Na filosofia moral de Tomás de Aquino, a assídia é descrita
como uma "tristeza da alma" que nos arrasta para a indiferença e a
inércia. É o vício de quem, exausto, desiste de buscar o bem por considerá-lo
impossível. Olhando para o Brasil de hoje, percebe-se que essa não é mais
apenas uma categoria teológica, mas a descrição precisa de nosso estado cívico.
Tornamo-nos, coletivamente, um povo cabisbaixo.
Não há como negar que o meio influencia nosso o espírito.
Vivemos sob um estado de desordem violenta que exige uma adaptação cerebral
constante. O medo deixou de ser um susto episódico para se tornar uma variável
permanente em cada ato cotidiano, obrigando-nos a uma vigilância sem tréguas
que esvazia a nossa vontade. É uma fadiga existencial: o peso de carregar uma
impotência que não escolhemos, mas que nos foi imposta.
Essa asfixia da esperança encontra combustível no ambiente
generalizado de corrupção. O brio e o sentimento de pertencimento à nação estão
sendo apagados. Ninguém se orgulha do que é feio, do que é abjeto. A omissão
abissal do Congresso Nacional, que flutua em um vácuo de interesses próprios
totalmente distantes da realidade da população, gera apenas frustração.
Pior ainda é observar o Judiciário — que deveria ser a elite
funcional e o último reduto da justiça — transformar-se em uma fábrica de
desilusão. Onde deveria haver confiança, há dor. Atos de censura franca,
escândalos financeiros cinematográficos (como contratos milionários e resorts
de ministros em parceria com bancos corruptos) e a repressão às críticas —
táticas dignas de regimes totalitários — causam absoluta vergonha. O Direito,
que deveria proteger, passou a ser utilizado como elemento de ameaça.
Quando o cenário político é esteticamente repulsivo, ocorre
um divórcio emocional entre o indivíduo e a nação. A corrupção não rouba apenas
dinheiro; ela rouba o amor cívico e o desejo de construir algo comum. O
resultado é visível em qualquer roda de conversa onde não se sentam os
cúmplices da pirataria: descrédito total. Há uma indignação sufocada, um
silêncio que nasce da percepção de que fomos desarmados de qualquer meio eficaz
para mudar aquilo com que não concordamos.
O cidadão cabisbaixo não é um covarde; é um sobrevivente
exausto de um sistema que o ignora, o oprime e o engana em sua representação
institucional. Resta saber até quando o olhar fixo no chão será capaz de
suportar o peso de uma pátria que parece ter desistido de seu futuro.
A trama envolvendo o Banco Master revela-se como algo que
transcende a fraude financeira convencional, desenhando um cenário de captura
institucional onde a compra de autoridades e o desvio de recursos públicos são
operados por uma elite que utiliza o tráfico de influência como ferramenta de
sobrevivência e expansão. O Master, que carrega o estigma de ter provocado o
maior prejuízo da história ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), possui suas
raízes profundas na Bahia, onde o apoio de sócios e padrinhos políticos locais
viabilizou o controle do Credcesta e das margens consignadas de servidores
públicos, ativos que serviram de banquete para o seu crescimento acelerado.
Essa rede de influência alcança as mais altas esferas do
Judiciário, evidenciada por episódios como o contrato de R$ 129 milhões com a
advogada Viviane de Moraes — sem justificativa curricular aparente e
que permanece sem explicações detalhadas por parte do ministro Alexandre de
Moraes. Somam-se a isso as suspeitas sobre a sociedade no Resort Tayayá e
menções a depósitos que envolveriam figuras como o ministro Dias Toffoli,
escancarando um modus operandi onde a "orgia financeira" servia para
cooptar políticos e juristas.
Entretanto, não existe dinheiro fácil e promiscuidade sem a
presença de mulheres lindas e sexo fácil. O mercado de excessos ia de Trancoso
a Lisboa e Nova Iorque. Revelações extraídas do celular de Daniel Vorcaro
indicam que em sua mansão de R$ 300 milhões funcionava um território sem lei,
onde a nudez era praxe e a presença massiva de mulheres estrangeiras- suiças, holandesas, dinamarquesas, suecas- garantia o
silêncio e a ausência de vínculos locais. A média per capta de corpos
disponíveis era de quatro para um. Essas festas, ironicamente batizadas de
"Cine Trancoso", com sexo consensual é problema de adultos, mas certas
presenças podem resultar em cumplicidade forçada e interferência no estado. As orgias envolviam membros do Poder
Executivo, do governo anterior e do meio jurídico em situações comprometedoras.
