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  • Feira de Santana, s�bado, 11 de julho de 2026

Wellington Freire

Quando a guerra chega aos postos de gasolina

11 de Julho de 2026 | 09h 04
Quando a guerra chega aos postos de gasolina
Créditos: Estadão

Durante muito tempo, a guerra na Ucrânia foi narrada quase exclusivamente por mapas. A cada semana, discutia-se qual aldeia havia sido conquistada, qual cidade resistia, qual linha de frente avançava alguns quilômetros para leste ou para oeste. Era uma narrativa geográfica, construída sobre o território. Mas talvez estejamos assistindo a uma mudança silenciosa e muito mais profunda. O verdadeiro campo de batalha começa a deslocar-se dos mapas para as refinarias.

Os relatórios mais recentes indicam que a Rússia enfrenta dificuldades crescentes para atender à própria demanda interna de gasolina. Refinarias importantes foram atingidas por ataques ucranianos de longo alcance, a produção caiu, reservas estratégicas passaram a ser utilizadas, combustível começou a ser importado da Bielorrússia e autoridades locais chegaram a recomendar redução de deslocamentos para economizar gasolina.

À primeira vista, trata-se apenas de uma notícia econômica. Na realidade, é uma notícia profundamente militar. Poucas substâncias possuem tanto valor estratégico quanto o combustível. Exércitos modernos não marcham apenas sobre o estômago, como dizia Napoleão; marcham, sobretudo, sobre derivados de petróleo. Tanques, caminhões, aviões, helicópteros, geradores, embarcações e toda a gigantesca máquina logística que sustenta uma guerra dependem de um fluxo permanente de energia. Sem combustível, até o mais poderoso dos exércitos transforma-se em um conjunto de equipamentos imóveis.

Talvez estejamos diante de uma das maiores transformações estratégicas desta guerra. A Ucrânia parece ter compreendido que destruir um depósito de combustível pode produzir efeitos militares superiores aos da conquista de uma pequena localidade. Em vez de concentrar todos os esforços na destruição de batalhões inimigos, passou a atacar aquilo que permite a esses batalhões continuar existindo: refinarias, oleodutos, terminais petrolíferos, subestações elétricas, centros logísticos e, mais recentemente, até navios-tanque responsáveis pelo abastecimento da Crimeia ocupada. Essa mudança não é apenas operacional. Ela altera a própria lógica da guerra.

Durante séculos, pensou-se que a vitória dependia da destruição direta das forças inimigas ou da conquista de suas cidades. Hoje, percebe-se que é possível reduzir significativamente a capacidade de combate de um adversário sem ocupar um único quilômetro adicional de território. Basta tornar cada vez mais difícil alimentar sua economia de guerra.

É a velha ideia do centro de gravidade, formulada por Clausewitz, reinterpretada para o século XXI. O ponto decisivo já não é necessariamente uma fortaleza, uma capital ou uma grande batalha campal. Pode ser uma refinaria situada a centenas de quilômetros da linha de frente. Pode ser uma subestação elétrica. Pode ser um terminal de armazenamento de combustíveis. O objetivo deixa de ser apenas destruir tropas; passa a ser corroer, lentamente, a capacidade material que permite a continuidade das operações militares.

Essa lógica, aliás, possui precedentes históricos. Na Segunda Guerra Mundial, os bombardeios aliados contra as instalações petrolíferas de Ploie?ti, na Romênia, buscavam precisamente reduzir a capacidade operacional da máquina militar alemã. A diferença é que, oitenta anos depois, essa missão pode ser realizada por enxames de drones relativamente baratos, capazes de atingir alvos situados a centenas ou até mais de mil quilômetros de distância.

A consequência é que a guerra deixa de possuir uma única frente. O campo de batalha torna-se difuso, profundo e nacional. Um incêndio em uma refinaria distante pode produzir efeitos tão relevantes quanto um combate nas trincheiras do Donbass. O motorista que encontra um posto sem combustível, o caminhoneiro que enfrenta restrições de abastecimento e a indústria obrigada a reduzir sua produção também passam a integrar, ainda que involuntariamente, a equação estratégica do conflito.

Talvez esta seja a principal lição da guerra na Ucrânia em 2026. O mapa continua importante, mas já não conta toda a história. As batalhas decisivas podem estar ocorrendo longe das trincheiras, onde não se disputam cidades, mas a energia que mantém um país em guerra. No século XXI, quem controla a produção, o transporte e a distribuição de combustível não controla apenas a economia. Controla, cada vez mais, o ritmo da própria guerra.




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