente abalado por acontecimentos estranhos, afinal, numa cidade pequena e pacata, o assombro facilmente se converte em transtorno.

Ambientado no ano de 1945, o romance se vale da versão tradicional do mais popular dos animais fabulosos para personificar o mal: na forma humana, o lobisomem é um indivíduo extremamente pálido e magro, fastidioso, de orelhas compridas e má aparência; transformado em bicho, surge de unhas e barbas crescidas, peludo e horrendo para, aparentemente, cumprir a sina da qual nos dá conta Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro:

 

“Aos treze anos, numa terça ou quinta-feira, sai de noite, e topando com um lugar onde um jumento se espojou, começa o fado. Daí por diante, todas as terças e sextas-feiras, de meia-noite às duas horas, percorre sete adros (cemitérios) de igreja, sete vilas acasteladas, sete partidas do mundo, sete outeiros, sete encruzilhadas, até regressar ao mesmo espojadouro, onde readquire a forma humana.”

 

Mas entre o mito e a realidade, a fina ironia de Fernando Ramos apresenta, ao leitor, um lobisomem um tanto peculiar. O bicho que mexe com a imaginação da população feirense, suscitando manifestações de valentia, horror e delírio – como o de Pititico, que afirmava ser o lobisomem um remendo de gaze, em cujo corpo não nascia cabelos e sim capim –, tinha o estranho hábito de atacar velhinhas indefesas, em noites de lua cheia, não para sangrá-las, como seria conveniente a um lobisomem, mas para roubar-lhes o dinheiro:

 

“A lua retocava nuvens. A velha, de rugas simplórias, beirando oitenta anos, os olhos pisados, vinha sozinha da casa de seu Eulálio e de dona Emília (...), o coração sem alívio, no pavor. Velha simples, devota de Nª. Sª. do Amparo, não perdia missa de padre Amílcar e de padre Mário. Os perspicazes de bar, os jogadores de baralho, os guardas-noturnos não logravam, ainda, passar o escovão nas ruas, isto é, dominá-las. Havia o silêncio com indícios de tristeza.

A velha voltava à casa, no momento se encontrava caminhando pelo passeio de seu Luisinho Azevedo, viu luzes num dos quartos. Seguiu, após parar por segundos, o coração sobressaltado. O inconsciente trepara no consciente, o pavor obrigava-a a não olhar para trás. A velha é Hermínia, costureira conhecida, as pernas sem perseguição de reumatismo, os sapatos baixos. (...)

Hermínia alongou o passo, o coração aos trancos, parecia ter visto uma sombra se deslocando no muro, meio desajeitada, como aquelas dos filmes surrealistas alemães (...). Sentiu a falta da sobrinha, a corajosa sobrinha. Cadê um guarda noturno? (...) Hermínia se encontrava já no passeio do armazém de fumo do velho Bartolomeu Santos, perto do Fiado, quando o lobisomem atacou: um homem-bicho, os dentes de cavalo, a roupa suja, a calça remendada, o rosto camuflado de pelos (sic), os braços idem, mas usava luvas. Por quê? Para ninguém lhe reconhecer as mãos? Hermínia notou tal pormenor, antes que o lobisomem lhe levasse a bolsa com dinheiro e sumisse. Hermínia gritou. O grito deu caruara, meio desentoado, se perdendo por figos da rua e espantando mariposas dos postes. Aí, como se abrissem as portas do inferno de Dante, apareceram perdidos Dilermando Simões e o primo Padreco. Julgando que algum ladrão atacara alguém. Viram a velha Hermínia desmaiada. Acudiram com extraordinária rapidez, dando tratos à imaginação. ‘É a costureira Hermínia, Padreco. Parece ter sido atacada pelo lobisomem’. ‘E fui’, balbuciou a assustada anciã, o rosto lívido, como acordasse de um pesadelo. ‘Ele é horrível. Usa luvas’. Continuou ela, interessada nesse pormenor e amparada pelos dois, se levantando, comprimindo os maxilares, num gaguejo.” (p. 49)

 

O tal pormenor, notado não apenas por Hermínia, mas por todas as velhinhas atacadas pelo “lobisomem”, leva a população a desconfiar da autenticidade do elemento sobrenatural. Em sermão, o padre Amílcar resume o pensamento das autoridades eclesiásticas e policiais, que, prontamente, se unem a alguns rapazotes da cidade, como Fernando Espírito – personagem que representa o próprio autor, assim apelidado, na juventude, por um amigo, por ser o pai seguidor da doutrina Espírita – e o corajoso Permínio Andrade, que já dizia ser o lobisomem “uma produção barata do filme-terror, sem o baque pesado do dólar”, com o intuito de desmascarar o suposto farsante.

