Um dos pilares básicos dessa pandemia é o papel do governo em acalmar a população e os profissionais de saúde. Uma comunicação permanente é absolutamente necessária para evitar a histeria. Deste ponto de vista o Min da Saúde, Mandetta, tem sido exemplar.
Tenho visto que SSA já tem previsão de 800 leitos novos. Hospitais exclusivos. Enfim, a cidade está se preparando. E para o interior? Que providências tem sido tomadas?
1- quanto leitos de UTI, novos estão sendo providenciados?
2- quantos leitos novos para internamento, em uma cidade com histórico de falta de vagas?
3- ha contratação prevista de mais profissionais?
4- quantos respiradores o Estado comprou e quantos virão para Feira?
5- antecipar a inauguração do HGCA para Junho, talvez, tem que grau de certeza? E estará fora do auge da pandemia.
6- material de EPI para os funcionários da saúde estão garantidos ou será uma aventura?
A sociedade de Feira, os colegas da Saúde, e 1 milhão de habitantes dessa região esperam respostas OBJETIVAS.
Gripezinha sim
Dráuzio Varella, um bom e humanista médico- salvo no caso da entrevista trans-, Bolsonaro, e outros, tem dito que é uma gripezinha do vírus chinês e sido crucificados por isso. Eles estão certos? Sim, estão, essa é mesmo uma gripezinha. A mortalidade média situa-se na faixa de 2,3 a 3%, ou seja, 97% dos pacientes que contraírem a doença irão sobreviver. Esses dados são influenciados porque boa parte do mundo não faz teste maciço, então não é feito diagnóstico dos casos pouco sintomáticos, o que baixaria ainda mais a taxa de mortalidade. Olhando os dados de hoje temos 315.796 casos e 13596 mortos, confirmando a baixa letalidade. A gripe sazonal mata em torno de 250,000 pessoas no mundo todo ano. Tem taxa de mortalidade de 0,5 a 1%, com o mesmo perfil de aumento em idosos e indivíduos com comorbidades. A gripe suína tem mortalidade de 0,02% e a SARS, que já foi uma outra ameaça chinesa, em torno de 9,6%, portanto, como eles dizem essa é sim, uma gripezinha sim. Do ponto de vista epidemiológico eles estão certos. Mais ciência e menos lata, por favor.
Gripezinha não
Ora, o que faz então o mundo estar em estado de histeria? Porque esse vírus tem um poder de contágio assombroso, uma evolução extremamente rápida nos casos graves para uma dependência de assistência ventilatória precoce e porque ninguém que ser um número na estatística de morte, afinal, há sempre uma chance. E aqui entram os fatores complicadores. O primeiro é o aumento da taxa de mortalidade em idosos, e portadores de doença crônica. A mortalidade em crianças e jovens é ínfima, abaixo de 60anos é de 1,3%, entre 60-70a é de 3,6%, de 70 a 80a é de 8.0% e acima de 80 é de 15 a 21%. Em alguns países, como EUA, no entanto, 40% dos internados tinham menos de 55 anos. O segundo fator é a incapacidade de assistência hospitalar para os pacientes que necessitam do hospital e os 30% que precisam de UTI. A nossa rede hospitalar foi sucateada de 2010 a 2018 com perda de 34 mil leitos e aqui na Bahia, 3000 leitos, que farão falta. Temos 14 mil leitos de UTI que já estão ocupados e não temos respiradores suficientes. O ridículo investimento de R$1 real / habitante em saúde nos cobrará, agora, esse descuido. Portanto, é grande a chance da doença contagiar nossos idosos, e, contagiados, não terem a chance de sobreviverem. Além disso, a influenza tem vacina, o contágio é muito menor, e sua mortalidade é continuada e não com esse perfil geométrico. Considerando-se esses aspectos- e eles não podem ser desprezaods-, essa não é uma gripezinha não. Tenho alertado desde o início que é uma falha grave essa abordagem.
Enfrentamento
Já que estamos diante de um cenário de alto contágio, baixa capacidade de resposta, ausência de tratamento e mortalidade alta em grupos de risco, temos duas maneiras de enfrentamento: isolamento social e testagem maciça, ou as duas combinadas. Há sucessos nas duas ações. A Coréia fez pouco isolamento, mas fazia 15 mil testes por dia e isolava quem era detectado. Isso reduziu a multiplicação do vírus. A quarentena era severa, e punida. Tinha pulseiras com chip de localização e tudo mais. A China fechou o país, fez muitos testes e controlou seu vírus Chinês. Sim, Chinês. Espanha e Itália, não fizeram nenhuma das duas medidas e vivem o caos na saúde. Argumenta-se que o teste maciço poderia dar falso negativo, embora não se saiba em que percentual. Ora, ainda que dê 20% é melhor 20 espalhando o vírus do que 100. É lógica elementar. O Brasil optou por uma quarentena meia boca, com teste só em internados ou casos com contato e agora o governo anuncia mudança de estratégia e vai comprar testes para fazer testagem ampliada (ainda vai comprar, o que acho uma falha, mas antes tarde do que nunca.
