Quando uma potência emergente começa a falar em nome da ordem mundial
Durante grande parte da história moderna, houve uma curiosa
regularidade na linguagem do poder. As potências dominantes raramente se
apresentavam como dominantes. Preferiam falar em nome da ordem, da
estabilidade, da civilização ou da paz. Os impérios quase nunca se descrevem
como impérios. Descrevem-se como guardiões de uma necessidade universal.
No século XIX, era Londres. A Grã-Bretanha controlava
oceanos, rotas comerciais e mercados, mas justificava sua posição como uma missão
destinada a garantir a liberdade dos mares e o equilíbrio europeu. Paris, em
diferentes momentos, reivindicou para si a condição de porta-voz dos valores
universais da Revolução. Após 1945, foi a vez de Washington assumir a linguagem
da ordem internacional, das instituições multilaterais e da estabilidade
global.
Agora, um fenômeno singular parece desenhar-se diante de
nossos olhos. É Pequim que começa a falar em nome da governança mundial. A
recente defesa chinesa de uma ampla reforma da ONU, acompanhada de críticas ao
unilateralismo e à chamada "lei da selva", possui um significado que
ultrapassa a diplomacia cotidiana. Não se trata apenas de um documento
burocrático ou de uma disputa protocolar dentro das Nações Unidas. O que emerge
ali é algo mais profundo: a tentativa de uma potência ascendente de ocupar o
espaço simbólico que durante décadas pertenceu aos Estados Unidos.
Os símbolos importam. Muitas vezes, importam mais do que
tanques, porta-aviões ou mísseis. Quando um Estado passa a apresentar-se como
defensor da ordem internacional, ele está reivindicando uma forma superior de
autoridade. Não deseja apenas ser poderoso. Deseja ser reconhecido como
legítimo. Há uma diferença fundamental entre possuir força e possuir a
capacidade de definir quais usos da força são aceitáveis.
Os romanos compreenderam isso melhor do que ninguém. Roma não
afirmava conquistar povos para enriquecer suas elites ou expandir sua
influência. Declarava estar impondo a pax romana. O império era
apresentado como uma forma de ordem. Os vencidos podiam discordar. A narrativa
permanecia.
Algo semelhante ocorreu com o Império Britânico. E, mais
tarde, com os Estados Unidos. A liderança internacional dependia não apenas da
superioridade material, mas da capacidade de convencer outros povos de que seus
interesses particulares coincidiam com interesses universais.
É precisamente nesse terreno que a China parece avançar. O
aspecto mais interessante da atual retórica chinesa não está na crítica aos
Estados Unidos. Potências emergentes sempre criticaram as potências
estabelecidas. Atenas criticou Esparta. A França napoleônica criticou a ordem
europeia criada pelas monarquias. A Alemanha do século XIX contestou a
supremacia britânica. Nada disso é novo.
O que chama atenção é que Pequim não fala a linguagem da
revolução. Fala a linguagem da preservação da ordem. Em vez de anunciar a
destruição das instituições existentes, propõe reformá-las. Em vez de rejeitar
a ONU, reivindica seu fortalecimento. Em vez de negar o multilateralismo, apresenta-se
como sua defensora.
Esse deslocamento revela uma transformação histórica
relevante. Durante décadas, observadores ocidentais imaginaram que a China
surgiria como uma potência revisionista disposta a demolir a arquitetura
internacional criada após a Segunda Guerra Mundial. O que vemos, contudo, é
algo diferente. Pequim parece desejar herdar essa arquitetura, não destruí-la.
A questão decisiva, portanto, não é se a China ficará mais
rica ou mais poderosa. Isso já está acontecendo há décadas. A pergunta realmente
importante é outra: quem terá autoridade para definir o significado da ordem
mundial ao longo do século XXI?
A resposta ainda está longe de ser clara. Os Estados Unidos
continuam sendo a maior potência militar do planeta. Sua influência tecnológica,
financeira e cultural permanece extraordinária. Mas a própria necessidade de a
China apresentar-se como defensora da governança global revela que algo está
mudando.
As grandes transições históricas costumam ser percebidas
primeiro na linguagem e apenas depois nas estruturas materiais. Antes de os
exércitos mudarem de posição, mudam as narrativas. Antes da transferência do
poder, ocorre a transferência da legitimidade.
Talvez seja cedo para afirmar que o século XXI será chinês.
Mas já não parece exagero afirmar que vivemos um momento em que Pequim começa a
disputar algo ainda mais valioso do que mercados ou territórios: o direito de
falar em nome do mundo. E toda vez que uma potência reivindica esse direito, a
história costuma estar entrando em uma nova era.
*Nota: ao leitor
interessado em aprofundar a discussão, remeto a: KISSINGER, Henry. “A
Diplomacia das Grandes Potências”. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1999.