 

“Um inconseqüente (sic) elemento, querendo explorar a ingenuidade alheia, fantasiou-se de bicho para assustar venerandas senhoras, já há alguns dias. O vulgo apelidou-se de lobisomem, conforme o labor cinematográfico. Na última lua cheia, a cidade aceita o solavanco, dona Hermínia dos Humildes de Almeida teve arrancada a bolsa, e quase morre de sobressalto, no passeio do armazém de fumo do Sr. Bartolomeu Santos. Atentem para o gesto do indivíduo: atacando idosa senhora, roubando-lhe o dinheiro, o assaltante não é alguém de outro mundo, nem alguém de procedência imaterial. Enfim, não é alma. É malfeitor. O vulgo, açulado pela crendice popular, julga-o lobisomem. Nada disso. É meliante. A polícia deve prendê-lo.” (p. 54)

 

Apesar das desconfianças, o mistério e a curiosidade cresciam. E enquanto o ilusório ganhava tempo, “despejando pensamentos doidos nos cérebros enfraquecidos”, pelo sim, pelo não, a cidade se resguardava como podia. As investidas policiais eram cada vez mais frequentes e chegaram ao extremo de levar homens disfarçados de mulher para as ruas, com o intuito de agarrar o malfeitor. O engenhoso intento, no entanto, resultou inútil, já que, naquela noite em que “a lua freqüentou (sic) o céu como um balaio”, o bicho, curiosamente, resolveu não atacar. Do mesmo modo, crescia a lista de suspeitos, em geral sujeitos desafortunados levados a interrogatório pela feiúra e pelo cultivo de hábitos não comuns à maioria da população.

 

“A Rivieraé uma porta enorme, embaixo do andar da Associação dos Artistas Feirenses, na Rua Direita, com duas sinucas e dois bilhares, meio escura (...). O tipo que mora no quarto dos fundos, aliás o único quarto, sem cozinha, sem banheiro, sem janelas, meio porco e de olhar de farol baixo, não encara as pessoas. Não encarou o cabo Maia, sete horas da manhã, antes de abrir o bilhar, suas sobrancelhas desassuntadamente avacalhadas, as costeletas levianas. O quarto notavelmente desarrumado, um espelho rachado e roupa de cama cheirando a cavalo de campo que não foi lavada. A camisa fora contratada pelo mofo, não havia guarda-roupa. Uma cômoda incomodava os olhos, em cima dela o retrato antigo duma dona que bifurcava a melancolia (...).

‘É o retrato da minha ex-mulher, cabo. Meu nome é Iracino, mais conhecido como Bom Bigode. Sou incapaz de fazer mal a ninguém. Seu Oscar Marques me arrumou este emprego há dois anos, vou levando, mas gosto mesmo é de ser garçom do cassino dele. Trabalho todas as noites, menos às sextas, quando é minha folga’.

O cabo atentou no moreno balançar nos quarenta anos, encenado nos metro e sessenta de altura.

‘Onde o senhor estava Sexta-feira, ontem à noite, porque o cassino não abriu?’, indagou o cabo, reparando em luvas cinzas dum folheto de crentes da seita Testemunha de Jeová.

Iracino não tinha intimidade com o cinema, detestava filmes, não sabia nomes de atores e atrizes, e nunca teve dinheiro para comprar uma radiola barata com disco de ‘Os Anjos do Inferno’, seu conjunto preferido. Era recordista municipal em não ter aumento, comia no cassino, tinha dois sapatos, duas camisas, duas calças. Filho de Conceição do Almeida, bloqueado por boas feições e por mãos bem torneadas. Criava unha e barba por fazer, pontificado por corpo mal feito. Se o cassino não abriu ontem, porque um cano d’água estourara no restaurante e, coincidentemente, era aniversário do cozinheiro. Fora visitar América, uma bailarina de bosta na cabeça, que transava com ele, nos Olhos d’Água. Só anda desarmado, a lua era agoureira, e ele vinha correndo para abrir A Riviera (...), o medo tinha espinhela-caída. Também se dizia um apavorado com esse tal de lobisomem. Não perdera a inauguração da Igreja Testemunha de Jeová, vivia com Jesus havia cinco anos. Nada de antecedentes criminais. Era um sentimental, um medroso.

‘E estas luvas, esta cabeça de macaco e esta roupa estranha?’

‘Usei tudo na última micareta. Sou folião’.

Sem ser perguntado, a seguir, disse que ia vender a fantasia, precisava de espécie. (...)

