A comunidade científica ainda não deu
uma resposta definitiva sobre o comportamento do novo coronavírus e se este demandará
ou não de uma terceira dose de reforço ou mesmo de vacinação anual, como no caso
do vírus Influenza, que causa a gripe. Mas, segundo a Agência Brasil,
pesquisadores brasileiros vêm trabalhando em novos projetos de antígenos que poderão
suprir possíveis necessidades futuras, inclusive relacionadas a novas
variantes, e dar maior independência ao país para manter sua população
imunizada.
Um bom exemplo é a SpiN-Tec. Criada
para agir contra a Covid-19, a vacina teve seu pedido de testes em humanos
protocolado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no fim de
julho, por cientistas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O
imunizante começou a ser desenvolvido em março de 2020, pelo CTVacinas da
UFMG, em parceria com a Fiocruz Minas, recebendo o apoio do Ministério de Ciência,
Tecnologia e Inovações.
De acordo com a Agência Brasil, o
governo brasileiro já encomendou mais de 600 milhões doses de outras vacinas
contra a doença para o ano de 2021. Por isso, a conclusão dos testes da
SpiNtec, em 2022, deve ocorrer com a população já amplamente vacinada. Ainda assim,
o estudo segue com a perspectiva de que o fármaco mineiro possa vir a ser usado
como reforço, em pessoas já imunizadas.
O professor Flávio da Fonseca é um dos pesquisadores
responsáveis pelo desenvolvimento da SpiN-Tec. Em uma entrevista coletiva concedida no início deste
mês, ele explicou que os testes em humanos têm por objetivo calibrar um esquema
de doses para que a vacina seja aplicada em quem já se vacinou. Em
laboratório, nos testes em animais, os cientistas usaram um esquema de duas
doses, com intervalo de 21 dias. No entanto, para os estudos clínicos, será
avaliado se uma dose é suficiente para reforçar a imunização.
As mutações do SARS-CoV-2, diz a Agência Brasil, também foram
pensadas, no processo de elaboração do antígeno. Desde o início da pandemia, diversas
novas cepas do vírus já foram identificadas, dentre elas as variantes consideradas
de preocupação: Alfa, surgida no Reino Unido; Beta, oriunda da África do Sul; Gama,
originária de Manaus; e Delta, procedente da Índia. Mais transmissíveis e com
maior potencial de agravamento, elas também estão ligadas a possíveis impactos
na efetividade das vacinas.
Santuza Teixeira, que também integra a equipe de
pesquisadores, disse que não é possível fazer uma previsão de efetividade
contra as variantes. Segundo a cientista, uma das estratégias para enfrentar o
problema foi escolher uma proteína viral que tem sofrido menos mutações para
compor a combinação de proteínas contida no antígeno.
À Agência Brasil, ela explicou, ainda, que sempre que os
vírus se multiplicam, eles podem sofrer mudanças estruturais. E que, quando
essas alterações passam a representar uma vantagem na replicação, essa nova
estrutura tende a se multiplicar mais que as outras, tornando-se dominante. Foi
o que ocorreu no Brasil com a variante Gama (P.1), no início de 2021. O temor,
agora, é de que o mesmo aconteça com a cepa Delta.
Como as células de defesa humanas são produzidas "sob medida"
para atacar formas específicas do vírus, mudanças, em alguns casos, também
podem permitir que o micro-organismo escape. Sendo assim, a escolha de uma
proteína mais estável, como, por exemplo, a N, é uma estratégia para minimizar
o risco.
Proteína
recombinante - Chamada
de proteína recombinante, a plataforma tecnológica da A SpiN-Tec difere das quatro vacinas contra Covid-19 usadas
no Brasil, até o momento. Segundo o corpo científico da UFMG que criou o
antígeno, foi desenvolvido um processo em que informações genéticas do novo
coronavírus são inseridas em uma bactéria E.coli. Esta, por sua vez, produz uma
proteína fusionada, uma mistura com pedaços das proteínas S e N.
