Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • (75) 9707-1234
  • Feira de Santana, sbado, 14 de fevereiro de 2026

Wellington Freire

Ecos de 1914: a persistência das guerras que não terminam

Wellington Freire - 13 de Fevereiro de 2026 | 15h 36
Ecos de 1914: a persistência das guerras que não terminam
Foto: AlexanFoto: Alexander Nemenov/Getty Images

O envio do porta-aviões USS Gerald R. Ford ao entorno do Irã, enquanto a ajuda direta americana à Ucrânia é drasticamente reduzida, não constitui mera coincidência conjuntural. Trata-se de um mesmo movimento estratégico observado a partir de dois teatros distintos. A chave interpretativa não está na soma dos episódios, mas na leitura sistêmica: contenção simultânea da Rússia e do Irã, sinalização indireta à China e gestão calculada dos limites materiais do poder americano.

A tradição estratégica dos Estados Unidos sempre oscilou entre a concentração decisiva de forças e a dispersão preventiva. Durante a Guerra Fria, a contenção de George Kennan operava sobre o pressuposto de que o tempo favoreceria o bloco ocidental. Hoje, a lógica parece invertida: Washington busca impedir que seus adversários consolidem ganhos regionais enquanto redistribui os custos da ordem. No Leste Europeu, transfere a conta à Europa; no Oriente Médio, reafirma a presença naval como instrumento de coerção.

A simultaneidade dos movimentos é reveladora. A pressão sobre Moscou continua, mas sem o protagonismo financeiro anterior. Ao mesmo tempo, a demonstração de força contra Teerã cria uma arquitetura de dissuasão que dialoga com Pequim. O cálculo é duplo: manter o equilíbrio na Eurásia sem deslocar integralmente o eixo estratégico para o Indo-Pacífico. Não é coincidência que, dos 11 grupos de porta-aviões americanos, apenas quatro estejam no mar, um dado que revela não apenas prudência operacional, mas limite estrutural.

Aqui emerge a pertinência da tese de Paul Kennedy sobre a “sobre-extensão imperial”. Em Ascensão e Queda das Grandes Potências, Kennedy advertia que impérios declinam quando compromissos estratégicos superam capacidades econômicas. A história militar oferece paralelos eloquentes: a Espanha dos Habsburgos sustentando guerras simultâneas em Flandres e no Mediterrâneo; a Grã-Bretanha do início do século XX administrando o peso de sua marinha global; a Alemanha hitlerista abrindo frentes demais antes de consolidar vitórias decisivas. Em todos os casos, a geografia do poder superou sua base material.

Os Estados Unidos parecem conscientes desse risco. Em vez de ampliar frentes, procuram modular custos. O conflito ucraniano ilustra essa transição. Se, nos três primeiros anos de guerra, Washington rivalizou com os europeus no volume de assistência militar, a inflexão recente indica mudança de paradigma: manter influência sem arcar com a maior parte da despesa. A guerra torna-se, assim, progressivamente financeirizada. Países europeus compram armamentos americanos para repassá-los a Kiev, convertendo solidariedade estratégica em fluxo industrial transatlântico.

No Oriente Médio, a lógica é distinta, mas complementar. O Irã aposta na dissuasão indireta, milícias, drones, pressão assimétrica, e no desgaste político do adversário. Trata-se de uma estratégia antiga: evitar o confronto frontal e prolongar o tempo até que o custo político da coerção se torne insustentável. A Rússia, por sua vez, joga no cansaço europeu, confiando que a fadiga econômica e social corroa o consenso ocidental. Em ambos os casos, o tempo é arma estratégica.

A pergunta que se impõe é se ingressamos numa era de guerras prolongadas nas quais a vitória tática importa menos que a sustentabilidade econômica. Clausewitz via a guerra como continuação da política por outros meios; no século XXI, ela pode estar se convertendo em continuação da economia por meios armados. O objetivo deixa de ser a capitulação do inimigo e passa a ser sua exaustão fiscal e psicológica.

A experiência histórica sugere cautela. Guerras longas tendem a produzir efeitos imprevistos: radicalização interna, rupturas de alianças, inovação tecnológica acelerada. A Primeira Guerra Mundial começou sob expectativas de campanha breve; tornou-se laboratório de desgaste industrial. A Guerra Fria, concebida como confronto ideológico, transformou-se em disputa econômica sistêmica. O padrão recorrente é claro: quando a guerra se prolonga, ela redefine a própria ordem que buscava preservar.

No presente, a contenção simultânea na Eurásia e a redistribuição de custos indicam que Washington tenta evitar o destino clássico da sobre-extensão. Mas o equilíbrio é delicado. Se a Europa não sustentar o esforço ucraniano, Moscou colherá dividendos estratégicos. Se a coerção naval no Golfo Pérsico escalar, os custos militares podem crescer rapidamente. E se a China interpretar a dispersão americana como oportunidade, o cálculo global se alterará.

Entre Teerã e Kiev, desenha-se um mesmo dilema: como manter a primazia sem assumir integralmente seu preço? A hegemonia contemporânea já não se mede apenas em divisões ou tonelagem naval, mas na capacidade de financiar conflitos prolongados sem comprometer a própria coesão interna. Se a história militar ensina algo, é que o poder não declina apenas por derrota, declina quando a equação entre ambição e recursos deixa de fechar.

Nessa sequência de artigos que tenho publicado neste órgão informativo, apenas esboço temas. A quem deseja um aprofundamento seguem duas obras fundamentais: CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2010; KENNEDY, Paul. Ascensão e Queda das Grandes Potências. Campinas: Campus Editora, 1998.



Wellington Freire LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

charge do Borega

As mais lidas hoje