Devido a empanturrar-se, como um seboso, mal encarado, mas inofensivo, o cabo pediu-lhe que o acompanhasse até a delegacia. Após ouvir o lero-lero de Iracino Bom Bigode, o delegado dispensou-o.”(pp. 131-132)

 

Mas Fernando Ramos não sustenta o enigma por muito tempo. E logo sacia a curiosidade do leitor, convergindo para a dessacralização do mito, afinal o lobisomem que andou atormentando a Feira de Santana recriada em seu livro não passava mesmo de um embuste, descoberto, por acaso e sem maiores esforços, por Permínio e Espírito:

 

“Quando anáguas brancas tentaram encobrir a lua, Fernando Espírito viu um vulto atacar uma velha, no prédio da esquina onde reside o cidadão Joel Barbosa. Os dois correram atrás do vulto, que também correu. Pegaram o indivíduo na esquina da outra rua, onde mora seu Pedra. Ele caiu. Gaguejou: ‘Não me bata. Me... me entrego’. Era um velho de mais de sessenta anos, feio, quando lhe tiraram a máscara de lobo toda coberta de pelos (sic). Suas luvas eram cinzas e o macacão tinha  pêlos (sic) como os dos bichos. ‘É Telesco’, disse Permínio, que conhece muita gente na cidade. ‘Não quero matar ninguém. Ataquei as velhas porque preciso de... de... dinheiro’. Tomou uns tapas. Telesco é um homossexual meio retardado, que leva latas de roxo-terra para o Colégio Santanópolis. Mora sozinho na Rua do Sol. Fede a bode. O coronel Pedra apareceu com uma gandola e uma calça de pijama, ao lado de seu afilhado Gerson Menezes, morador na mesma casa. ‘É Telesco. É meio maluco. Mas criou esta confusão toda’. (...) A casa dele, perto do Santanópolis, é uma imundície, o calção sujo, a calça rasgada, as pernas de aracuã, o corpo meio de macaco e uma fantasia completa de lobisomem. ‘Quem me deu foi seu Zé Amorim. Ele mandou que eu tocasse fogo. É fantasia de micareta’. ‘E você resolveu assustar a população?’, perguntou o delegado. ‘Eu só atacava ve... velhas, doutor. Elas são fracas. Sou fraco. Dinheiro que recebo é pouco’. No barraco, dormiam caneca e prato mal cheirosos, uma esteira, travesseiro imundo e um bibiano sujo servindo de candeeiro. ‘Ouvi a zoada que eu, o lobisomem, havia criado, tomei medo de levar porrada. Por isso não me entreguei’. Novamente o delegado: ‘Por que não atacou na última lua cheia?’ ‘Eu estava doente’. ‘Leve Telesco pro xadrez', disse o delegado para o cabo Maia. (pp. 161-162)

 

Aí está. O lobisomem “era apenas um psicopata”, de nome Telesco (com mal de Alzheimer, pois esquecera seu próprio nome), carregador de latas do quintal do senhor Josino Batega Almeida, na Rua da Cadeia, agora trabalhando para Paulo Almeida, na Rua do Sol, como tomador de conta de jegues e burros, nas segundas-feiras, num curral velho. Terrivelmente desconjuntado na vida, analfabeto e sem família fazia aquilo para angariar alguns trocados, na tentativa vã de remediar seu infortúnio. Acabou preso. E, na cadeia, onde recebeu a visita de suas próprias vítimas, ganhando delas compaixão e comida, teve um fim um tanto ridículo para alguém que ganhou fama desconcertando e movimentando o cotidiano vagaroso e desenxabido de uma cidadezinha do interior:

 

“As mulheres atacadas pelo lobisomem foram vê-lo na cadeia, tiveram pena dele, oferecendo-lhe até comida. O certo é que Telesco ficou famoso de uma hora para outra, o poeta Antônio Lopes lhe dedicou um soneto. Entretanto, Cameron, o pastor mórmon, sabendo ser Telesco um depravado, citou em sua seita Romanos 1, 28, 32: ‘e por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes. Cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade, possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade, sendo difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais. Insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia. Ora, conhecendo ele a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem’. Sete dias depois, Telesco teve infecção intestinal e morreu na cela.” (p. 164)

 

Não fosse pelo aguçado espírito crítico do autor, o leitor sairia decepcionado. Mas o desfecho um tanto insosso reserva aos olhos mais atentos a possibilidade de outra reflexão, mais ampla, mais elaborada: a de que o lobisomem é, apenas, um pano de fundo, uma alegoria utilizada para discutir problemas maiores, mais próximos da realidade e de natureza mais pérfida.

DITADURA VARGAS – Valendo-se de fatos reais, Fernando Ramos, que também convoca uma série de personagens autênticos da historia de Feira de Santana para compor sua trama (dentre eles a própria irmã, Hortênsia Ramos, o deputado Oscar Marques e o poeta Antonio Lopes), tece severas críticas ao cotidiano provinciano da cidade, assolado por hipocrisias, contendas religiosas, falcatruas políticas e desigualdades sociais. E vai além, ao recriminar duramente a Ditadura Vargas, regime em vigor no tempo em que narrativa se desenrola.