A proteína S tem sido o principal alvo das vacinas genéticas
contra a Covid-19, sejam elas de RNA
mensageiro (RNAm),
como no caso do fármaco da Pfizer/BioNTec, ou de vetor viral, como os
imunizantes da AstraZeneca/Oxford e da Janssen, por despertar uma forte
resposta imunológica do corpo humano. Aproveitando esse potencial, a pesquisa
da SpiN-Tec o combinou ao da proteína N, que é menos propensa a mutações e
também estimula a produção de anticorpos no organismo humano.
Por isso, explica a Agência Brasil, o Ingrediente Farmacêutico
Ativo (IFA) da vacina mineira usa as duas proteínas na mistura proteica chamada,
pelos cientistas, de proteína quimérica ou "quimera", em referência ao monstro
da mitologia grega que tinha o corpo formado por partes de diferentes animais,
como cabeça de leão e cauda de serpente.
O projeto com a tecnologia de proteína recombinante foi o
escolhido pelos cientistas, dentre muitas outras opções pensadas ao longo
da pesquisa. Também pelos resultados positivos verificados em testes com
animais. Além disso, os pesquisadores ressaltam que, se comparado a plataformas
como as de vetor viral ou de RNAm, o custo dessa tecnologia é menor.
Testes - Quando a Anvisa der o aval, os testes
em humanos vão começar pelas fases 1 e 2, nas quais conclusões importantes
sobre eventos adversos e esquema de doses são avaliadas. Na fase 1, serão
recrutados 40 voluntários. Na etapa 2, entre 150 e 300. Como a vacina deve ser
utilizada como dose de reforço, os participantes do estudo
precisarão ter sido imunizados com as duas doses da CoronaVac há, no
mínimo, seis meses.
Ainda conforme a Agência Brasil, as fases 1 e 2 de testes
clínicos contam com recursos da prefeitura de Belo Horizonte, que vai repassar
R$ 30 milhões, até o fim do ano. Além disso, os processos de testagem têm o
apoio de emendas parlamentares, que viabilizaram mais R$ 3 milhões.
Apesar de o pedido para a realização dos testes ter sido
entregue à Anvisa no último dia 30, o órgão regulador ainda não havia recebido,
até semana passada, o Dossiê Específico de Ensaio Clínico (DEEC), que é o
protocolo clínico do estudo, propriamente dito. A Anvisa disse, entretanto, que
já começou a análise, mas que depende desse documento para concluí-la.
À Agência Brasil,
a UFMG informou que todas as exigências da Anvisa estão sendo cumpridas. "Nesse
processo, é natural que alguns documentos não sejam entregues ao mesmo tempo e
que sejam acrescidos à solicitação inicial ao longo de todo o procedimento", informou
a instituição, por meio de nota divulgada à imprensa.
O IFA para as doses que serão usadas nas duas primeiras fases
de testes clínicos já está em produção na Universidade de Nebraska, nos Estados
Unidos. De acordo com a universidade, não há empresa que desenvolva esse tipo
de material no Brasil. Os lotes-piloto do insumo, contendo as proteínas
quiméricas, devem chegar ao país em setembro, quando o início dos testes
clínicos está previsto.
As fases 1 e 2 devem ter duração de três a quatro
meses, com conclusão prevista para os primeiros meses de 2022. Caso sejam
bem-sucedidas, um novo pedido de autorização deverá ser feito à Anvisa para os
testes de fase 3, em que é calculada a eficácia da vacina em um estudo com
número maior de voluntários. Mais ampla, esta etapa pode demandar investimento
de R$ 300 milhões.
A UFMG, no entanto, salientou que a necessidade de recursos
ainda está sendo dimensionada. Isto porque, como a vacina será usada como dose
de reforço, a abrangência da fase 3 ainda está sendo examinada pelos
pesquisadores responsáveis pelo projeto e por técnicos da Anvisa.