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César Oliveira

Nunca mais seremos os mesmos

César Oliveira - 14 de Abril de 2020 | 09h 11
Nunca mais seremos os mesmos
Foto: Paolo Miranda, enfermeiro na Itália

Nunca mais seremos os mesmos, nem sequer do que ainda não fomos. No futuro olharemos para o mundo antes da pandemia e depois da pandemia. Antes e depois do grande medo, da grande agonia. Mudaremos a economia, a geopolítica do poder, a estratégia de produção, e viveremos em permanente estado de alerta que garanta não haver uma nova calamidade sanitária.

Lembraremos sempre que vivemos a distância obrigatória, as máscaras que tentam fazer com que não respiremos o mesmo ar do outro, e sofremos o isolamento e a dor da morte sem a liturgia da despedida ou testemunho familiar, impostas por um vírus que não escolhe sexo, condição social, cor, nem costuma perdoar nem mesmo os que lhe enfrentam nos hospitais. Fomos contemporâneos da doença que esvaziou as ruas e até as catedrais, e que tornou cada um, ameaça e vítima, em uma simbiose estranha e avassaladora, que abate e exige a esperança da ciência para evitar o desespero.

Também, nós, que viemos do grande século XX - talvez o maior século de todos os tempos-, que desfrutamos da maior expectativa de vida e uma capacidade de deslocamento assombrosa, mudaremos. Seremos navegadores ao avesso, indo cada vez menos distante. E com os sobreviventes estaremos, só agora, inaugurando o século XXI.

No feriado, penso em meus filhos que estão em outra cidade, estudando, sem que eu possa vê-los, sem ter certeza do nosso reencontro, afinal, sou grupo de risco, sou médico e a sensação de imunidade é mais uma esperança que uma certeza da ciência. Não devia, mas relembro todos os momentos de nosso último encontro, buscando guardá-los como a última bolacha do pacote antes do desabastecimento. Apenas oro, e confio, que em uma emergência saberão cuidar um do outro.

Quando toda devastação passar- ela vai passar-, direi aos filhos que o mundo como viveram até aqui e para o qual se prepararam deu um salto triplo carpado e mudou de direção. Aquela era sem assombros, e a agenda sem fim de eventos, acabaram , e o mundo irá se converter em abraços mínimos, viagens seguras, interações menores e, em algum lugar no coração dos povos, um receio do amanhã.

Pela primeira vez foram chamados de suas histórias de vida como centro do mundo, para a história do mundo, como centro de suas histórias de vida e guardarão suas memórias, cenas, e conseqüências. Não me acho superior a eles. A herança deles é minha também, afinal, a vida acaba de dizer a todos que nada é certeza.

Não seremos mais o que éramos, e o que seriamos morrerá, para que nos tornemos o outro que ainda não somos, nesse futuro.

Cabe, com a segunda chance, fazermos melhor.



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