A gravidade do cenário atinge seu ápice com as informações
da revista digital Liberta, que afirma ter tido acesso a vídeos estrelando
figuras proeminentes do Judiciário, inclusive com um “ pica das galáxias” do
mundo jurídico. A ex-propietaria da casa
certa vez reclamou que Vorcaro, após alugar o imóvel, encheu a casa dela “ de
puta” . Enquanto o mercado financeiro observa o rastro de insolvência deixado
pelo banco, a opinião pública aguarda a revelação de quem são os poderosos que
trocaram a ética do cargo pelos prazeres financiados pelo Master em solo
baiano.
A catarse, compreendida como a libertação emocional por ação
exaustiva, ascende atualmente à categoria de condição essencial para a
sobrevivência psicológica e social. No atual momento — marcado pelo excesso de estímulos,
sobreposição de demandas e polarizações agudas —, a voracidade das
hiperconexões tende a entorpecer as emoções, deslocando-a para reações de baixo padrão qualitativo. O sentir isolado
é insuficiente; é imperativo que os sentimentos encontrem uma via de escoamento
e reorganização.
Longe de ser uma fuga, a catarse opera como o motor de
expiação das pressões cotidianas e dos limites que nos aprisionam. Ela serve
como um espaço de atravessamento entre a dor, o desejo e conforto espiritual.
Ao permitir que a tensão contida seja drenada, ela alivia temores e descomprime
a raiva, produzindo um êxtase renovador. Para Aristóteles a catarse é um
processo de purificação da alma por meio da vivência de intensas emoções diante
de uma manifestação artística.
A catarse é a resposta a energias acumuladas, excesso de exposição, medidas extemporâneas de sucesso e
realização. Ela destrava o corpo, clarifica conflitos e produz alívio — ainda
que efêmero. O ato catártico agrupa indivíduos que compartilham
vulnerabilidades e vivem sob o peso da
existência. A pressão por desempenho no
trabalho, a autoexploração, e a
fragilidade das relações amorosas, sociais e familiares exige ciclos de
descompressão para transformar a frustração em mudança consciente e menos reativa.
Quando ela não ocorre, frequentemente se expressa em atos violentos ou
dependências.
Na estética contemporânea, essa necessidade é evidente.
Estádios foram convertidos em “arenas”; biografias, em narrativas de luta. A
música permutou a raiva por cadência. Aliás, a própria estrutura da música foi
alterada: os grandes sucessos exigem coreografias rituais, introduções rápidas
da melodia e harmonias em tons menores, com letras propositalmente
simplificadas para facilitar o estado de descarga e “cura” coletiva. Já novelas
e filmes passaram a ser construídos com cenas curtas e fugazes.
Os caminhos para alívio são múltiplos: do esporte com rigor
e da dança à excessos terapêuticos; das conversões religiosas ao sexo serial,
que se tornou um falso exemplo de autonomia e liberdade. Em casos limítrofes,
até o uso de substâncias ilícitas. Contudo, a catarse não é uma panaceia. Ela
exige repetição, pois não soluciona as raízes do sofrimento, ainda que amplie o
fôlego necessário para suportá-las.
Em última análise, a catarse converteu-se em necessidade
biológica e mental. Sua onipresença atesta a fragilidade de uma sociedade
aprisionada em modelos existenciais sobre os quais não tem domínio. Ela é,
simultaneamente, um mecanismo de defesa e o diagnóstico de que perdemos a
capacidade de contemplação, permitindo que o externo dite o ritmo de nossa
própria vida interior — um processo pelo qual estamos pagando um preço caro.
A Marechal
Deodoro é uma daquelas artérias comerciais que, ao cair da noite, oferecem a
sobrevivência aos miseráveis, em meio ao fluxo de carros e à gente que supõe
estar vencendo na vida. Muitos caminham tensos, sob o estado de vigilância e
medo permanente que o escurecer impõe às cidades — metrópoles que fingem
modernidade enquanto submergem na própria barbárie. Mais tarde, em seus
extremos, flores amorfas — travestis e prostitutas — brotarão para disputar o
asfalto; afinal, à noite todos os gatos são pardos e a vida sexual não conhece
lei.
Antes que
essa hora amarga chegue, os fantasmas das ruas já vasculham sacos de lixo em
busca de sobras. Coletores de latas arrastam fardos de linhagem, e catadores
de papelão começam a recolher os restos das mercadorias do dia. Sob uma iluminação
baça e soturna, o ambiente se torna denso. Alguns utilizam carroças puxadas por
cavalos esquálidos, entulhando o material em grandes sacos sobre a carroceria.
Algumas seguem estacionadas; em outras, o condutor guia enquanto o ajudante
apanha os descartes, em busca de otimizar a produtividade.
