Há personagens que sonham. Há personagens que enlouquecem. E há aqueles que vivem convencidos de que o mundo lhes deve alguma coisa. Foi relendo Os Sete Loucos, romance do argentino Roberto Arlt, que me dei conta de um traço decisivo do personagem central, Erdosain. À primeira vista, ele parece um descendente moderno de Dom Quixote. Ambos deformam a realidade; ambos enxergam possibilidades invisíveis aos demais; ambos vivem sob o domínio da imaginação. Mas essa semelhança é apenas superficial. Quixote enlouquece por excesso de livros. Erdosain enlouquece por excesso de melancolia. A diferença é enorme.
Dom Quixote abandona a realidade porque foi capturado pelo universo cavaleiresco. Os romances absorveram sua percepção do mundo como um buraco negro absorve a luz. Sua fantasia nasce de um ideal. Mesmo quando agride alguém, acredita estar fazendo justiça. Sua bondade permanece intacta. A loucura não destrói seu núcleo moral.
Em Erdosain ocorre o inverso. Sua imaginação não nasce dos livros, mas da frustração. Há nele uma reserva inesgotável de melancolia que o impede de habitar o mundo tal como ele é. Por isso, vaga pelas ruas de Buenos Aires esperando que algo extraordinário aconteça. E esse detalhe é extraordinário. Erdosain não apenas fantasia. Ele espera ser escolhido.
Em determinados momentos do romance, imagina que um "milionário melancólico" o observa por trás das persianas de um edifício e, reconhecendo sua grandeza secreta, o chamará. Em outros, fantasia com uma jovem virgem e milionária que o distinguirá da multidão. Não se trata propriamente de riqueza. Trata-se de reconhecimento. Ele acredita que existe, escondida sob sua existência miserável, uma grandeza que ninguém percebeu.
E espera que a realidade finalmente lhe faça justiça. Foi então que me ocorreu uma hipótese. Talvez Erdosain seja um homem dominado por uma espécie de débito metafísico. Ele vive como se o universo estivesse em falta com ele. O mundo lhe deve reconhecimento. Lhe deve amor. Lhe deve grandeza. Lhe deve destino. Como essa dívida jamais é quitada, sua melancolia transforma-se lentamente em ressentimento.
Essa ideia me fez lembrar imediatamente um dos personagens mais perturbadores da literatura brasileira: o protagonista de O Cobrador, de Rubem Fonseca. Ali, aquilo que em Erdosain permanece difuso torna-se declaração explícita. "O mundo me deve." O personagem enumera tudo o que acredita lhe ter sido roubado: tratamento dentário, dinheiro, conforto, sexo. Não fala como quem deseja. Fala como um credor.
A diferença entre os dois personagens talvez esteja apenas no estágio da doença. Erdosain ainda espera que alguém pague a dívida (um milionário melancólico, como ele mesmo diz). O Cobrador conclui que ninguém pagará. Então decide cobrar. Sua violência nasce exatamente dessa convicção de que existe um crédito moral não quitado.
Talvez seja essa a verdadeira genealogia do ressentimento moderno. Não o homem pobre. Nem o homem injustiçado. Mas o homem convencido de que foi espoliado de um destino que lhe pertencia. A partir daí, tudo muda. A violência deixa de ser percebida como crime. Passa a ser vista, pelo próprio personagem, como restituição.
Há um momento decisivo no conto de Rubem Fonseca. Depois de uma sequência de assassinatos, o protagonista encontra uma mulher que lhe diz que ele mata "de uma forma quase mística". A frase é perturbadora porque converte a violência em missão. Já não se trata apenas de matar. Trata-se de cumprir um destino.
É exatamente aí que Erdosain começa a se aproximar do universo do Astrólogo, em Arlt. O sofrimento privado encontra uma narrativa capaz de lhe conferir sentido. A melancolia deixa de ser apenas dor; transforma-se em projeto.
Quixote, Erdosain e o Cobrador recusam o mundo existente. Mas cada um o faz por razões completamente diferentes. Quixote acredita que o mundo perdeu sua nobreza. Erdosain acredita que o mundo lhe sonegou sua grandeza. O Cobrador acredita que chegou a hora da cobrança.
Talvez essa seja uma hipótese perturbadora: A mais perigosa das fantasias não consiste em imaginar gigantes onde existem moinhos. Consiste em acreditar que a própria existência possui um crédito infinito contra o mundo.
Quando essa convicção se instala, a realidade deixa de ser um lugar para viver e passa a ser um imenso livro-caixa onde tudo é contabilizado: humilhações, fracassos, desejos frustrados. E, nesse momento, o homem deixa de ser apenas um sonhador ou um melancólico. Torna-se um cobrador da própria existência. É nesse instante que a literatura deixa de falar apenas de personagens e começa a falar de uma possibilidade permanente da condição humana. Talvez seja por isso que Erdosain continue a nos inquietar tanto: porque sua espera delirante por um "milionário melancólico" não é apenas uma excentricidade. É a expressão extrema de uma pergunta silenciosa que, em algum momento, todos já dirigimos ao mundo: afinal, ele não me devia um pouco mais?
Nota: Citei ao longo do meu ensaio as seguintes obras: ARLT, Robert. Os Sete Loucos. São Paulo: Iluminuras, 2000; FONSECA, Rubem. Contos Reunidos. São Paulo: Cia das Letras, 2005.