Há uma cena nos Comentários sobre as Guerra Gálicas, clássico da historiografia militar romana Antiga, que poucos leem, mas que muitos deveriam conhecer. Júlio César, após dizimar uma tribo germânica, escreve com a frieza de quem lavra o solo: “bello confecto, pacem fecit”, ou seja, concluída a guerra, fez a paz. O historiador romano Tácito, menos complacente, traduziu o gesto em sua célebre máxima: “fazem o deserto e chamam de paz”. Dois milênios depois, Donald Trump senta-se atrás de um pódio na Casa Branca, ao lado de um general de quatro estrelas, e anuncia que o Irã pode ser “eliminado em uma noite”. Não há pretensão de ocupação, nem de reconstrução, nem sequer de paz romana. Há apenas a noite. E, depois dela, o silêncio das usinas devastadas e a promessa de que os sobreviventes habitarão a Idade da Pedra.
A frase é, ao mesmo tempo, um disparate logístico e uma obra-prima retórica. E é precisamente nessa contradição que reside sua eficácia e seu perigo. O que Trump nos oferece não é uma estratégia militar, mas um gênero textual. O ultimato com prazo fixo, “20h de terça-feira, horário de Brasília”, pertence a uma linhagem discursiva que vai dos éditos assírios aos comunicados de rendição incondicional da Segunda Guerra Mundial. Mas há uma diferença crucial: enquanto os ultimatos clássicos buscavam encerrar uma guerra já em curso, o ultimato trumpista pretende substituir a guerra pela ameaça. É a guerra como performance, o aniquilamento como enunciado.
Comparemos com dois momentos fundadores da retórica de prazo fatal. Em julho de 1914, o ultimato austríaco à Sérvia foi meticuloso, jurídico, quase entediante, suas 48 horas não escondiam a intenção de humilhar, mas vestiam-se de protocolo. Já Richard Nixon, em 1972, ao ordenar a Operação Linebacker II sobre Hanói, deu à força aérea americana um prazo secreto de três dias para “trazer o inimigo à mesa” – o que ficou conhecido como “bombardeio de Natal” foi um fracasso retórico e militar, pois o Vietnã do Norte não cedeu, e Nixon acabou aceitando termos piores.
Trump aprendeu com ambos. De 1914, tomou a pompa; de Nixon, a data. Mas acrescentou um elemento inédito: a absurdez explícita. Ninguém acredita seriamente que os Estados Unidos possam “eliminar” o Irã em uma noite – nem mesmo o Pentágono, cujos próprios cenários de guerra total contra a República Islâmica projetam no mínimo semanas de campanha aérea, sem garantia de colapso do regime. A hipérbole, portanto, não é um erro de cálculo. É um dispositivo deliberado de criação de ansiedade.
Chamo isso de ansiedade profética: uma ameaça tão desmedida que sua própria irrealidade gera um estado de incerteza paralisante no adversário. O líder iraniano não sabe se Trump está blefando, se há um plano secreto, se a “noite” significa bombardeios cirúrgicos ou destruição termonuclear. Essa indeterminação é o verdadeiro armamento. O prazo de terça-feira não é uma linha de chegada, mas sim um gatilho psicológico. E, como todo bom profeta do apocalipse, Trump sabe que a espera aterroriza mais do que o castigo.
Mas há um preço. A retórica apocalíptica, quando repetida sem consequência, desgasta-se. O Irã já testemunhou prazos anteriores, de Obama, de Trump em seu primeiro mandato, de Biden, e sobreviveu a todos. A “guerra de uma noite” corre o risco de se tornar o “cão que late mas não morde” do século XXI, com a diferença de que, neste caso, o latido é ouvido em Teerã, Moscou, Pequim e Tel Aviv. E cada latido sem mordida reduz a credibilidade americana.
Suponhamos, no entanto, que Trump não esteja blefando. Suponhamos que terça-feira chegue, o estreito permaneça bloqueado, e os B-52 decolem de bases no Qatar e em Diego Garcia. Suponhamos que os ataques ocorram, não uma noite, mas talvez uma semana. O que resta do Irã? A resposta é um clássico da história militar moderna: sobra um país destruído, um regime ferido mas de pé, e uma questão insolúvel pairando sobre os escombros. E agora?A ameaça trumpista – “enviar o Irã de volta à Idade da Pedra” – é tecnicamente factível. A superioridade aérea americana pode reduzir usinas, refinarias, pontes e portos a crateras. O que ela não pode fazer é transformar a República Islâmica em uma democracia liberal ou, mais importante, impedir que o regime sobreviva exatamente porque foi destruída.
Há uma ironia trágica no ultimato trumpista. Ao prometer uma “guerra de uma noite”, o presidente americano revela, sem querer, a fraqueza central de seu projeto estratégico: os Estados Unidos não têm mais paciência para guerras longas, nem estômago para ocupações, nem capital político para construir nações. Resta-lhes a fantasia da aniquilação instantânea – a ilusão de que um país pode ser “eliminado” como um arquivo deletado do computador.
Mas o Irã não é um arquivo. É uma civilização de cinco mil anos. Já sobreviveu a invasões gregas, árabes, mongóis, afegãs e turcas. Sobreviverá a bombas americanas. O que não sobreviverá, talvez, seja a própria ordem internacional liberal – a mesma que Trump despreza, mas da qual os EUA ainda dependem para legitimar suas ações.
Quando César escreveu “concluída a guerra, fez a paz”, ele sabia que a guerra nunca terminava de verdade. A paz romana era um deserto vigiado por legiões. A paz trumpista, se vier, será um deserto sem ninguém para vigiá-lo – apenas as cinzas de usinas destruídas e a promessa vazia de que tudo foi resolvido “em uma noite”.O problema é que, depois da noite, sempre vem o dia. E o dia, na história, costuma cobrar um preço que nenhum ultimato previu.