Não ocorre
apenas naquela rua. Na avenida que volto para casa, observo pai e filho
repetindo a mesma rotina. Às vezes o veículo para o menino recolhe uma caixa na
calçada e a entrega ao pai. É o legado sendo transmitido: o ensino do ofício
feito de migalhas e restos. Não sei se o homem reflete sobre isso, se lamenta a
ausência de perspectivas ou se, por outro lado, sente-se afortunado por possuir
uma carroça enquanto tantos outros empurram galeotas. O garoto veste a camisa
de um time — sempre a mesma — e não demonstra alegria nem tristeza. Apenas
cata, dobra, entrega e segue. Pai e filho, refugos que perderam a vida para o
meio.
Há poucos
dias, enquanto estava junto ao meu carro estacionado na Marechal, ouvi dois meninos
conversando:
— A carroça
tá muito cheia hoje.
— Quando tá
assim, vou devagar pra não ter problema.
— E seu pai
deixa você guiar?
— Claro.
Ele deixa, véi. Bala demais. Sei levar.
— É meu
sonho!
— Você
nunca guiou sozinho?
— Porra,
meu pai deixa não. Tem medo dos carros.
— É porque
você ainda não tá preparado. Eu já tô.
O sonho
ralo do mais novo e a "tirada de onda" do mais velho — provando que
crianças, na essência, são todas iguais — deixaram-me em choque. Ao entrar no
carro, minha mulher perguntou:
— O que
foi?
— Nada, só
uma conversa que ouvi.
— Conversa
de quem?
— Era ninguém
não. Só um garoto do papelão.
“Em tempos de engano universal, falar a verdade torna-se um ato revolucionário.”
A máxima de George
Orwell serve como bússola para esta nova etapa da Tribuna Feirense. Falo com a
honestidade de quem reconhece que este projeto nasce de uma vontade pessoal,
mas que busca validar-se ao encontrar o interesse público.
Quando nos
associamos à Tribuna Feirense, idealizada pelo brilhante jornalista Valdomiro
Silva, tínhamos algo claro: criar um veículo onde o compromisso com a verdade
fosse inegociável. Sabemos que o erro é uma possibilidade, especialmente ao
analisarmos o tempo em que vivemos, sem o devido distanciamento histórico; mas
a má-fé nunca fez parte deste veículo. Em uma era onde a desconfiança é a
sequela de tanta desinformação, queríamos ser um porto seguro para o leitor
feirense.
Ao longo dos anos,
a Tribuna cumpriu seu papel, defendendo o interesse coletivo. E, com a Tribuna
Cultural, fizemos repercutir a cultura feirense em edições exemplares. Com as
mudanças contemporâneas e a pandemia, enfrentamos reveses naturais. Como nunca
foi um projeto estritamente financeiro — admito minha escassa habilidade para
vendas —, suspendemos a edição impressa, mantendo o site.
Entretanto, movido
pelo pensamento de Padre Vieira — “nós só existimos quando fazemos; quando não
fazemos, apenas passamos” — após lutos e
doenças familiares e diante de tempos tão difíceis, senti que era necessário
ampliar nosso trabalho.
Reunimos um time de
excelente qualidade para esta jornada. Contamos com a categoria e a integridade
de Valdomiro Silva; a agudeza econômica e cotidiana de André Pomponet; o
brilhantismo histórico e cultural do professor Wellington Freire (uma
descoberta primorosa); a elegância de Emanuela em nossa coluna social; o texto
rebuscado de Isis Moraes sobre a nossa cultura; e a charge incomparável de
Borega. Na retaguarda, Valmar Silva garante a nossa operação funcional. Eu
continuo por aqui, “batucando” minhas impressões, ainda que sem o “borogodó”
dos demais.
Temos diretrizes
que norteiam nosso trabalho: a defesa da democracia; a liberdade de opinião,
religiosa e de imprensa; o respeito ao Estado de Direito sem ativismos; o apoio
a uma educação direcionada à formação dos saberes, sem comprometimentos
ideológicos ou de pautas direcionadas; a defesa da ética, do bem comum e dos
valores familiares; o empenho pela conservação do meio ambiente e do patrimônio
histórico; a defesa intransigente da cultura; o combate à corrupção e a busca
por uma máquina pública profissionalizada e enxuta; a cobrança pela eficiência
dos serviços públicos; os limites ao poder do Estado; e a busca permanente por
justiça social.
A Tribuna Feirense
que entregamos é um espaço de opinião livre, sem amarras partidárias, sem
projetos de poder, sem senhores. Nosso único desejo é exercer o direito de
participar dos destinos de nossa cidade — “se queres ser universal, começa por pintar
a tua aldeia”, ensinava Tolstói —, dando voz ao que é justo e correto.
Convidamos você a
nos ajudar a manter a independência e a viabilidade deste projeto. Divulgue,
anuncie, colabore, compartilhe. Contra a enxurrada de notícias falsas e
algoritmos manipuladores, oferecemos uma especiaria: o compromisso com a
verdade.
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