Um dos autores clássicos da literatura universal, o escritor francês Émile Zola escreveu um livro que batizou, singelamente, como “L’Argent”: O Dinheiro. A obra, ambientada no Segundo Império Francês, foi escrita em 1891 e enfocou alguns dos temas mais recorrentes da sociedade capitalista: a especulação financeira, a ganância, a sede pelo lucro e seus catastróficos desdobramentos sobre os seres humanos. Li-a recentemente e, espantado, constatei que, provavelmente, a obra hoje é muito mais atual que na época em que foi escrita.
O romance começa com Saccard – um fracassado especulador da Bolsa de Paris – ruminando planos para reerguer-se, fundando um novo banco, retomando a vida faustosa do passado e vingando-se dos agentes do mercado financeiro que, naquele momento, desdenhavam-no como derrotado.
Adiante, sua ambição encontra terreno fértil numa parceria com o casal de irmãos Hamelin. A partir daí – com tensa dramaticidade – desenrola-se o clássico roteiro da especulação bancária, com dinheiro gerando dinheiro a partir do amálgama de ilusões coletivas. No fim descobre-se – mais uma vez – que os “castelos no ar” financeiros sempre se desfazem, com consequências trágicas.
Quem lê, a esta altura, talvez se pergunte se pretendo enveredar pela crítica literária. Longe disso, navego só na raia de quem aprecia a literatura. Mas, a partir da leitura de “O Dinheiro”, não deixo de reconhecer, na obra, a magistral reprodução da dinâmica que, quase sempre, se observa nos ciclos de especulação financeira. Inclusive no Brasil recente, com bancos fraudulentos aqui e alhures.
A descrição da lógica das crises financeiras é mister do economista, dirá alguém, com razão. Mas o grande mérito de “O Dinheiro” não está aí: está justamente na capacidade de Zola de apreender a psique do especulador, seja ele o banqueiro, o fidalgo, o corretor da bolsa, o contínuo, a realeza arruinada ou a gente empobrecida da província.
Engolfado pela espiral do ganho ilimitado, o apostador – categoria diferente do investidor – não se contenta com os ganhos iniciais, mergulhando com destemor na especulação que, adiante, o conduzirá à ruína. Avareza, ganância, credulidade, ingenuidade e irracionalidade se sucedem numa alternância vertiginosa, expondo e destrinchando sentimentos para o leitor.
Lendo-o, entende-se a psique dos brasileiros que, iludidos, mergulham nas pirâmides financeiras que se sucedem há anos, nas rentabilidades elevadíssimas de produtos financeiros imaginários, nas generosas remunerações de títulos; depois, invariavelmente, aparecem nas telas de tevê, relatando fraudes, expondo sua vexatória situação financeira.
Na vida, nem sempre há algo de novo sob o sol. Nas finanças, então, nem se fala. Antiquíssimos golpes aplicados por astutos especuladores ganham ar de novidade nas manchetes mas, quase sempre, usam as mesmas patranhas que, no passado, engambelaram outros papalvos.
Novas tecnologias, hoje, revestem antigas manobras com ar de novidade. Mas são os mesmos ardis, reaplicados graças ao impulso que move incautos e ingênuos de antes e de agora: a ganância misturada à fé de que é possível ganhar muito esforçando-se pouco...