O Afeganistão está, uma vez mais, sob o domínio da milícia
fundamentalista Talibã. De acordo com o jornal espanhol El País, os insurgentes
cercaram a capital, Cabul, neste domingo (15), por todas as frentes, antes de entrarem na cidade. O grupo empreendeu uma ofensiva relâmpago, na qual conquistaram
30 das 34 capitais provinciais, no período de duas semanas, até tomarem mais de
90% do território do país da Ásia Central.
Pouco depois que a conquista de Jalalabad, capital da
província de Nangarhar, localizada 150 quilômetros a leste de Cabul, próximo à
fronteira com o Paquistão, foi anunciada, pela manhã, a milícia começou o cerco à
capital. A saída do presidente Ashraf Ghani, horas depois, mostrou um governo
em desintegração, um dia após insistir em "remobilizar" suas forças para
impedir o avanço da milícia, que tem sido implacável desde que lançaram seus
ataques, em maio, coincidindo com o início da retirada das tropas norte-americanas
e suas aliadas.
Segundo o El País, em meio a esse cenário instável, o grande
rival político de Ghani se tornou o principal negociador do governo afegão com
o Talibã. Abdullah Abdullah confirmou a saída do presidente do território
afegão, referindo-se ao chefe de Estado como "ex-presidente". O gabinete de
Ghani se recusou revelar o paradeiro dele, "por razões de segurança", mas há
rumores de que o mesmo foi para o Tajiquistão, com alguns colaboradores.
Pouco depois de partir, Ashraf Ghani garantiu que foi embora
para evitar "um derramamento de sangue em Cabul". Em mensagem publicada no
Facebook, o presidente ressaltou que decidiu deixar o país para evitar
confrontos com milícias fundamentalistas que ameaçavam os habitantes da
capital.
Ministro do Interior em exercício, Abdul Sattar Mirzakwal,
confirmou o início das negociações com o Talibã. A agência de notícias espanhola
Efe reportou que a rede afegã Tolo News informou que Mirzakwal tenta que os
talibãs entreguem o poder a um governo de transição. Em vídeo, o político indicou
que "a transferência de poder para o governo de transição ocorrerá em um
ambiente seguro e pacífico".
Conforme o El País, o porta-voz dos insurgentes, Suhail
Shahein, também garantiu, em declarações ao canal britânico BBC, que a milícia busca
uma transição pacífica de poder, nos próximos dias. O cessar-fogo, no entanto,
não foi anunciado. À agência de notícias Reuters, um chefe do Talibã em Doha,
no Catar, onde negociações estavam sendo mantidas para o fim das hostilidades, falou
que o grupo deseja manter a integridade física dos habitantes. "Não queremos um
único civil afegão inocente ferido ou morto enquanto tomamos o poder, mas não
declaramos um cessar-fogo", afirmou.
Outro porta-voz da milícia garante que, agora, estão
negociando com o governo a "rendição pacífica" de Cabul. Outros membros do
grupo, porém, disseram à Reuters que não estão procurando um executivo de
transição, após a vitória retumbante. O Talibã, de qualquer modo, emitiu apelos
por calma, insistindo que não busca a tomada do poder.
Diplomatas
fogem - A dominação
do país pela milícia ocorre 20 anos após a invasão do exército norte-americano, que
expulsou o Talibã do poder. Na manhã desta segunda-feira (16), apesar dos
anúncios de tomada pacífica, o terror tomou conta de Cabul. A situação obrigou os
Estados Unidos a fecharem sua embaixada e evacuarem seus diplomatas, em
helicópteros militares.
De acordo com o site O Antagonista, nos últimos dias, durante
a preparação dos talibãs para a tomada da capital afegã, funcionários do
corpo diplomático norte-americano começaram a destruir documentos e
equipamentos confidenciais.
