Insatisfeitos com as medidas restritivas decretadas pelos governos estadual e municipal, empresários de Feira Santana percorreram, de carro, a Avenida Getúlio Vargas, na manhã desta segunda-feira (1º), realizando um buzinaço em frente à sede da Prefeitura. O lockdown foi prorrogado na tentativa de evitar o colapso no sistema de saúde, que registra ocupação quase máxima dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e dos leitos clínicos destinados ao tratamento de pacientes com Covid-19, tanto na cidade quanto no estado.
Segundo o Acorda Cidade, muitos comerciantes alegaram que o momento é difícil para a classe empresarial e que a decisão de restringir as atividades comerciais e a circulação de pessoas só traz prejuízos econômicos, não sendo capaz de resolver o problema do contágio. Também disseram que o setor está adotando as medidas sanitárias e que os gestores públicos precisam encontrar outra forma de conter o vírus.
PREFEITO REBATE – Durante coletiva de imprensa, realizada na manhã de hoje, o prefeito Colbert Martins Filho (MDB) lembrou que o número de casos confirmados, em Feira de Santana, já passa de 25,6 mil e que já são 461 feirenses mortos. Ele ressaltou ainda que a cidade e o estado não têm leitos suficientes para atender um aumento repentino da demanda e que é preciso fazer o máximo para salvar vidas e reduzir o rico de contágio.
Segundo o gestor, este fim de semana foi crítico e o quadro demonstrou a gravidade da situação. Colbert Filho informou que pacientes graves tiveram que aguardar por vaga em uma UTI, tanto aqui quanto em Salvador, onde a situação foi ainda por, já que a regulação contabilizou 200 pacientes na fila.
Ele lembrou ainda que a rede hospitalar privada também está quase lotada e que estas unidades atendem apenas convênios, não sendo o destino, por exemplo, de funcionários do comércio que, porventura, venham a necessitar de internação. “A maioria do pessoal que trabalha no comércio depende do Sistema Único de Saúde e não há vagas no SUS. O Hospital de Campanha está lotado; o Hospital Geral Clériston Andrade está lotado; o Hospital Estadual da Criança está lotado; há filas, com 200 pessoas, nas UTIs de Salvador. Essa é a realidade”, advertiu.
O prefeito salientou ainda que está em diálogo com o setor e que, ainda hoje, se reuniria com representantes do comércio local. Mas deixou claro que as medidas adotadas são necessárias. “Adotamos o decreto do Governo do Estado e participaremos desse sacrifício maior, porque é importante para a cidade e para a população. Estamos buscando entendimento com a Associação Comercial e com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), mas meu conselho é que todos se cuidem, que procurem tomar cuidado com suas vidas, porque o risco de contágio é grande e ninguém está livre”, recomendou.
O médico Francisco Mota, diretor do Hospital de Campanha de Feira de Santana, criticou os protestos contra as medidas restritivas. Ele reforçou que o momento é muito difícil e que esta foi a pior semana desde o início da pandemia na cidade, em março de 2020. “Nove meses de funcionamento do Hospital de Campanha e foi a pior semana. As vagas estão se esgotando e reunir gente para protestar contra lockdown não tem o menor sentido, é aumentar o risco de contágio. Evitem essas aglomerações. Isso não vai ajudar em nada”, enfatizou.
A coordenadora municipal de combate ao novo coronavírus, Melissa Falcão, disse que há mais de 100 pessoas internadas com diagnóstico confirmado de Covid-19, no município e que o número supera os registrados em outros momentos de pico, quando o número de hospitalizações chegou a 88. Ela salientou que o sistema de saúde está a ponto de colapsar e que não há previsão de melhora.
A médica também chamou a atenção para a mudança comportamental do vírus, que se manifesta mais contagioso e letal, nesse momento. “O padrão da epidemia mudou. O vírus está mais agressivo. Pessoas jovens estão morrendo. O vírus chegou com potencial de matar qualquer um, e não apenas pessoas fragilizadas. Crianças começam a ser internadas com infecção pulmonar severa. Médicos estão esgotados, gestores públicos estão esgotados. Então, é preciso um esforço coletivo. É preciso um sacrifício pessoal, pela coletividade”, conclamou.
Melissa Falcão observou que apenas a vacinação em massa será capaz de reverter a dramática situação em que o país se encontra. “Não é hora de relaxar. A vacinação começou, mas ainda é lenta. É preciso aguardar e tomar a vacina. Ela não é perfeita, mas é a melhor arma que temos contra o vírus. O efeito será coletivo, quando grande parte da população estiver vacinada. Então, não é hora de se colocar contra a vacina. Vamos tentar nos unir, para fazer o que é melhor para a cidade e para a população, ainda que haja um sacrifício pessoal, ainda que seja preciso fechar o comércio. Vamos fazer a coisa da maneira correta, para combatermos isso da melhor forma”, aconselhou.
LÁGRIMAS – Hoje, em entrevista ao Jornal da Manhã, da TV Bahia, o governador da Bahia, Rui Costa, chorou, ao relatar a grave situação provocada pela crise sanitária desencadeada pela pandemia, no estado. Consternado, ao falar sobre a dor de um pai que perdeu a filha de 16 anos para a Covid-19, o gestor questionou a atitude do empresariado baiano, que tem sido a mesma em todas as cidades do estado. “O que é mais importante: 48 horas de uma loja funcionando ou vidas humanas?”, criticou.
O gestor também lamentou as aglomerações em nome de um suposto direito individual. “Eu não sei qual a religião dessas pessoas, se são católicas, evangélicas, mas a nossa espiritualidade não pode ficar na retórica. Quantas vidas humanas serão necessárias para justificar meu comportamento? ‘Ah, eu tenho direito individual de ficar bêbado, de encher os bares. Eu tenho o direito individual de ir para paredão nas ruas’. O seu direito individual é superior à dor de mães e pais que estão perdendo seus filhos?”, indagou.