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Saúde

Após Covid-19, oito em cada dez pacientes apresentam disfunções cognitivas, diz estudo

10 de Fevereiro de 2021 | 17h 19
Após Covid-19, oito em cada dez pacientes apresentam disfunções cognitivas, diz estudo
Foto: Reuters/Diego Vara

Episódios de esquecimento e alterações no sono começaram a fazer parte da rotina de pacientes que tiveram Covid-19. Um estudo realizado no Instituto do Coração (InCor), setor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), apontou a relação entre a infecção pelo vírus e disfunções cognitivas. O resultado preocupa: 80% dos participantes apresentaram perda de memória, dificuldade de concentração, problemas de compreensão ou confusão em algum nível.

De acordo com o portal de notícias Terra, o trabalho foi conduzido pela neuropsicóloga Lívia Stocco Sanches Valentin, que também é professora da FMUSP. Especialista em anestesiologia, a pesquisadora resolveu investigar os impactos da Covid-19 na cognição. Segundo ela, o problema está diretamente ligado à baixa oxigenação do sangue, comum no quadro da doença.  “Com a infecção, tem a invasão das vias aéreas, que causa dessaturação de oxigênio, o que, fatalmente, vai afetar o sistema nervoso central. O sangue vai chegar rarefeito no cérebro, que vai ficar comprometido, causando tanto AVC e isquemia, quanto atingindo as funções neuropsicológicas”, explica.

Entre março e setembro de 2020, período correspondente à primeira fase da pesquisa, foram analisados 185 pacientes, que tiveram os resultados comparados com um grupo de controle. Atualmente, 430 pessoas participam do estudo e o InCor ainda aceita voluntários. Segundo o Terra, para avaliar os pacientes, foi usada uma ferramenta desenvolvida por Lívia Valentin em 2010. Denomenado MentalPlus, o game foi criado com o propósito de identificar as disfunções neurológicas em pacientes com sequelas de anestesia geral profunda, especialmente idosos.

O que fez a cientista foi abrir uma nova proposta de estudo para a aplicação da ferramenta. “Como já usava o MentalPlus, abri mais um protocolo de pesquisa para avaliar as funções cognitivas na Covid e vimos o estrago. Quando a gente diz que são recuperados, os pacientes não entendem que é algo maior. Até fala que saiu ileso, mas não por completo, porque permanecem o cansaço, a tosse, a dor de cabeça ou a questão cognitiva, mesmo que leve. Tem a falha de memória, a pessoa se confunde em tarefas simples e acaba justificando essas falhas com outras coisas do dia a dia: preocupações financeiras, muito tempo em quarentena, por não viajar. As pessoas não entendem que a disfunção cognitiva é o quadro mais grave que é deixado como sequela”, alerta.

Conforme o site, o estudo conclui que a memória de curto prazo de 62,7% dos participantes foi afetada. Já a de longo prazo, teve alterações em 26,8% dos voluntários. Em relação à percepção visual, o impacto foi notado em 92,4%. O aplicativo, no entanto, serve para mais do que apenas apresentar os danos causados pela doença. Através dele, também é possível tratar os pacientes. “Quem tem disfunção, passa por reabilitação com o mesmo teste e passa a ser reabilitado com dez sessões. Vai jogar em fases diferentes e, na 12ª etapa, é reavaliado, para ver se conseguiu se reabilitar totalmente ou não. Alguns não se reabilitam totalmente e vão para a terceira fase, que é com eletroestimulação”, esclarece a neuropsicóloga.

Lívia Valentin ressalta que o MentalPlus foi validado em 2014 para uso no Brasil e nos demais países do mundo, já tendo sido aplicado nos cinco continentes. Ainda segundo o Terra, para casos pós-Covid, o aplicativo pode ser usado por pacientes entre 8 e 88 anos. O intuito é apresentar os resultados finais do estudo para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a fim de que a metodologia seja usada no diagnóstico e tratamento de pacientes com disfunções cognitivas. “Estamos superando os 400 voluntários e fomos incentivados a continuar, para ajudar nessa questão de saúde pública, porque precisamos saber o que fazer no pós-Covid. No Brasil e no mundo, é um estudo pioneiro”, destaca.

RESULTADOS – A produtora Ivana Sarmanho, de 55 anos, foi voluntária na pesquisa com o MentalPlus. Ao Terra, ela relatou que se surpreendeu ao perceber que não conseguiu ter êxito no jogo. A boa memória mudou após a Covid-19. Episódios de esquecimento e alterações no sono começaram a fazer parte do seu dia a dia.

De acordo com o site, Ivana teve Covid-19 em maio de 2020. Ela apresentou sintomas leves, como tosse espaçada e febre baixa. Mas, por ter pré-hipertensão, resolveu acionar a médica que a acompanha. “Ela sugeriu que eu fizesse o exame em um domingo. Quando voltei do PCR, fui almoçar e cadê olfato e paladar? Já tive certeza que era Covid”, disse.

A produtora salientou que teve uma boa evolução, mas notava que algo não ia bem. “Já tinha prestado atenção que minha memória não estava como era. Sei a data de aniversário das pessoas, faço muitas associações. Sou muito ligada em música, gosto muito de vinil, mas comecei a ouvir músicas da minha playlist e já não sabia quem estava cantando”, observou.

Ela contou ainda que, dois meses após a infecção, soube do estudo realizado pelo InCor e resolveu se inscrever como voluntária. “Participei do estudo da vacina da dengue, estou sempre de braços dados com a ciência. Eles me colocaram um App, tipo um game, mas confesso que, quando fiz, senti algo diferente. Achei que as coisas estavam difíceis. Eu jogo videogame e me sinto à vontade jogando. Percebi que meus reflexos estavam lentos, minhas respostas estavam lentas”, descreveu.

A melhora só veio com a reabilitação. “Estou melhor, mas tenho um caminho a percorrer, assim como tem a reabilitação física, tenho de ter estímulos. Fico brincando de ver se me lembro das coisas e leio bastante”, frisou.



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