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Saúde

300 hospitais filantrópicos e Santas Casas do estado de SP podem ter estoque de kit intubação zerado em até 3 dias

13 de Abril de 2021 | 10h 19
300 hospitais filantrópicos e Santas Casas do estado de SP podem ter estoque de kit intubação zerado em até 3 dias
Foto: Evandro Leal/Estadão Conteúdo

Três dias. Este pode ser o prazo para pacientes intubados entrarem em sofrimento em cerca de 300 hospitais filantrópicos e Santas Casas do estado de São Paulo. O estoque do chamado kit intubação, medicamentos imprescindíveis para a manutenção de pacientes com quadros graves de Covid-19 em ventilação mecânica, está no fim e pode se esgotar completamente em até 72 horas. De acordo com o G1, o levantamento foi realizado pela Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do estado, que acompanha a situação nas unidades.

Composto por sedativos e bloqueadores neuromusculares, o kit intubação é usado para relaxar a musculatura e a caixa torácica, ajudando os pacientes a suportarem o tratamento respiratório intensivo. Suprimir esses medicamentos “equivale à tortura”. É o que atesta o infectologista Gerson Salvador, do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP).

Em entrevista à GloboNews, no último sábado (10), ele disse que, sem os remédios, os pacientes recobrarão a consciência e que a experiência de intubação sem sedativos é absolutamente traumática. “Alternativas, do ponto de vista de cuidados, não têm. O que se faz são contenções mecânicas, do paciente amarrado, para não retirar o seu próprio tubo, mas são cenas que equivalem à tortura”, afirmou.

Segundo o médico, não se pode cogitar manter uma pessoa intubada, com ventilação mecânica, sem perspectiva de ser retirada, com a consciência de estar passando por isso. “Não estamos falando só de pessoas que estão morrendo por conta da Covid-19, que é muito grave, mas a gente vai ver pessoas morrendo por mais intenso sofrimento, sem nenhuma possibilidade para a equipe que está cuidando de aliviar. Isso é desumano, isso equivale à tortura”, reiterou.

De acordo com o G1, na semana passada, o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de São Paulo divulgou que quase 40% dos serviços médicos estão sem os medicamentos. As unidades de saúde vêm racionando o estoque desde o fim de março, mas, com o aumento expressivo dos casos de coronavírus e a consequente elevação do número de internações em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), o estado entrou no nível crítico.

Segundo o portal de notícias, o governo paulista disse que o problema vem ocorrendo por falta de fornecimento do Governo Federal e que tem orientado gestores das unidades a utilizarem “racionalmente os medicamentos, a fim de otimizar medidas para garantir assistência a quem precisa”.

O Ministério da Saúde, por sua vez, afirmou que começaria a enviar os medicamentos conforme cronograma de entregas baseado no monitoramento realizado nos estados e municípios, em parceria com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), o Conselho Nacional de Secretarias Municipais da Saúde (Conasems) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O problema, no entanto, ainda não foi resolvido.

Conforme o infectologista Gerson Salvador, é preciso lembrar que os sedativos são usados não apenas em pacientes intubados por Covid-19, mas também em outras situações de terapia intensivas. Servem como anestésicos em cirurgias e são muito necessários em pacientes que precisam de cuidados paliativos. Por isso, uma quantidade imensa de pacientes pode vir a sofrer as consequências da má gestão dos insumos médicos. “Os gestores públicos têm que se responsabilizar e principalmente têm que responder pela logística desses insumos. A pandemia está descontrolada no Brasil, a gente já viu faltar oxigênio, a gente já viu faltar vacina, temos visto, e, agora, a gente não tem medicamento pra cuidar dos pacientes mais graves que estão intubados”, cobrou.

Para ele, a situação é atroz. “É lamentável e desumano, e é mais uma marca de como a pandemia está descontrolada no Brasil, a gente não tem medicamento, não tem insumo suficiente para cuidar dos nossos pacientes”, lamentou.



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