Há um momento, em toda guerra, em que o problema deixa de ser militar e passa a ser conceitual. Não se trata mais de vencer batalhas, destruir capacidades ou ocupar posições, mas de responder a uma pergunta mais incômoda: o que significa, afinal, vencer? É precisamente nesse ponto que o discurso de Donald Trump, pronunciado ontem a noite, revela sua fragilidade mais profunda.
A afirmação de que os “objetivos estratégicos centrais” estão “quase concluídos” convive, sem constrangimento, com a continuidade das operações, com a intensificação dos ataques e com a ausência de qualquer horizonte claro de encerramento. Trata-se de uma contradição que não é meramente retórica é estrutural. Pois uma guerra cujos objetivos já foram atingidos não deveria persistir; e uma guerra que persiste, por definição, ainda não atingiu seus objetivos.O que falta, portanto, não é poder militar, mas definição.
A história das guerras modernas está repleta de exemplos em que a clareza inicial dos propósitos se dissolve à medida que o conflito se prolonga. O objetivo limitado transforma-se em ambição difusa; a missão concreta cede lugar a uma sequência de justificativas mutáveis. O resultado é uma forma peculiar de guerra: não aquela que se dirige a um fim, mas aquela que se sustenta por inércia. O comando já não conduz, apenas reage.
É nesse sentido que o discurso presidencial se torna revelador. Ao evitar qualquer critério verificável de vitória, seja ele a neutralização completa das capacidades iranianas, a mudança de regime, a reabertura do Estreito de Hormuz ou a imposição de um acordo político, o comando abdica daquilo que constitui o núcleo da arte da guerra: a determinação do fim. Sem fim definido, não há medida possível do sucesso; sem medida, toda declaração de vitória torna-se um ato de vontade, não de constatação. O que emerge, então, é uma guerra que já não pode ser ganha, apenas prolongada. E é precisamente nesse vazio conceitual que a linguagem passa a desempenhar um papel substitutivo.
Se a estratégia fornece direção, a retórica, em sua forma degenerada, oferece apenas compensação. Quando o discurso de Donald Trump insiste em fórmulas reiteradas e vazias, “estamos quase lá”, “será rápido”, “os objetivos estão praticamente alcançados”, não está descrevendo o estado da guerra; está tentando produzi-lo simbolicamente. A repetição, aqui, não é ênfase é sintoma de ausência de clareza e de má condução estratégica.
Em contextos de clareza estratégica, a linguagem tende à precisão: define metas, delimita prazos, estabelece condições. No caso presente, observa-se o inverso: uma proliferação de enunciados vagos, intercambiáveis, desprovidos de conteúdo operacional. Não se especifica o que resta a ser feito, nem como será feito, nem por quem. O discurso, em vez de iluminar a ação, obscurece-a.Mais do que isso: ele a substitui.
A promessa de levar o inimigo “de volta à Idade da Pedra”, por exemplo, não constitui uma diretriz militar, é uma imagem; aliás uma imagem já usada na Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra do Vietnan. E como toda imagem dessa natureza, pertence menos ao campo da estratégia do que ao da imaginação política. Sua função não é orientar tropas, mas produzir efeitos: intimidar o adversário, mobilizar a opinião pública, mascarar a ausência de um plano coerente. Há, portanto, uma inversão decisiva: a linguagem deixa de ser instrumento da estratégia para tornar-se seu sucedâneo.
Essa substituição, contudo, tem limites. A realidade da guerra, feita de resistência inimiga, de constrangimentos geográficos, de impactos econômicos, não se deixa reorganizar por enunciados. O fechamento do Estreito de Hormuz, com suas repercussões imediatas sobre os mercados globais, constitui um lembrete eloquente de que há uma materialidade que escapa à retórica. Pode-se declarar que o problema é irrelevante; o preço do petróleo, contudo, responde de outro modo. Nesse descompasso entre palavra e realidade, instala-se o verdadeiro risco.
Porque uma guerra conduzida sem definição de vitória e sustentada por linguagem substitutiva tende a perder não apenas sua direção, mas também sua credibilidade. E quando o discurso já não convence, nem o inimigo, nem os aliados, nem a própria população, o comando vê-se reduzido àquilo que talvez seja a mais precária das posições: a de um poder que fala muito, mas já não consegue determinar o curso dos acontecimentos.
No limite, é isso que o pronunciamento revela: não a iminência de uma vitória, mas a dificuldade crescente de nomeá-la.