A variante do novo coronavírus identificada como P.1 é mais
resistente à produção de anticorpos neutralizantes, isto é, aqueles capazes de se
ligar ao vírus e impedir que ele infecte outras células, em pessoas que tiveram
Covid-19 e também nas que foram vacinadas com o imunizante CoronaVac, elaborado
pela farmacêutica chinesa Sinovac Biothec e produzido no Brasil pelo Instituto
Butantan. É o que diz um estudo desenvolvido pela Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp).
Detectada, pela primeira vez, em Manaus, em janeiro de 2021,
a cepa também conhecida como Gama vem sendo apontada, por especialistas, como
uma das mais contagiosas e potencialmente perigosas. Por isso, a pesquisa, que
foi publicada na revista The Lancet Microbe e apresentada no Congresso Europeu
de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas (ECCMID), funciona como uma
espécie de alerta.
De acordo com José Luiz Proença-Módena, pesquisador do
Laboratório de Vírus Emergentes da Unicamp e principal autor do estudo, é preciso
dar continuidade à manutenção das medidas de proteção individuais e coletivas,
como uso de máscaras e o distanciamento social, enquanto boa parte da população
não for imunizada.
A escolha da CoronaVac como objeto da pesquisa se deu em
função do fato de ser o antígeno mais utilizado na imunização dos brasileiros.
No entanto, de acordo com o jornal O Globo, o cientista esclarece que o
resultado obtido não quer dizer que a vacina não seja um método eficaz de
controle das formas graves da doença provocada pelo vírus.
Ele salienta que o estudo não avalia a eficácia do fármaco. E
destacou que a resposta imunológica de uma pessoa vacinada com a CoronaVac é
muito maior que só a medida por anticorpos. "Esse não é um estudo que avalia
eficácia", lembra.
Proença-Módena explica, ainda, que o trabalho é "um estudo in vitro, exploratório, que mimetiza, em
laboratório, uma parte da resposta imunológica". Também que foca em uma
importante parte do arsenal imunológico, a fabricação de anticorpos
neutralizantes.
Conforme o Correio Braziliense, para verificar a resposta da cepa
P.1 à vacina e à infecção prévia pelo vírus Sars-CoV-2, a equipe da
universidade utilizou amostras de sangue de 53 pessoas imunizadas com a
CoronaVac, 18 delas com dose única; 20 com as duas doses aplicadas pelo
Programa Nacional de Imunização; e 15 com as duas doses administradas enquanto
participantes de estudo clínico. Os cientistas também testaram amostras de 21
pessoas que tiveram Covid-19 no início da pandemia.
Os resultados são claros: ao expor as amostras à variante
P.1, os pesquisadores observaram que, tanto no caso das pessoas que receberam
uma dose quanto no das que não haviam sido vacinadas, mas que já haviam
contraído a doença, não houve produção de anticorpos neutralizantes.
Também foi constatado que a variante de Manaus ainda era
sensível aos anticorpos no plasma daqueles que receberam duas doses.
Entretanto, conforme o pesquisador, a produção foi menor, especialmente quando
comparada à resposta da variante B, linhagem da qual fazem parte as cepas do Reino
Unido (B.1.1.7) e da África do
Sul (B.1.351), mais predominantes
no país antes do surgimento da P.1.
Diante dos dados, Módena reforça que a transmissão é uma
realidade que precisa de atenção, mesmo depois de completado o esquema vacinal.
"Isso significa que a vacina não é eficaz? Não. Mas significa que uma pessoa
vacinada ou que já teve Covid pode se infectar e transmitir o vírus para outras
pessoas", observa.
O especialista ressalta, ainda, que ambientes com grande
quantidade de pessoas desprotegidas são propícios não apenas à transmissão do vírus,
mas também ao surgimento de novas mutações. "O alerta é claro: em um momento em
que só temos uma parte da população vacinada, temos de continuar a adotar as
medidas de proteção. Não usar máscara e aglomerar gera um ambiente ótimo para
selecionar novas variantes", adverte.
EFETIVIDADE DA
CORONAVAC - Segundo
o Correio Braziliense, no mesmo congresso, pesquisadores da Turquia atestaram a
efetividade da CoronaVac em um grupo de 10.029 adultos. A pesquisa de fase 2,
publicada na revista The Lancet, mostrou que a vacina é 83% eficaz na proteção
contra as infecções sintomáticas, após duas doses, prevenindo em 100% as
hospitalizações.
O ensaio clínico duplo-cego, randomizado e controlado por
placebo, envolveu 10.029 adultos de 18 a 59 anos atendidos em 24 centros na
Turquia e divididos em grupos para receber duas doses (6.559), com 14 dias de
intervalo, ou placebo (3.470). A média de idade foi de 45 anos, 57,8% eram do
sexo masculino, 36% eram profissionais de saúde e 15,6% eram obesos.
Em menos de 14 dias após a segunda dose, ocorreram 41 casos
de Covid-19 sintomáticos: nove no grupo da vacina e 32 no grupo que recebeu placebo.
Não houve casos fatais. Foram registradas seis hospitalizações no grupo do
placebo e nenhuma no da vacina.
Conforme o site, os ensaios imunológicos foram realizados em
um subconjunto do grupo de estudo. A análise está em andamento. Todavia, os
resultados iniciais mostram que 89,7% dos receptores da CoronaVac desenvolveram
anticorpos contra a proteína spike do Sars-CoV-2. Os pesquisadores da
Universidade de Hacettene, situada na capital Ancara, destacam que é preciso
repetir os testes com as novas variantes do vírus.