O Brasil passa por uma crise sem precedente causada pela bovina tolerância com a corrupção. É um surrealismo tóxico causado por algum alucinógeno desconhecido, porque só assim é possível entender como é que Renan, com nove, eu disse nove, processos no STF preside o Senado. Não é possível acreditar.
Como se não bastasse Renan, Cunha, Paulo Maluf, condenado pela justiça da Suíça a três anos de cadeia e procurado pela Interpol em 100 países, está na Comissão que vai julgar o impeachment. É surrealismo alucinógeno. Não dá para acreditar.
O número de citações a Aécio Neves, entre delatores, já ultrapassa o limite do acaso e exige que o MP abra uma investigação. Não poderá ser eterno este fingir que nada foi dito, ou que não foi citado, antes que fique vergonhoso o partidarismo judicial.
É estarrecedor que a Presidente da República pratique obstrução judicial para proteger Lula. Não lhe cabe, não lhe é permitido. Não se pode tornar o Brasil uma terra sem lei.
A dissonância cognitiva, mais que a capacidade de análise é que faz com que muitos pratiquem o relativismo moral que vivemos, para não abrir mão do idealismo juvenil ou do oportunismo adulto.
A dissonância mostra que reconhecer o fracasso de um projeto ou ideia, causa sofrimento mental. Assim, preferem evitar a ferida mortal de aceitar a falha, preferindo culpar terceiros ou permanecer no discurso da negação.
É desta forma que aceitam os 10 milhões de desempregados, as 100 mil lojas fechadas, o recuo da indústria em uma década, a inflação de dois dígitos, a recessão (PIB negativo) por inéditos três anos seguidos, os 40 ministérios barganhados (latifúndio improdutivo), o aparelhamento incompetente da máquina pública, a tentativa de quebrar moralmente a sociedade, o abandono do mérito.
Da mesma forma que tapam o nariz para os mais de 20 ministros caídos por corrupção, dois tesoureiros do partido presos, dois publicitários e dois ex-presidentes presos, além de deputados condenados, um senador preso em pleno mandato, empreiteiros e funcionários já julgados e condenados pelos negócios escusos com o governo.
Toleram o saque voraz à Petrobrás e aos fundos de pensão. Engolem calados o “petrolão” e o “mensalão” praticado pela “sofisticada quadrilha” no dizer do Procurador Geral ou pelos que queriam” solapar a democracia” ao comprar sistematicamente o Congresso Nacional, no dizer do decano Celso de Mello, do STF.
Comungam com o fracasso da saúde, da educação, do combate à violência e às drogas, enquanto desmerecem uma babá que trabalha. Ou vibram com estádios construídos em conluio com os empreiteiros presos que repassam palestras falsas, doam cozinhas e elevadores privativos em sítios e tríplex sem donos.
São obrigados a negar a lei gritando “perseguição” ou “peguem o outro ladrão, que não inventei a corrupção” ao invés de alegar inocência, ou negar os fatos gravados, delatados, ou os recursos recuperados.
Toleram que um investigado seja nomeado ministro claramente para obstruir a Justiça. Reclamam do vazamento de áudios, como se fosse mais importante que os fatos.
Acusam ministros do STF de partidários, mas só os que não comungam com sua cartilha, esquecendo os ex-funcionários. Vivem do ressentimento e sequer assumem o estelionato eleitoral, enquanto defendem uma política externa abjeta e criminosa como a bolivariana.
É gente que tolera que se chame pejorativamente de “coxinha” aqueles que são, hoje, a maioria da Sociedade, mas se indigna ferozmente com o “mortadela”.
Enquanto os brasileiros querem que o país seja passado a limpo, pouco importando a filiação dos presos, praticam a indignação seletiva, com a superioridade moral e intelectual dos que têm lado: o lado cúmplice.