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  • Feira de Santana, sábado, 14 de fevereiro de 2026

César Oliveira

O garoto do papelão da Marechal Deodoro

César Oliveira - 14 de Fevereiro de 2026 | 08h 53
O garoto do papelão da Marechal Deodoro
Foto: O Popular

A Marechal Deodoro é uma daquelas artérias comerciais que, ao cair da noite, oferecem a sobrevivência aos miseráveis, em meio ao fluxo de carros e à gente que supõe estar vencendo na vida. Muitos caminham tensos, sob o estado de vigilância e medo permanente que o escurecer impõe às cidades — metrópoles que fingem modernidade enquanto submergem na própria barbárie. Mais tarde, em seus extremos, flores amorfas — travestis e prostitutas — brotarão para disputar o asfalto; afinal, à noite todos os gatos são pardos e a vida sexual não conhece lei.

Antes que essa hora amarga chegue, os fantasmas das ruas já vasculham sacos de lixo em busca de sobras. Coletores de latas arrastam fardos de linhagem, e catadores de papelão começam a recolher os restos das mercadorias do dia. Sob uma iluminação baça e soturna, o ambiente se torna denso. Alguns utilizam carroças puxadas por cavalos esquálidos, entulhando o material em grandes sacos sobre a carroceria. Algumas seguem estacionadas; em outras, o condutor guia enquanto o ajudante apanha os descartes, em busca de otimizar a produtividade.

Não ocorre apenas naquela rua. Na avenida que volto para casa, observo pai e filho repetindo a mesma rotina. Às vezes o veículo para o menino recolhe uma caixa na calçada e a entrega ao pai. É o legado sendo transmitido: o ensino do ofício feito de migalhas e restos. Não sei se o homem reflete sobre isso, se lamenta a ausência de perspectivas ou se, por outro lado, sente-se afortunado por possuir uma carroça enquanto tantos outros empurram galeotas. O garoto veste a camisa de um time — sempre a mesma — e não demonstra alegria nem tristeza. Apenas cata, dobra, entrega e segue. Pai e filho, refugos que perderam a vida para o meio.

Há poucos dias, enquanto estava junto ao meu carro estacionado na Marechal, ouvi dois meninos conversando:

— A carroça tá muito cheia hoje.

— Quando tá assim, vou devagar pra não ter problema.

— E seu pai deixa você guiar?

— Claro. Ele deixa, véi. Bala demais. Sei levar.

— É meu sonho!

— Você nunca guiou sozinho?

— Porra, meu pai deixa não. Tem medo dos carros.

— É porque você ainda não tá preparado. Eu já tô.

O sonho ralo do mais novo e a "tirada de onda" do mais velho — provando que crianças, na essência, são todas iguais — deixaram-me em choque. Ao entrar no carro, minha mulher perguntou:

— O que foi?

— Nada, só uma conversa que ouvi.

— Conversa de quem?

— Era ninguém não. Só um garoto do papelão.



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