O Brasil viveu uma semana em que as barbáries expuseram suas entranhas da forma mais cruel. Em um extremo a memória nacional foi debelada pelo fogo que consumiu o Museu Nacional, gerido de forma incompetente, irresponsável, e indecente, pela Reitoria da UFRJ. O nível do descaso beira a intenção criminosa. E torna evidente que as cinzas e as sobras não podem ser mais geridas, de modo algum, pelos cúmplices morais da tragédia que aparelham a instituição.
No outro extremo a barbárie manifestou-se no atentado a faca ao candidato Bolsonaro, líder nas pesquisas. Lula, não pode ser considerado, pois, não é candidato por estar preso e condenado, em Curitiba, por ter comandado o maior projeto de corrupção de toda história do país. O país foi à loucura nas redes com gente comemorando e outros declarando bestialidades como a que diz que “quem planta colhe”, o que corresponde a validar a mesma ação que diz combater no capitão. Além disso, 47% das interações no twitter correspondiam a dúvidas quanto ao atentado, apesar de todos os relatos médicos.
A ferro e fogo, na história, se forjavam nações e o futuro. Aqui, se retrata a miséria administrativa, o descaso histórico, as agressões à democracia e a rasura da compreensão humana.
É preciso que fique claro que a resposta ao radicalismo, na democracia, é mais democracia e, não, mais radicalismo. Assim, por mais comprometimento moral, ideológico, financeiro, ou oportunista, que alguém tenha, é preciso que se seja claro: Bolsonaro e família merecem toda solidariedade, como humano; e a agressão, merece implacável condenação.
Dito isso, esclareço que só um estado de turvação mental, ou desespero de interesse, pode levar a comentários postados nas redes sociais e bancas de jornalismo.
De um lado, gente achando que a situação poderia ser um atentado fake - como se uma situação daquelas pudesse ser controlada- baseado no fato que o pano que recobria o candidato estava branco, e o sangramento não se desse para dentro da cavidade, e não para fora; ou porque a equipe de preparação estava sem luva, o que comporiam indícios bastantes para a conclusão da falsidade. Inacreditavelmente, até Noblat, do site mais conhecido, do país, questionou a PF porque não havia sangue na foto da faca, que entrou e saiu em segundos e cortou um vaso interno. É de espantar.
Do outro lado, gente apelando a teorias conspiratórias e construindo um atentado montado por adversários, sem nenhuma evidência até o momento, até porque Bolsonaro era o adversário ideal para todos, no segundo turno, como mostram as pesquisas. Por mais detestável que seja o PSOL, o fato do agressor ter sido filiado ao partido, não nos permite, ainda, agregar culpa ao partido. Até agora, temos um fanático religioso, confuso (seja de forma verdadeira ou intencional, para disfarçar) com uma atividade política autônoma, ainda que tenha afinidades esquerdistas.
Goste-se ou não da agenda de Lula, Bolsonaro, Boulos, Amoedo, ou qualquer outro, é preciso que seja absolutamente garantido o direito de cada um expor suas ideias, logo, Bolsonaro é vítima e não culpado, por mais que seu discurso pregue violência. Do mesmo modo que uma mulher não pode ser acusada de culpada pelo assédio porque usou uma saia curta.
Não existe ética de circunstâncias, tampouco escrevo para agradar a opinião de um, ou outro, lado. A democracia não tem meio termo, e nosso compromisso deve ser com a verdade.
O conheci quando voltei da Residência Médica e fui dar meus primeiros plantões na CLIMEC, em Conceição do Jacuípe ( Berimbau), em 1989. Dr Raimundo Nonato. Nonato era dos bons. Apaixonado por sua atividade médica, consciente do seu bom ofício, foi fundamental ao começo e cuidado de muitas vidas, na região. Casado com a delicada Terezinha, pediatra, uma espécie de tampa e balaio, metade acertada da laranja. Gostava da cidade, católico ardoroso, sem o fanatismo da fé. Foi bom amigo, desses confiáveis, bom pai, marido exemplar. E cidadão, desses que o mundo fica mais afetivo com sua existência.
Durante muitos desses últimos anos, que o mundo dá voltas, foi meu paciente. Nessa última segunda, à noite, o visitei na UTI e conversamos um pouco. Acho que fui a derradeira pessoa conhecida que falou com ele. Na madrugada, aos 91 anos, ele faleceu. Foi uma morte tranquila, sem intervenções ou dores excessivas, como desejava. E foi lúcido até o fim.
A vida foi cumprida. Vá em paz, bom Raimundo.
O ataque a Bolsonaro é um momento dramático de nossa democracia. É preciso muito senso, equilíbrio, para evitar comentários que beiram a sarjeta moral - justificando o ato, ou comemorando-, assim como evitar manipulação oportunista.
O único consenso é que SOB HIPÓTESE ALGUMA podemos aceitar que um candidato, seja ele qual for, dos atuais, seja vítima de um atentado durante campanha política
Um dos mais longevos corruptos nacionais, o deputado Paulo Maluf, teve seu mandato cassado, aos 86 anos. É o fim de uma era. A lista de acusações contra o caricato Maluf é quilométirca, tanto quanto sua popularidade, provando que não é de hoje que criminosos podem cair no gosto popular e se manter, longevamente, no poder.
Cassar Maluf, aos 86 anos, é, literalmente, fechar a porta depois de roubado.