A primeira edição circulou no sábado, dia 10, mas a sexta-feira
é que foi terrível, naquele mês de abril de 1999, quando inauguramos – este
colunista, o jornalista João Batista Cruz e os publicitários Denivaldo Santos e
Gildarte Ramos – o jornal semanário Tribuna Feirense. O fotógrafo Washington
Nery completava a redação. Este excelente profissional, aliás, merece ter o seu
nome nos créditos dos fundadores deste veículo, por sua participação
absolutamente imprescindível neste épico começo de jornada.
A partir daquele dia, durante mais de uma década, eu não
dormiria mais às sextas, como todos os mortais. As noites eram tensas,
dedicadas ao fechamento do jornal (no período de semanário ou durante os anos
em que circulou diariamente) e as madrugadas, de espera pelo telefonema da
Gráfica da Costa, informando que a impressão estava pronta.
Saía de casa a 1, 2, 3 horas da madrugada, para o itinerário
de todo começo de sábado. O sono era forte, mas maior era a vontade de ver o resultado
de uma semana de trabalho – o que, às vezes, também terminava em frustração,
quando passava os olhos rapidamente nas páginas e descobria falhas graves, de
redação ou impressão.
Havia pressa, muita pressa. Afinal, às 5 horas em ponto,
chegariam os entregadores, uma meia dúzia de adolescentes, e também adultos,
que ganhariam seu trocado para levar a edição até os assinantes e às bancas.
Eu, minha primeira mulher, Márcia, nossas filhas, Valma (hoje, destacada
jornalista baiana) e Valéria (boa publicitária, nos dias atuais), cuidávamos,
na garagem da pequena residência na Rua Simões Filho, no Ponto Central, de
organizar aquele calhamaço com agressivo cheiro de tinta, o que chamamos de
encadernar o jornal, até a chegada dos rapazes.
Durante a semana, eu e Batista nos revezávamos no único
computador disponível no escritório que alugamos na Rua Carlos Gomes, enquanto
Denivaldo e Gildarte utilizavam o fax para contatos comerciais. O espaço era
bem pequeno. Cabia, apenas, duas mesas. Uma para o único computador e o fax,
outra para a secretária Patrícia, que organizava nossos poucos anúncios e
assinaturas. Gildarte, de pé, porque não havia assento suficiente, entregava
alguma autorização de assinatura, conversava algo e seguia. Batista escrevia
sua matéria e seguia para o bar junto com Denivaldo. Eu assumia o lugar para
editar o texto e, também, escrever minha reportagem do dia. Tempos dificílimos.
Por mais esforço que estivessem fazendo os competentes
Denivaldo e Gildarte, não conseguiram vender o suficiente para pagar o aluguel
do espaço. A conta de energia começava a ficar comprometida. Começamos a criar
uma dívida. Mal arrecadávamos o dinheiro da impressão. Remuneração, zero, ninguém
recebia um centavo sequer, ao final do mês. Observei que não seria inteligente
manter aquela situação. Entregamos a sala.
Levei estes parcos móveis para a sala da minha casa. Márcia
passou a ser secretária, afinal, não havia como pagar a jovem Patrícia.
Gildarte e Denivaldo foram cuidar da vida. Também dispensei Batista, mas este
sétimo irmão que Deus me deu continuou a fazer as suas excelentes reportagens,
mesmo sem perspectiva financeira. Assim como Washington, manteve-se firme nas
fotos, igualmente, sem nada receber.
Eu havia acabado de deixar o cargo de editor-chefe do
"Diário da Feira", criação do bravo jornalista Wilson Mário, que sucumbiu à aridez comercial do jornalismo impresso, àquela
época, depois de muito lutar. O meu sonho de entregar um bom produto
jornalístico a Feira de Santana e, também, de me tornar um empreendedor da
comunicação, não me deixou desistir, naquele momento.
Fui eu mesmo pra rua, vender. Foram vários os apoios que
recebi. Batia à porta e, dificilmente, ouvia um não. De assinantes e de
empresários locais que apreciavam o meu trabalho desde o jornal "Feira
Hoje", do qual, orgulhosamente, também fui editor-chefe por cinco anos,
até a extinção do veículo, pelo empresário e político Pedro Irujo.
Devo destacar, aqui, três dessas personalidades que ajudaram a Tribuna Feirense
a continuar: Professor Antônio Lópes, visionário cidadão desta terra, no
comando da Fundação de Apoio ao Menor (FAMFS) e a dupla de investidores do
mercado imobiliário Gilson Alves e Oswaldo Ottan, ambos dirigentes da
"Nova Feira".
Na medida em que surgiram apoios comerciais, eu e Batista
fomos nos motivando mais na produção de grandes reportagens, nas mais diversas
áreas, o que atraía o interesse dos leitores, fazendo crescer o número de
assinantes. A Charge do Borega era aguardada com grande expectativa.
A Tribuna Feirense, com seu slogan "A Gente Só Sabe
Dizer a Verdade" – mais tarde, substituído por "Compromisso Com a
Verdade" – ganhou fôlego. Ousamos alugar não mais uma, apenas, como no
início, mas três espaçosas salas no Edifício da Drogafarma.
Márcia se tornou gerente administrativo-financeira e precisou
até de assistente, sua irmã Emanuelle. Gildo Silva, meu irmão, também se juntou
ao pequeno grupo, um monstro no trabalho. Denivaldo seguia em outro projeto e
eu é que tocava, praticamente sozinho, o comercial. Nesta nova fase, não apenas
era possível pagar os custos, mas também uma modesta remuneração à equipe.
Todos possuíam computador para o trabalho.
Produzimos cadernos especiais memoráveis que entraram para a
história do jornalismo regional, como o documentário sobre o impacto da
Ditadura Militar em Feira de Santana, suas pressões, torturas e prisões,
contadas por vários personagens. A Tribuna Feirense semanal fez enorme sucesso
e seguia firme.
É neste momento promissor que chega ao nosso time o médico e
cronista César Oliveira, no início de 2001. Apaixonado por comunicação e
entusiasmado com o projeto editorial diferenciado, a absoluta liberdade de que
desfrutávamos em nosso noticiário e opinião, ele adquire 40% das ações e se
torna meu sócio. Foi dele o impulso para que o jornal se tornasse diário, uma
ideia que, em princípio, não contou com o meu apoio.
Eu havia, há pouco tempo, passado por duas grandes decepções
com veículos impressos diários, o Feira
Hoje e o Diário da Feira, que
fecharam as portas, em meio a grandes dificuldades comerciais. O nosso
semanário conseguia sobreviver com relativa tranquilidade. Mas ele acabou me
convencendo – e investindo –, para que a proposta se concretizasse. Uma
história que vou contar nos próximos dias.
A Tribuna Feirense continua viva, agora na Internet, graças à
obstinação de César. Deixei o projeto em 2011, para me dedicar à carreira de
servidor público, mas o médico e jornalista desafiou as dificuldades e,
bravamente, mantém o veículo na Internet, com a mesma qualidade e
comprometimento de seus primórdios. É um dos primeiros sites jornalísticos de
Feira de Santana. Entre impresso e digital, são 27 anos de jornalismo nesta
cidade, completos, exatamente, hoje. E, depois de um intervalo, eis que aqui me
encontro de novo. Agora, como um simples colaborador. Que esta data se repita,
por muitos e muitos anos!