Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • (75) 9707-1234
  • Feira de Santana, quarta, 25 de fevereiro de 2026

Wellington Freire

A tradição bélica da diplomacia americana

Wellington Freire - 25 de Fevereiro de 2026 | 07h 11
A tradição bélica da diplomacia americana
Foto: Whitehouse.gov

Em discurso proferido ontem, ao afirmar, no Congresso, que busca a paz, mas jamais hesitará em usar “as Forças Armadas mais poderosas da Terra”, Donald Trump reativou uma das mais persistentes fórmulas da tradição estratégica americana: a promessa de paz sustentada pela supremacia militar. A expressão soa contemporânea, mas sua genealogia atravessa mais de um século de história.

No início do século XX, Theodore Roosevelt condensou essa lógica no célebre conselho: “fale suavemente e carregue um grande porrete”. A política do big stick, ou o grande cacete, não era mero exibicionismo bélico; tratava-se de diplomacia armada. A construção da frota de “grande marinha branca” e a intervenção no Caribe projetavam poder não apenas para vencer guerras, mas para evitar que elas eclodissem em condições desfavoráveis. A força funcionava como argumento antecipado.

Décadas depois, em plena Guerra Fria, Ronald Reagan popularizou a expressão “peace through strength” ( paz através da força). O rearmamento maciço dos anos 1980, da Iniciativa de Defesa Estratégica à modernização nuclear, combinava pressão militar e negociação. A assinatura do Tratado de não proliferação de armas nucleares com Moscou não ocorreu apesar da força, mas sob sua sombra. A mensagem era clara: a diplomacia é mais eficaz quando apoiada por credibilidade coercitiva.

A fala de Trump insere-se nessa linhagem. Ao ameaçar o Irã, enquanto afirma preferir a via diplomática, ele mobiliza a lógica clássica da dissuasão: convencer o adversário de que o custo da escalada será intolerável. Desde 1979, a relação entre Washington e Teerã oscila entre contenção e confronto indireto. A novidade não está na ameaça, mas em sua teatralização.

Há aqui uma dimensão performativa essencial. O Estado da União não é apenas relatório; é encenação estratégica. Ao falar para o Congresso e para o mundo, o presidente não comunica apenas intenções. constrói expectativas. A força, quando proclamada publicamente, busca produzir efeitos antes mesmo de ser empregada. Clausewitz lembrava que a guerra é continuação da política por outros meios; na era midiática, o discurso é continuação da estratégia por outros meios.

A analogia histórico-militar mais evidente é a diplomacia das canhoneiras do século XIX. Impérios europeus exibiam navios diante de portos estrangeiros não necessariamente para bombardear, mas para persuadir. O poder naval britânico operava como argumento silencioso. Hoje, o porta-aviões substitui a canhoneira; o plenário televisionado substitui o ancoradouro. A lógica permanece.

No plano diplomático, a fórmula ecoa a prática das grandes negociações nucleares. Durante a crise dos mísseis de 1962, John F. Kennedy combinou bloqueio naval e canais secretos com Moscou. A contenção firme criou o espaço para a saída negociada. A força não anulou a diplomacia; estruturou-a. A diferença contemporânea reside na polarização interna: a ameaça externa também fala ao eleitor doméstico.

Trump articula, assim, três níveis simultâneos. Primeiro, o estratégico: sinalizar ao Irã que a retomada de ambições nucleares encontrará resposta. Segundo, o diplomático: manter aberta a porta da negociação, mas sob pressão. Terceiro, o político-interno: reafirmar liderança num contexto de aprovação vacilante e eleições próximas.

A tradição americana oscila entre república e império, entre excepcionalismo moral e hegemonia pragmática. A fórmula “paz por meio da força” funciona como ponte entre esses polos. Ela legitima a supremacia militar não como fim, mas como garantia de ordem. No entanto, sua eficácia depende de credibilidade  e credibilidade exige coerência entre palavra e ação.

O risco histórico dessa retórica é duplo. Se a ameaça não é levada a cabo quando desafiada, corrói-se a dissuasão. Se é aplicada em excesso, transforma-se em profecia autorrealizável, convertendo tensão em conflito aberto. A história do século XX oferece exemplos de ambos os desvios.

Ao evocar a força como condição da paz, Trump não inventa uma doutrina; reinscreve-se numa tradição. A questão, como sempre, não é a frase, mas o cálculo. Entre o porrete de Roosevelt e o rearmamento de Reagan, a diplomacia americana alternou prudência e excesso. O desafio contemporâneo é saber se a teatralização da força produzirá estabilidade — ou apenas ampliará a incerteza num sistema internacional já tensionado.

Em última instância, a fórmula imperial persiste porque responde a uma intuição antiga: a paz raramente é fruto da fraqueza. Mas a história também ensina que a força, quando elevada a princípio absoluto, tende a converter-se no contrário do que promete.



Wellington Freire LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

Charge do Borega

As mais lidas hoje