Nesse sentido, seguindo as pistas deixadas no livro, o leitor é levado, inclusive, a questionar se o lobisomem não é a personificação dos próprios malefícios causados pelo sistema comandado pelo velho ditador, o que é mais que provável, já que Telesco, o bicho, era só um pobre coitado, que não tinha qualquer alternativa de sobrevivência, senão roubar. Além disso, Getúlio Vargas constantemente é apontado, pela instância narrativa, como responsável direto pela ruína do país e pela submissão da população à repressão violenta, ao desemprego e ao empobrecimento:

 

“A ditadura brasileira, a ditadura do eixo e outras ditaduras estragam a dinâmica. Mentirosos após a proclamação da República, arrasaram o País, donde o atraso, donde a máxima do primeiro livro de Fedro:Mendaci ne verum quidem dicenti créditur (Ao mentiroso não se dá crédito nem ainda quando ele diz a verdade).” (p. 54)

 

“A cidade cresce como urtiga. De modo doido. Precisamos podar o desnecessário. A ditadura vai deixar tumor, desemprego, sem planejamento familiar. As mulheres devem parar o parimento. Não há indústria, não há casas comerciais. Só os ricos terão vez. Os pobres serão enforcados pelo desemprego, trabalhando somente às segundas nas feiras de verduras. Quem for ocioso, se baterá com a escassez.” (p. 74)

 

 

Vários são os momentos em que Getúlio Vargas é posto em descrédito, no livro, que começou a ser publicado em 1993, sob a forma de folhetim, no extinto jornal Feira Hoje, sob o título de Meu nome é Vargas, outro forte indício da intenção do autor em estreitar relações entre a entidade mítica e o ditador:

 

“Waldomiro, como gerente, sabia que o minotauro (Hora Meu Bem) tinha seu sofrimento financeiro, deslocado da sociedade, sem descontrole mental. Tipo folclórico, extravagante de termos, imitador de cantores e uivos de lobos, seguidor severo dum emprego estável, ele fora estofador de mancheia. ‘Quando surgiu o dr. Getúlio Vargas, aí a firma entrou em parafuso. De 1937 pra cá, nunca mais arranjei emprego’. Ele criticava o ditador, era proibido criticá-lo, tomou umas porretadas, dormiu no molhado da Rua da Cadeia, resolveram soltá-lo, comia demais, dava prejuízo, e seu protetor foi o pastor Antenágoras, construtor hercúleo, ajudado pelos jeovistas, carregou tijolos para a primeira Igreja de Testemunha de Jeová da cidade. Desde então, Hora Meu Bem tomou o rumo desta seita.” (pp.136-137)

 

Em O lobisomem de Feira de Santana, a queda de Vargas, em 1945, após a deposição imposta pelo general Góis Monteiro, é vista com imensa satisfação, mas também com reservas, já que o poder é astucioso e sempre encontra novas formas de sobrevivência:

 

“‘A ditadura teve morte cerebral’, disse Dulceleida. ‘Desde agosto, quando criaram no Rio de janeiro a Esquerda Democrática, o negócio engrossou para Getúlio. O amor dele ao poder é igual ao de Hitler, já morto’.

O Estado Novo esbarrou na democracia, e Getúlio que não desejava nenhuma queda-de-braço com desconhecidos à cata de poder, usava de mil artifícios para continuar com a faca e o queijo na mão. Se lhe cortaram o pepino, ele insistia, lançado à boa vontade dos trabalhadores, com promessas, sabendo que a maioria da população era miscigenada e de poucas letras. Padre Amílcar, sabia disso, das artimanhas do gaúcho de São Borja, um germanófilo que se tornou americanófilo para não cair do corcel. Sendo um prelado de boa leitura, não metia com política, mas conversava sobre ela com padre Mário pessoa. Chegava a dizer a marcos, o sineiro: ‘A ossatura do trabalhismo, com a queda que virá do caudilho dos Pampas, irá calcificar o nome dele para vir cheio de vigor. Tome nota’”. (p. 171)

 

E a profecia do padre Amílcar realmente se cumpre. O homem que, escoltado pelas forças armadas, tomou o poder em 1937 não ficaria muito tempo afastado da liderança do país. Como um mito que ressurge, de tempos em tempos, no seio do povo, Getúlio retornaria ao governo em 1946, pelo voto popular, permanecendo no cargo até 1954, quando, pondo em prática o magistral golpe que o imortalizou, comete suicídio. Quanto à cidade, Fernando Ramos nos dá conta de que, no fim daquele conturbado ano de 1945, passado o sobressalto inicial – bicho desmascarado, ditador destituído –, a população, aos poucos, refaz o caminho de sua vidinha pacata e desassombrada, voltando à rotina de lentidão e tranquilidade. Pelo menos até o próximo “susto”.



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