Hipnotizado por obrigações burocráticas, estaciono diante do
Estádio Joia da Princesa, numa fria manhã de julho. Não pretendia permanecer
ali. Bastaria resolver um assunto e seguir adiante. Mas há um arqueólogo
frustrado que insiste em habitar em mim, e arqueólogos jamais passam
indiferentes diante de ruínas. Não falo, apenas, de pedras quebradas. Existem
ruínas que continuam de pé.
Caminho lentamente. São cerca de 10 horas de uma
terça-feira, mas a paisagem parece suspensa no tempo. O estádio permanece onde
sempre esteve. As arquibancadas ainda desenham sua curva característica, os
acessos continuam abertos, as ruas conservam seus traçados. Nada foi demolido.
Ainda assim, algo essencial desapareceu.
As cidades possuem um comportamento curioso. Costumamos
imaginá-las como organismos que apenas crescem. Talvez, seja mais correto dizer
que elas migram. Deslocam seu centro de gravidade, abandonam antigos eixos de
circulação, inventam novas centralidades. Enquanto avançam numa direção, deixam
atrás de si uma sucessão de vazios.
Nenhuma cidade admite esse abandono. Nos mapas, tudo
permanece igual. Os nomes das ruas sobrevivem. Os equipamentos públicos
continuam registrados. O estádio segue ocupando o mesmo ponto da cartografia
urbana. Mas a vida já partiu. Restam apenas suas marcas.
Os impérios conheciam bem esse fenômeno. Ao longo da
História, fronteiras inteiras deixaram de ter importância sem que uma única
pedra fosse removida. As legiões romanas retiravam-se da Britânia; fortalezas
continuavam de pé, mas já não protegiam coisa alguma.
Fortes portugueses espalhados pelo Índico permaneciam
voltados para o mar, depois que as rotas comerciais haviam escolhido outros
caminhos. A arquitetura sobrevivia ao poder que lhe dera sentido. As cidades
fazem exatamente o mesmo. Elas não destroem seus territórios antigos;
simplesmente retiram deles a energia que os mantinha vivos.
Enquanto caminho pelo entorno do Joia da Princesa, tenho a
impressão de percorrer uma antiga fronteira imperial. Não encontro exatamente
silêncio. O silêncio ainda pertence aos lugares onde existe alguma expectativa
de retorno. O que percebo é outra coisa: uma espécie de esvaziamento histórico.
Como se aquele espaço tivesse deixado de participar da vida cotidiana da
cidade, embora permanecesse materialmente intacto.
É uma sensação difícil de definir. As construções continuam
ali, mas perderam sua gravidade. As pessoas atravessam a região sem realmente
habitá-la. Os fluxos urbanos escolheram outras avenidas, outros centros
comerciais, outros bairros. A cidade mudou de direção e esqueceu-se de avisar
seus antigos territórios.
Talvez seja essa a forma mais discreta de decadência. Não a
destruição espetacular das guerras ou das catástrofes, mas o lento
desaparecimento da relevância. Há lugares que deixam de morrer porque,
simplesmente, deixam de ser lembrados.
Penso, então, que toda cidade produz sua própria arqueologia.
Não apenas a dos edifícios antigos, mas também a dos espaços abandonados pelo
movimento da vida. São territórios que permanecem fisicamente presentes,
enquanto se tornam emocionalmente distantes. Continuam existindo diante dos
nossos olhos, mas já pertencem a outro tempo.
Talvez seja por isso que alguns lugares nos inquietem tanto.
Não porque sejam apenas perigosos ou degradados, mas porque revelam algo que
preferimos esquecer: as cidades também envelhecem. E, como acontece com as
pessoas, não envelhecem por inteiro. Algumas partes continuam jovens,
iluminadas e movimentadas; outras permanecem para trás, carregando a memória
silenciosa daquilo que um dia foram.
Ao deixar o entorno do Joia da Princesa, levo comigo a
impressão de não ter visitado apenas um estádio. Caminhei pelas antigas
fronteiras de uma cidade que continuou crescendo, mas que, para seguir adiante,
precisou abandonar uma parte de si mesma. Talvez toda expansão urbana esconda
esse paradoxo: para nascer de novo, a cidade precisa aprender a esquecer. E
seus vazios acabam sendo menos um acidente da geografia do que um capítulo
inevitável da história.