O terceiro recuo consecutivo do presidente americano não é um detalhe tático. É a certidão de óbito da credibilidade coercitiva dos Estados Unidos. Aprendi, em meus tempos de estudante de graduação, que a repetição, na tragédia grega, anuncia a catástrofe iminente. Édipo repete a pergunta sobre o assassinato de Laio até descobrir que ele próprio é o assassino. Agamenon repete o erro da hybris até cair morto na banheira. Na polÃtica internacional, a repetição também revela – mas o que ela revela, quando um presidente americano dá três ultimatos consecutivos e recua em todos, não é tragédia. É farsa. E farsa tem um custo estratégico que os manuais de relações internacionais ainda não aprenderam a calcular. Vamos aos fatos, nus e crus, como o leitor desta coluna merece.
Em 22 de março de 2026, Donald Trump deu ao Irã 48 horas para render-se incondicionalmente. Prazo expirado, recuou por cinco dias. No fim dos cinco dias, recuou por mais dez. No último domingo, após o Irã abater dois caças americanos, Trump ameaçou que "uma civilização inteira morreria esta noite" – uma frase que o Irã já denunciou na ONU como incitação ao genocÃdio. Na terça-feira, 7 de abril, poucas horas antes do prazo final, o presidente americano anunciou um cessar-fogo de duas semanas, mediado pelo Paquistão com intervenção de última hora da China, sem rendição, sem desarmamento, com o Irã declarando vitória e reabrindo o Estreito de Hormuz apenas temporariamente – "por duas semanas", nas palavras do chanceler iraniano Abbas Araghchi, "em coordenação com as Forças Armadas do Irã e considerando limitações técnicas".Traduzindo: o Irã continua no controle do gargalo por onde passa um quarto do petróleo mundial. Só vai deixar os navios passarem enquanto lhe convier.
Três recuos. Três vezes que a espada foi erguida e recolhida à bainha sem cortar. O historiador militar, que habita em mim, recorda que na arte da guerra, desde Sun Tzu a Clausewitz, a credibilidade da ameaça é um ativo tão valioso quanto porta-aviões e mÃsseis hipersônicos. Quando uma potência declara que vai fazer algo e não faz, repetidamente, ela não está poupando vidas. Está transferindo para o adversário a coisa mais preciosa que existe em uma relação de força: a capacidade de ditar o ritmo do conflito.
O Irã entendeu algo que os estrategistas de Washington, presos em sua própria retórica de "domÃnio de espectro total", parecem ter esquecido. Em um conflito assimétrico, o lado mais fraco vence quando redefine o que significa vencer.Para os Estados Unidos, vencer seria: o Irã se rende, desmantela seu programa nuclear, abre Hormuz incondicionalmente e abandona seus aliados regionais. Para o Irã, vencer é muito mais simples: sobreviver, manter o regime no poder, provar que pode fechar o estreito sempre que quiser e, sobretudo, obrigar os Estados Unidos a negociarem sob seus termos.
Pergunto ao leitor: qual dos dois alcançou seu objetivo?
O Irã não apenas sobreviveu como, segundo seu próprio Conselho de Segurança Nacional, os Estados Unidos aceitaram "a estrutura geral do plano de dez pontos iraniano". Esse plano inclui, ainda que apenas como abertura para negociação, demandas que há um mês seriam consideradas delÃrio: fim de todas as sanções econômicas, pagamento de indenizações por danos de guerra, retirada das forças militares americanas da região. O fato de esses pontos estarem sequer sobre a mesa já é uma vitória retórica e polÃtica para Teerã.
Como observou Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais do Berea College, em entrevista ao Estadão: "Trump que falava até outro dia em rendição incondicional, agora faz um post dizendo: 'tem algumas condições aqui que nós estamos discutindo'. Cadê a rendição incondicional?" A resposta, incômoda, é que nunca existiu. Era um blefe. E o Irã pagou para ver. Mas o elemento verdadeiramente sÃsmico desta crise – aquele que os telejornais vão mencionar de passagem, mas que o leitor atento precisa guardar na memória – é a intervenção de última hora da China.
Pequim manteve-se deliberadamente distante da escalada. Até que, no momento crÃtico, entrou em cena para salvar um acordo que os Estados Unidos, sozinhos, não conseguiam fechar. Três autoridades iranianas confirmaram ao New York Times: a mediação do Paquistão foi decisiva, mas a intervenção chinesa foi o fator que desempatou a negociação.O que significa, para a ordem global do século XXI, que a única superpotência remanescente não consegue resolver uma crise que ela mesma iniciou sem recorrer – mesmo que indiretamente – à ajuda de sua principal rival geopolÃtica?
Não é uma pergunta retórica. É o som do mundo multipolar batendo à porta.
A China agora acumula, em um único movimento diplomático: crédito com o Irã (seu aliado no corredor do Cinturão e Rota), gratidão tácita do Paquistão (seu "irmão de ferro"), um precedente para futuras mediações em crises onde os Estados Unidos estejam atolados e, ironia das ironias, um serviço prestado aos próprios americanos – que Pequim certamente não esquecerá de cobrar. O professor Vinicius Vieira, da FGV e FAAP, citado pelo Estadão, fez uma observação que merece ser repetida: "Essa falta de credibilidade não deve se estender apenas ao governo Trump, mas pode virar uma herança maldita para os seus sucessores, sejam eles democratas ou republicanos."
É isso. O custo do terceiro recuo não será pago apenas por Trump. Será pago pelo próximo presidente americano que precisar fazer uma ameaça crÃvel a Teerã, ou a Pyongyang, ou a Pequim. O inimigo aprenderá a lição: o ultimato americano tem prazo de validade. E vence rápido.
O estreito de Hormuz será reaberto por duas semanas. O petróleo vai fluir. As bolsas vão subir. O mundo vai respirar aliviado. Mas, para quem sabe ler a história militar e as entrelinhas da geopolÃtica, a pergunta que fica é outra: o que o Irã pedirá em troca da próxima reabertura? E quando a China decidir que é hora de recolher o dividendo dessa intervenção, qual será o preço cobrado?
O século XXI, meus caros, não será americano. Também não será chinês – pelo menos não exclusivamente. Será uma negociação perpétua entre potências que já não sabem mais blefar sem tremer. E Donald Trump, com seus três ultimatos frustrados e sua retórica genocida, pode ter sido o catalisador involuntário desse novo mundo.
Restam quatorze dias para saber se a trégua vira paz ou se o intervalo entre dois atos da peça será preenchido por mais mÃsseis. De qualquer forma, a plateia já sabe: o herói americano, desta vez, saiu do palco vaiado. E o vilão, de turbante e fala mansa, fez uma reverência e ficou.