Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • (75) 9707-1234
  • Feira de Santana, quarta, 08 de julho de 2026

Saúde

Vacina da UFMG pode ser usada como reforço contra a Covid-19; pedido de testes já foi protocolado na Anvisa

09 de Agosto de 2021 | 10h 56
Vacina da UFMG pode ser usada como reforço contra a Covid-19; pedido de testes já foi protocolado na Anvisa
Foto: Myke Sena/MS

A comunidade científica ainda não deu uma resposta definitiva sobre o comportamento do novo coronavírus e se este demandará ou não de uma terceira dose de reforço ou mesmo de vacinação anual, como no caso do vírus Influenza, que causa a gripe. Mas, segundo a Agência Brasil, pesquisadores brasileiros vêm trabalhando em novos projetos de antígenos que poderão suprir possíveis necessidades futuras, inclusive relacionadas a novas variantes, e dar maior independência ao país para manter sua população imunizada.

Um bom exemplo é a SpiN-Tec. Criada para agir contra a Covid-19, a vacina teve seu pedido de testes em humanos protocolado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no fim de julho, por cientistas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O imunizante começou a ser desenvolvido em março de 2020, pelo CTVacinas da UFMG, em parceria com a Fiocruz Minas, recebendo o apoio do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações.

De acordo com a Agência Brasil, o governo brasileiro já encomendou mais de 600 milhões doses de outras vacinas contra a doença para o ano de 2021. Por isso, a conclusão dos testes da SpiNtec, em 2022, deve ocorrer com a população já amplamente vacinada. Ainda assim, o estudo segue com a perspectiva de que o fármaco mineiro possa vir a ser usado como reforço, em pessoas já imunizadas. 

O professor Flávio da Fonseca é um dos pesquisadores responsáveis pelo desenvolvimento da SpiN-Tec. Em uma  entrevista coletiva concedida no início deste mês, ele explicou que os testes em humanos têm por objetivo calibrar um esquema de doses para que a vacina seja aplicada em quem já se vacinou. Em laboratório, nos testes em animais, os cientistas usaram um esquema de duas doses, com intervalo de 21 dias. No entanto, para os estudos clínicos, será avaliado se uma dose é suficiente para reforçar a imunização.

As mutações do SARS-CoV-2, diz a Agência Brasil, também foram pensadas, no processo de elaboração do antígeno. Desde o início da pandemia, diversas novas cepas do vírus já foram identificadas, dentre elas as variantes consideradas de preocupação: Alfa, surgida no Reino Unido; Beta, oriunda da África do Sul; Gama, originária de Manaus; e Delta, procedente da Índia. Mais transmissíveis e com maior potencial de agravamento, elas também estão ligadas a possíveis impactos na efetividade das vacinas.

Santuza Teixeira, que também integra a equipe de pesquisadores, disse que não é possível fazer uma previsão de efetividade contra as variantes. Segundo a cientista, uma das estratégias para enfrentar o problema foi escolher uma proteína viral que tem sofrido menos mutações para compor a combinação de proteínas contida no antígeno.

À Agência Brasil, ela explicou, ainda, que sempre que os vírus se multiplicam, eles podem sofrer mudanças estruturais. E que, quando essas alterações passam a representar uma vantagem na replicação, essa nova estrutura tende a se multiplicar mais que as outras, tornando-se dominante. Foi o que ocorreu no Brasil com a variante Gama (P.1), no início de 2021. O temor, agora, é de que o mesmo aconteça com a cepa Delta.

Como as células de defesa humanas são produzidas "sob medida" para atacar formas específicas do vírus, mudanças, em alguns casos, também podem permitir que o micro-organismo escape. Sendo assim, a escolha de uma proteína mais estável, como, por exemplo, a N, é uma estratégia para minimizar o risco. 

