Identificado no Brasil em dezembro do ano passado, no Hospital da Bahia, em Salvador, o superfungo Candida auris já atinge 11 pacientes internados na unidade. De acordo com o portal de notícias Correio, a confirmação dos casos foi feita pela Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), que liderou a investigação que identificou a primeira ocorrência da infecção, em um paciente de 59 anos. Segundo o site, o homem havia sido internado por Covid-19 e estava em tratamento de hemodiálise. O micro-organismo foi encontrado alojado no cateter usado para realizar o procedimento.
De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ainda não existe relato de doentes contaminados em outros locais do país. Dessa vez, o próprio órgão confirmou a presença do superfungo na unidade hospitalar, que pertence à rede privada. “Se trata de um surto, sim, pois são os primeiros casos identificados de Candida auris no Hospital da Bahia e no país. Para fins de esclarecimento, os casos estão localizados na cidade de Salvador”, atestou, por meio de nota.
Segundo o Correio, os outros 10 pacientes contaminados foram identificados durante a investigação desse primeiro caso. Todos sobreviveram à infecção. Mesmo assim, a presença do superfungo preocupa as autoridades sanitárias. O micro-organismo pode causar infecção na corrente sanguínea e outras infecções invasivas graves, além de feridas. No entanto, o que mais tem deixado a comunidade médica em alerta é a alta taxa de letalidade, que chega a 60%, em alguns lugares do mundo.
De difícil detecção e controle, o Candida auris exige métodos laboratoriais específicos e é altamente resistente à maioria dos tratamentos antifúngicos existentes. Além disso, pode permanecer viável, no ambiente, por longos períodos e costuma ser letal, principalmente em pacientes que apresentam comorbidades.
A remoção do superfungo do ambiente infectado também é motivo de grande preocupação, uma vez que ele apresenta grande resistência até mesmo aos mais potentes desinfetantes, como é o caso dos elaborados à base de quaternário de amônio. E essa dificuldade de eliminação associada a complicações de identificação, já que o fungo pode ser confundido com outras duas espécies, eleva, sobremaneira, a propensão a surtos.
VISITA HOSPITALAR – Segundo o Correio, o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs), setor da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) da capital baiana, também participou da investigação do surto de Candida auris. Técnicos da entidade visitaram a unidade hospitalar atingida. “Foram formados três grupos de trabalho. O primeiro, analisando a pesquisa em prontuário. O segundo, avaliando a assistência farmacêutica e informações sobre o produto para saúde (cateter) e o terceiro, avaliando todos os processos da unidade hospitalar relacionados a controle de infecção”, explicou a Sesab, por meio de nota.
O órgão salientou que foram realizadas coletas de material, para análise laboratorial, de todos os contatos do primeiro caso. Amostras dos ambientes hospitalares em que esse paciente circulou também foram colhidas. “A investigação permitiu o isolamento dos pacientes e uma série de recomendações da Anvisa para a desinfecção hospitalar, para impedir a proliferação do fungo. No momento, estamos em acompanhamento e monitoramento, para garantir o cumprimento das recomendações de desinfecção realizadas pelo hospital para evitar a ocorrência de novos casos”, diz o documento.
A Sesab destacou que a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do Hospital da Bahia adota as medidas preventivas, dispõe de protocolos e oferece treinamentos de implementação. “Além disso, observou-se que as medidas recomendadas de precaução e isolamento estão sendo aplicadas neste momento. Deve-se manter a vigilância ativa, realizando as culturas de vigilância de forma periódica para análise da contenção do fungo a nível hospitalar”, conclui.
O Hospital da Bahia foi procurado pelo Correio, mas a redação do portal informa que não obteve retorno até o fechamento da matéria.
SURTO JÁ ERA ESPERADO – Conforme a reportagem, omédico infectologista Matheus Todt, da S.O.S Vida, disse que o aumento de casos de infecção pelo superfungo Candida auris, em menos de dois meses, já era algo esperado. “Esse dado evidencia um surto desse fungo dentro de um hospital brasileiro. Não é um surto na cidade de Salvador. Mas era fato que a Candida iria chegar ao Brasil. Agora é preciso ter cuidado para que ele não seja levado a outro hospital, gerando mais surtos”, advertiu.
A origem do micro-organismo é desconhecida, mas ele aparece, pela primeira vez, na literatura médica, em 2009. Os relatos dão conta da identificação do fungo em países do continente asiático, como Coreia do Sul e Japão. Desde então, já houve casos na Índia, África do Sul, Venezuela, Colômbia, Estados Unidos, Israel, Paquistão, Quênia, Kuwait, Reino Unido e Espanha. Seus alvos principais são pacientes já debilitados, que se encontram em internação hospitalar.
Segundo o Correio, Matheus Todt enfatizou que a principal via de contágio são as mãos contaminadas. “É um problema de hospital e associado a problemas hospitalares complexos, que precisam de procedimentos invasivos. Sua principal forma de transmissão são as mãos contaminadas. Mas eles são fungos oportunistas, que não atacam pessoas saudáveis. Por isso é mais comum em hospitais, com pessoas já doentes. É uma infecção hospitalar”, observou o médico.
Ele destacou que não há registro desse fungo debilitando e matando pessoas em ambiente doméstico. O fato de os pacientes do Hospital da Bahia não evoluírem a óbito quer dizer que não estavam tão graves, disse o infectologista, em entrevista ao jornal. “Os que falecem normalmente já estão em estado grave, com muita comorbidade, e ao pegar esse fungo, que é difícil de tratar, não resistem”, esclareceu, salientando que o Candida auris mata por infecção generalizada, sem, no entanto, causar grandes lesões externas, o que torna o diagnóstico ainda mais difícil.
Segundo a Anvisa, uma vez identificado, não há um tratamento padrão. O órgão recomenda que a terapêutica seja definida pelo corpo clínico, mediante conhecimento prévio do perfil de sensibilidade e resistência da cepa identificada nas amostras de cada paciente. Em função da resistência a medicamentos e das dificuldades de identificação e remoção do ambiente, a agência reguladora classifica o Candida auris como um fungo emergente que representa séria ameaça à saúde pública.