Médicos alertam que os medicamentos presentes no “kit covid” estão ligados a efeitos colaterais em pacientes sem doenças crônicas que usaram os remédios indicados, publicamente, pelo presidente Jair Bolsonaro. De acordo com o portal de notícias Correio, pelos menos cinco pacientes entraram na fila de transplante de fígado, após fazerem uso das medicações. Outros três morreram em decorrência de hepatite.
Segundo o site, o médico Valmir Crestani Filho, nefrologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), relatou, em entrevista ao Estadão, ter atendido pacientes com hemorragia e insuficiência renal relacionadas, direta ou indiretamente, ao uso de remédios comprovadamente ineficazes contra o novo coronavírus.
Ele disse, ainda, que, em um dos casos, o paciente tomou azitromicina e cursou com cólicas, diarreia e fortes dores abdominais. Estes são efeitos conhecidos do antibiótico. Para melhorar os sintomas, o homem fez uso de omeprazol, o que acabou complicando ainda mais o quadro. É que ele acabou desenvolvendo um raro episódio de insuficiência renal associada ao medicamento. “O omeprazol é uma medicação boa, tem várias indicações, mas existe uma complicação rara que pode acontecer chamada nefrite intersticial aguda, que é como se fosse uma alergia nos rins”, explicou.
Crestani Filho afirmou que o paciente precisou ser internado para fazer algumas sessões de hemodiálise, conseguindo se recuperar, embora com grande dificuldade, sobretudo em função da falta de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), lotados por causa da alta demanda de pacientes acometidos pela Covid-19.
Conforme o Correio, o outro caso é de um paciente que recebeu prescrição de anticoagulantes como tratamento precoce para a doença causada pelo vírus. Ele acabou com uma hemorragia gástrica, necessitando ser hospitalizado. O paciente também se recuperou, mas enfrentou sérios riscos. Com um quadro de úlcera não diagnosticado, o remédio agravou, sobremaneira, o problema.
O médico enfatizou que um medicamento só é receitado quando os benefícios são maiores que os riscos e que se existem evidências científicas de que um determinado remédio é ineficaz contra uma doença, o paciente se arrisca em vão, o que pode custar-lhe a vida. “A partir do momento que essas medicações passam a ser usadas por milhões de pessoas, esses efeitos, mesmo que raros, começam a aparecer com mais frequência. Quando a gente prescreve um medicamento é porque os benefícios são maiores que os riscos. Se esses remédios não têm nenhum benefício contra a Covid-19, todo efeito colateral foi em vão”, observou o nefrologista.