Em pânico, a população tenta fugir do país. O medo se apoderou
dos cerca de 4,5 milhões de habitantes de Cabul e dos milhares de refugiados
advindos de outras áreas, em função do avanço das hostes talibãs. Segundo o El
País, grandes engarrafamentos se formam nas ruas; alguns moradores estocaram
comida, com medo de um longo período de instabilidade, com ocorrência de saques,
mortes e violações, como no passado; outros correram para os bancos, a fim de obter
dinheiro, mas tiveram uma surpresa: o governo restringiu a retirada a 2 mil
dólares.
Na memória de muitos, diz o El País, está o regime imposto
pelo Talibã entre 1996 e 2001, quando uma interpretação rigorosa do Islã foi
aplicada. Punições físicas, a exemplo de chicotadas e amputações, eram impostas por
crimes como roubo. As mulheres eram forçadas a se cobrir com a burca e
proibidas de estudar, a partir dos 10 anos. Agora, os fundamentalistas tentam passar
uma imagem de maior pragmatismo e contenção.
Outras embaixadas também aceleraram a evacuação de seus
funcionários e as agências de viagens fecharam. Os voos domésticos e
internacionais foram cancelados. Somente aviões militares dos Estados Unidos e
de outras nações da coalizão internacional que apoiavam o governo conseguiram
retirar seus cidadãos e diplomatas.
A escalada do Talibã ao poder surpreendeu os afegãos e a aliança
liderada pelos Estados Unidos. De acordo com o El País, nas últimas duas
décadas, o país norte-americano investiu 83 bilhões de dólares em equipamento e treinamento de
um exército governamental que não hesitou em abandonar seus postos sem
resistência ou fugir antes da chegada dos insurgentes. A população perdeu a
esperança de ver a situação melhorar e culpa os Estados Unidos pelo novo golpe
de Estado dado pelas milícias. "O mundo e os afegãos devem responsabilizar os
líderes americanos por iniciar esta guerra e, sem encontrar uma maneira de
acabar com ela, sair, agora, deixando o Afeganistão em uma situação pior do que
antes da expulsão do Talibã", disse Tajuddin, comerciante de tapetes de Cabul.
O Talibã está pedindo aos afegãos que não deixem o país por
medo. Zabihullah Mujahid, principal porta-voz do grupo, insistiu que os
militantes receberam ordem de permanecer nos portões de Cabul e que a capital
será entregue pacificamente. Os combatentes, diz o El País, estão instruídos a
evitar vingança ou atacar propriedades. E garante que hospitais e o aeroporto
continuarão funcionando. Também asseguraram que estrangeiros poderão deixar a
capital, se desejarem.
Nesta segunda-feira, o Conselho de Segurança da ONU discute,
em caráter emergencial, a situação no país, que está cada vez mais isolado,
apesar de fontes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) afirmarem
que estão trabalhando para manter o aeroporto da capital em funcionamento, único
ponto de saída do país, neste momento. Isto porque, segundo informou o El país,
após a tomada de Jalalabad, ontem, o Paquistão fechou sua fronteira com o
Afeganistão. Agora, o território está sob o domínio do Talibã.
confusão e MORTES no Aeroporto - Nenhum esforço, todavia, impede os afegãos de cederem ao medo. Milhares
de pessoas invadiram as pistas do aeroporto de Cabul, na manhã de hoje, na
esperança de embarcarem em algum voo que as levasse para fora da capital. De
acordo com o portal de notícias O Tempo, um vídeo divulgado pela TV Al Jazeera
mostra uma multidão correndo atrás de um avião militar dos EUA, tentando subir
na aeronave. Pouco após a decolagem, é possível ver algumas pessoas caindo para
a morte.
Os que conseguiram subir ao topo das escadas, principalmente
jovens, tentavam ajudar os outros a fazer o mesmo. Muitos se agarraram às
grades. Famílias inteiras, inclusive com crianças, também tentavam fugir. O
tumulto foi tão grande que as tropas americanas, responsáveis pela segurança,
atiraram para o alto, a fim de dispersar a multidão. Três pessoas acabaram
feridas e mortas, segundo o site. Todos os voos comerciais foram cancelados.