O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) detectou e está investigando um caso de mucormicose. Também conhecida como fungo negro, a infecção acometeu um paciente de cerca de 30 anos, com histórico de Covid-19.
Apesar de grave (letal em 50% dos casos), a doença causada
por diversos tipos de fungos da ordem Mucorales não é transmissível de pessoa a
pessoa. Ao portal iG Saúde, o clínico-geral Lucas Bifano, que atuou na linha de
frente do combate à Covid-19, disse que o contágio costuma ocorrer via inalação
dos esporos liberados pelo micro-organismo. Em uma minoria dos casos, entra no
corpo humano através de alguma laceração na pele.
Rara, de difícil diagnóstico, a doença produz lesões
necróticas no nariz e no palato. Em geral, esses sintomas são seguidos de
secreção purulenta nasal, febre e sinais inflamatórios na região dos olhos, a
exemplo de dor, inchaço e vermelhidão. O médico explicou, ainda, que também
pode haver evolução para sintomas do Sistema Nervoso Central (SNC) e pulmonares.
Neste caso, é comum a ocorrência de tosse com secreção, febre alta e falta de
ar.
Recentemente, a índia registrou um surto de mucormicose
associado, também, a pacientes internados por complicações causadas pelo novo
coronavírus. De acordo com a Agência Brasil, no país asiático, que vivencia uma
epidemia brutal de Covid-19, milhares de pessoas foram infectadas pelo fungo
negro.
O agente infeccioso costuma ser encontrado em ambientes
quentes e úmidos. E, conforme o secretário estadual de Saúde de São Paulo, Jean
Gorinchteyn, afeta, principalmente, pacientes com o mecanismo de defesa do
organismo comprometido por problemas de saúde ou imunossuprimidos por uso de
medicamentos que reduzem a capacidade do corpo de combater germes e outros
antígenos. "É uma doença muito grave e que acomete, em especial, pacientes com
baixa imunidade. Infelizmente, o fato de se usar corticoides em altas doses
acaba provocando ocorrência em um ou outro paciente", esclareceu, nesta quarta-feira
(2).
SITUAÇÃO NO BRASIL - O gestor enfatizou que o fungo negro
é incomum no Brasil. No entanto, somente em 2021, o país já registrou 29 casos da
doença. Na última terça-feira (1º), a Fundação de Medicina Tropical Doutor
Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) confirmou uma ocorrência em Manaus. O paciente
era um homem de 56 anos, com histórico de diabetes tipo 2. Ele foi internado no
dia 12 de abril, evoluindo a óbito quatro dias depois, no Hospital e
Pronto-Socorro João Lúcio.
Segundo a Agência Brasil, o homem havia recebido a primeira
dose da CoronaVac, imunizante contra a Covid-19, no dia 1º de abril. Dias
depois, apresentou sintomas gripais. O teste de RT-PCR não detectou a presença
do novo coronavírus em seu organismo. A sintomatologia apontava um prurido no
olho direito, que evoluiu para uma infecção local. Após a confirmação do caso,
um alerta foi emitido para os médicos que atendem pacientes com Covid-19 e
diabetes no estado do Amazonas.
TRÊS CASOS EM UMA SEMANA - Outra ocorrência suspeita de
mucormicose foi identificada no Mato Grosso do Sul. Diabético, o paciente também é hipertenso e
testou positivo para Covid-19. A Secretaria de Saúde do estado notificou que o
homem, de 71 anos, apresenta infecção no olho esquerdo. Este é o terceiro caso
suspeito, desde a semana passada. Também foi registrada uma possível
contaminação pelo fungo negro em Santa Catarina, em um paciente acometido pelo
vírus SARS-CoV-2.
O médico Marcus Guerra, diretor-presidente da FMT-HVD,
salientou que, apesar de o fungo poder se aproveitar da Covid-19 para se
desenvolver, é baixa a possibilidade de um surto da doença no Brasil, como ocorre
na Índia.
Para evitar contrair a doença, a recomendação é higienizar
bem os alimentos e usar sempre luvas e máscaras na hora de limpar ambientes
úmidos. De acordo com o especialista, o sucesso do tratamento contra o fungo negro
depende da condição de saúde prévia do paciente e da administração correta de
medicamentos intravenosos. Em geral, também é preciso realizar cirurgia para
retirar a parte afetada pelo microrganismo.