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  • Feira de Santana, quarta, 08 de julho de 2026

Wellington Freire

Quando o cessar-fogo morre antes da paz

08 de Julho de 2026 | 08h 26
Quando o cessar-fogo morre antes da paz
Créditos: Estadão

Há uma ilusão recorrente na política internacional: imaginar que o silêncio temporário das armas equivale ao retorno da paz. Não equivale! A história ensina justamente o contrário. Um cessar-fogo encerra os tiros; raramente encerra as razões que fizeram os homens atirarem.

A retomada dos combates entre Estados Unidos e Irã oferece mais uma demonstração dessa velha verdade estratégica. Bastaram ataques contra embarcações no estreito de Hormuz e uma resposta militar americana para que o acordo firmado poucas semanas antes se dissolvesse diante dos olhos do mundo. O cessar-fogo morreu antes mesmo que a paz tivesse a oportunidade de nascer.

Talvez porque paz e cessar-fogo pertençam a categorias distintas. O primeiro é um estado político; o segundo, um expediente militar. A paz exige confiança mínima entre adversários, reconhecimento de interesses recíprocos e alguma expectativa de convivência futura. O cessar-fogo exige apenas que, por algum tempo, ninguém aperte o gatilho.

Essa distinção costuma desaparecer no noticiário diário, mas sempre reaparece quando observamos a longa duração da história. O armistício de 1918 encerrou os combates da Primeira Guerra Mundial, mas não resolveu as tensões que alimentavam a Europa. Muitos historiadores enxergam os vinte e um anos seguintes menos como um período de paz do que como um longo intervalo entre duas etapas da mesma tragédia continental. A guerra terminara nos campos de batalha, mas permanecia viva nas humilhações nacionais, nas disputas territoriais e no desejo de revanche.

A península coreana constitui outro exemplo eloquente. Desde 1953, vive sob um armistício, não sob um tratado de paz. Mais de sete décadas depois, milhões de soldados continuam posicionados diante de uma das fronteiras mais militarizadas do planeta. A ausência de combate aberto jamais significou o desaparecimento do conflito. Apenas o congelou.

Também os acordos de Minsk, celebrados como esperança para o leste europeu, mostraram os limites dessa lógica. Enquanto o mundo comemorava documentos assinados e fotografias diplomáticas, os exércitos reorganizavam posições, reforçavam arsenais e preparavam a etapa seguinte da disputa. A paz existia mais nos comunicados oficiais do que na realidade estratégica.

O mesmo ocorreu repetidas vezes no Líbano. Cada cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah reduzia temporariamente a intensidade dos combates, mas preservava intacta a estrutura política e militar que inevitavelmente produziria novos confrontos. O relógio da guerra apenas deixava de marcar horas para começar a contar os dias até a próxima explosão.

Talvez devêssemos abandonar a ideia romântica de que cessar-fogos representam o triunfo da diplomacia. Em muitos casos, representam apenas o reconhecimento de um impasse militar. Quando nenhum dos lados consegue impor sua vontade, interrompem-se os disparos para reconstituir forças, reorganizar linhas logísticas, substituir equipamentos destruídos e recalcular estratégias. A pausa converte-se em instrumento da própria guerra.

Há nisso uma ironia profundamente clausewitziana. Se a guerra é a continuação da política por outros meios, o cessar-fogo pode tornar-se a continuação da guerra por meios políticos. As mesas de negociação deixam de substituir os campos de batalha; passam, frequentemente, a prepará-los.

Essa constatação não significa negar o valor humanitário de uma trégua. Cada dia sem bombardeios representa vidas preservadas e cidades poupadas. Mas seria ingenuidade confundir alívio momentâneo com solução duradoura. Entre interromper o combate e eliminar suas causas existe uma distância que a diplomacia raramente consegue percorrer.

Por isso, a pergunta que emerge da nova escalada no Oriente Médio ultrapassa em muito o caso específico de Estados Unidos e Irã. Ela alcança a própria natureza das guerras contemporâneas. Talvez o cessar-fogo tenha deixado de ser a antecâmara da paz para tornar-se apenas um breve intervalo entre duas ofensivas. E, se essa hipótese estiver correta, estaremos diante de uma inquietante transformação histórica: não mais guerras interrompidas por tréguas, mas tréguas absorvidas pela lógica permanente da guerra.




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