Proteína recombinante - Chamada de proteína recombinante, a plataforma tecnológica da A SpiN-Tec difere das quatro vacinas contra Covid-19 usadas no Brasil, até o momento. Segundo o corpo científico da UFMG que criou o antígeno, foi desenvolvido um processo em que informações genéticas do novo coronavírus são inseridas em uma bactéria E.coli. Esta, por sua vez, produz uma proteína fusionada, uma mistura com pedaços das proteínas S e N.

A proteína S tem sido o principal alvo das vacinas genéticas contra a Covid-19, sejam elas de RNA mensageiro (RNAm), como no caso do fármaco da Pfizer/BioNTec, ou de vetor viral, como os imunizantes da AstraZeneca/Oxford e da Janssen, por despertar uma forte resposta imunológica do corpo humano. Aproveitando esse potencial, a pesquisa da SpiN-Tec o combinou ao da proteína N, que é menos propensa a mutações e também estimula a produção de anticorpos no organismo humano.

Por isso, explica a Agência Brasil, o Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) da vacina mineira usa as duas proteínas na mistura proteica chamada, pelos cientistas, de proteína quimérica ou "quimera", em referência ao monstro da mitologia grega que tinha o corpo formado por partes de diferentes animais, como cabeça de leão e cauda de serpente.

O projeto com a tecnologia de proteína recombinante foi o escolhido pelos cientistas, dentre muitas outras opções pensadas ao longo da pesquisa. Também pelos resultados positivos verificados em testes com animais. Além disso, os pesquisadores ressaltam que, se comparado a plataformas como as de vetor viral ou de RNAm, o custo dessa tecnologia é menor.

Testes - Quando a Anvisa der o aval, os testes em humanos vão começar pelas fases 1 e 2, nas quais conclusões importantes sobre eventos adversos e esquema de doses são avaliadas. Na fase 1, serão recrutados 40 voluntários. Na etapa 2, entre 150 e 300. Como a vacina deve ser utilizada como dose de reforço, os participantes do estudo precisarão ter sido imunizados com as duas doses da CoronaVac há, no mínimo, seis meses.

Ainda conforme a Agência Brasil, as fases 1 e 2 de testes clínicos contam com recursos da prefeitura de Belo Horizonte, que vai repassar R$ 30 milhões, até o fim do ano. Além disso, os processos de testagem têm o apoio de emendas parlamentares, que viabilizaram mais R$ 3 milhões. 

Apesar de o pedido para a realização dos testes ter sido entregue à Anvisa no último dia 30, o órgão regulador ainda não havia recebido, até semana passada, o Dossiê Específico de Ensaio Clínico (DEEC), que é o protocolo clínico do estudo, propriamente dito. A Anvisa disse, entretanto, que já começou a análise, mas que depende desse documento para concluí-la.

À Agência Brasil, a UFMG informou que todas as exigências da Anvisa estão sendo cumpridas. "Nesse processo, é natural que alguns documentos não sejam entregues ao mesmo tempo e que sejam acrescidos à solicitação inicial ao longo de todo o procedimento", informou a instituição, por meio de nota divulgada à imprensa.

O IFA para as doses que serão usadas nas duas primeiras fases de testes clínicos já está em produção na Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos. De acordo com a universidade, não há empresa que desenvolva esse tipo de material no Brasil. Os lotes-piloto do insumo, contendo as proteínas quiméricas, devem chegar ao país em setembro, quando o início dos testes clínicos está previsto.

As fases 1 e 2 devem ter duração de três a quatro meses, com conclusão prevista para os primeiros meses de 2022. Caso sejam bem-sucedidas, um novo pedido de autorização deverá ser feito à Anvisa para os testes de fase 3, em que é calculada a eficácia da vacina em um estudo com número maior de voluntários. Mais ampla, esta etapa pode demandar investimento de R$ 300 milhões.

A UFMG, no entanto, salientou que a necessidade de recursos ainda está sendo dimensionada. Isto porque, como a vacina será usada como dose de reforço, a abrangência da fase 3 ainda está sendo examinada pelos pesquisadores responsáveis pelo projeto e por técnicos da Anvisa.



Saúde LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

Charge do Borega

As mais lidas hoje