A Marechal
Deodoro é uma daquelas artérias comerciais que, ao cair da noite, oferecem a
sobrevivência aos miseráveis, em meio ao fluxo de carros e à gente que supõe
estar vencendo na vida. Muitos caminham tensos, sob o estado de vigilância e
medo permanente que o escurecer impõe às cidades — metrópoles que fingem
modernidade enquanto submergem na própria barbárie. Mais tarde, em seus
extremos, flores amorfas — travestis e prostitutas — brotarão para disputar o
asfalto; afinal, à noite todos os gatos são pardos e a vida sexual não conhece
lei.
Antes que
essa hora amarga chegue, os fantasmas das ruas já vasculham sacos de lixo em
busca de sobras. Coletores de latas arrastam fardos de linhagem, e catadores
de papelão começam a recolher os restos das mercadorias do dia. Sob uma iluminação
baça e soturna, o ambiente se torna denso. Alguns utilizam carroças puxadas por
cavalos esquálidos, entulhando o material em grandes sacos sobre a carroceria.
Algumas seguem estacionadas; em outras, o condutor guia enquanto o ajudante
apanha os descartes, em busca de otimizar a produtividade.
Não ocorre
apenas naquela rua. Na avenida que volto para casa, observo pai e filho
repetindo a mesma rotina. Às vezes o veÃculo para o menino recolhe uma caixa na
calçada e a entrega ao pai. É o legado sendo transmitido: o ensino do ofÃcio
feito de migalhas e restos. Não sei se o homem reflete sobre isso, se lamenta a
ausência de perspectivas ou se, por outro lado, sente-se afortunado por possuir
uma carroça enquanto tantos outros empurram galeotas. O garoto veste a camisa
de um time — sempre a mesma — e não demonstra alegria nem tristeza. Apenas
cata, dobra, entrega e segue. Pai e filho, refugos que perderam a vida para o
meio.
Há poucos
dias, enquanto estava junto ao meu carro estacionado na Marechal, ouvi dois meninos
conversando:
— A carroça
tá muito cheia hoje.
— Quando tá
assim, vou devagar pra não ter problema.
— E seu pai
deixa você guiar?
— Claro.
Ele deixa, véi. Bala demais. Sei levar.
— É meu
sonho!
— Você
nunca guiou sozinho?
— Porra,
meu pai deixa não. Tem medo dos carros.
— É porque
você ainda não tá preparado. Eu já tô.
O sonho
ralo do mais novo e a "tirada de onda" do mais velho — provando que
crianças, na essência, são todas iguais — deixaram-me em choque. Ao entrar no
carro, minha mulher perguntou:
— O que
foi?
— Nada, só
uma conversa que ouvi.
— Conversa
de quem?
— Era ninguém
não. Só um garoto do papelão.