Economia
O governo tem de pensar na economia? Tem sim, não está errado, pois, uma deflação será outro caos e deve buscar o melhor equilíbrio entre proteção e contenção e garantia de abastecimento de suprimentos, remédios, insumos, e todo mais necessário ao funcionamento do país. Aeroportos, estradas, precisam estar disponíveis para manter as pessoas assistidas, mas deslocamentos desnecessários, em áreas positivas devem ser desestimulados. Restrições e isolamentos devem ser específicos, controlados, monitorizados. Cultos, igrejas, devem sim ser fechadas, pois Singapura e Coréia já mostraram que suas maiores fontes de disseminação foram eventos religiosos.
Política
A politização da pandemia por alguns políticos, e parte da imprensa, é tão doentia quando a COVID-19. O governo tem agido bem, na maioria absoluta das ações, mas Bolsonaro tem sido infeliz em suas declarações.
Final
Siga sem pânico, mas com disciplina, proteção e cuidado.
Um médico nefrologista ( especialista em rins) é o caso mais grave de coronavírus, do país, até o momento. Tem 65 anos e está internado na UTI, no Rio, muito grave. Outros colegas médicos nefrologistas, também foram infectados, mas estão em casa.
Os exames foram repetidos e o padrão pulmonar é muito ruim.
A vantagem do Brasil é que tem gente que olhando os dados do mundo sobre a pandemia, e observando o que deu certo e deu errado, apresenta absoluta certeza que o errado é a escolha a ser feita. Não há objeção a fazer. Temos apenas que lamentar que a obsessão política supere os argumentos que a ciência tem mostrado .
Na pequena comitiva de Bolsonaro, aos EUA, 12 pessoas foram confirmadas com o vírus e ao próprio presidente foi recomendado quarentena, uma medida que, no mundo inteiro, vem mostrando resultado. O presidente, no entanto, violou o isolamento e foi às ruas cumprimentar manifestantes, sem necessidade, pois, se era seu desejo, poderia ter feito até por live. Não estou tratando da questão política, e sim, sanitária. Essa atitude foi irresponsável, goste ou não, seus passadores de pano que pensam mais na política do que no cidadão comum.
Em algumas cidades a passeata foi trocada, corretamente, por uma carreata, de forma prudente.
Apesar disso, há os arrogantes que dizem que não estão nem aí, como se eles não estarem nem aí, não colocasse em risco outras pessoas, mas compaixão e responsabilidade social é para poucos. E há os apelam dizendo que pior é o PT, numa relação sem nexo e inteligência.
Maia, Alcolumbre, Dória, no entanto, hipócritas seriais e que criticaram o presidente foram a um absurdo coquetel de inauguração da CNN , em um auditório com 1300 pessoas. São os típicos oportunistas do façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço.
Da mesma forma, em surto de psicopatia o bispo Edir Macedo, diz que o fiéis não devem se importar com o coronavírus , embora os dados de Singapura mostrem de forma clara que igrejas foram o maiores focos nessa cidade-estado e as mesquitas tenham sido obrigadas a permanecerem fechadas por mais uma semana. Sabe-se bem que preocupações o bispo deve ter.
Enfim, o mundo está mostrando os fatos, mas como dizia minha vó: "quem não ouve aqueta, ouve, coitado".
Ainda há muitas incertezas sobre o comportamento do coronavírus, no hemisfério Sul. Não sabemos se manterá o perfil que teve na China e na Europa ou se terá uma disseminação diferente. Em caso de dúvida e diante do impacto econômico e de mortalidade é melhor prevenir. Já aprendemos, observando os demais países, que ele apresenta um potencial de transmissão exponencial a partir do caso de número 50 o que já ultrapassamos. Diante do quadro cabem algumas observações:
1- a taxa de mortalidade é baixa em jovens, mas é significativa em idosos, e doentes crônicos, variando de 12 a 18% . Destes, 10% dos pacientes precisarão de assistência ventilatória ( entubação e uso de respirador)
2-nosso sistema de saúde, com sobrecarga eterna, não tem espaço para acrescentar o número de afetados previsto
3- o vírus apresenta uma capacidade de multiplicar-se por 10 em até uma semana. Mesmo que tenhamos uma proliferação menor do que no resto do mundo, ainda assim será algo importante
4- China e a Itália nos trazem lições importantes. Em uma as medidas de contenção foram precoces e severas; na outra, foram tardias e relaxadas. A Itália está em caos, a China já controlou a pandemia.
5- diante destes fatos não resta dúvidas que aglomerações devem ser evitadas ao máximo possível: festas de rua que trazem pessoas de vários locais, jogos de futebol, passeatas, concentrações religiosas. Universidades e colégios,com o crescimento da pandemia terão de ser fechados. Não é possível controlar todo movimento, mas se pode reduzir substancialmente
5-Singapura nos deu a lição que diagnóstico precoce e isolamento com forte Vigilância Epidemiológica, comunicação clara e franca com a Sociedade, e estratégia agressiva de contenção com as medidas necessárias, apresentaram bons resultados.
6-considerando o potencial de contágio, o potencial de letalidade em idosos, a carência de nosso sistema de saúde, fica muito claro que prevenir é melhor que remediar.
8- É IMPERIOSO preparar a estrutura de saúde para receber os casos graves, pois, eles aparecerão. E não deixar para agir após o fato.
7- o Estado deve acelerar a obra do HGCA, deixando leitos de UTI de sobreaviso, e adiantando a reforma das enfermarias velhas que foram licitadas e não começam. E além disso anunciar como está se preparando para atender ao crescimento da demanda.
8-Não é necessário pânico, mas não é possível desatenção.