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César Oliveira

Deixem Pelé reinar em paz

César Oliveira - 28 de Junho de 2026 | 21h 20
Deixem Pelé reinar em paz

Eu fico impressionado com o brasileiro. Enquanto o mundo reverencia Pelé, o Brasil e sua imprensa acordam todos os dias anunciando: 'Messi supera recorde de Pelé', 'Fulano acertou mais passe que Pelé', 'Pelé não jogaria hoje'. Muda-se o concorrente, mas mantém-se a mesma necessidade de demolir nosso maior mito. É uma caça incessante por um número, uma estatística isolada, um erro de chute ou de passe — qualquer coisa que sirva para apequenar o Rei. Essa tentativa de desconstrução já dura décadas. Em vez do elogio, escolhe-se o silêncio; em vez de exaltar o ápice, busca-se um dado menor como forma de realçar uma eventual inferioridade de um atleta de eficácia implacável e inatingível.  Em vez do orgulho, demonstramos  uma incompreensível vontade de sermos superados.

Essa necessidade de destronar  o nosso maior ídolo a qualquer preço revela o ápice do que Nelson Rodrigues chamou de 'síndrome do vira-lata': uma profunda miséria moral que nos faz agir como subalternos, incapazes de conviver com a nossa própria herança de realeza. Há também um interesse comercial óbvio: enquanto Pelé for o topo absoluto, a indústria financeira que rodeia a mídia e o esporte não consegue vender um novo 'maior de todos'.

Pelé tinha uma propriedade única  de domínio sobre o objeto de seu jogo; sobre  seu próprio corpo; e, de forma gigantesca,  de sua própria mente. Ele fez do futebol a sua própria estética.

Talvez, no dia em que outro jogador vencer mais que três Copas do Mundo, marcar 1283 gols, parar uma guerra, redefinir o futebol global a outro patamar como ele fez,  ser mais conhecido que o Papa e Jesus Cristo, criar o  inimaginável de arte e beleza- e aquele drible de corpo no goleiro uruguaio, na Copa de 70,  para não fazer o gol no mais monumental lance da história do futebol-, o brasileiro finalmente se permita usufruir do orgulho e da glória de saber que o maior de todos os tempos nasceu aqui. E Pelé possa reinar em paz!



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