A palavra nauseabundo tem
origem no latim nauseabundus, mas, seja no idioma de Cícero ou no
português, a sensação é a mesma: repulsa
diante do desprezível. É isso que o brasileiro sente — ao menos aquele que arca
com as contas; não o que usufrui das benesses — diante da impunidade e da
corrupção que corrói o país.
O Supremo Tribunal Federal
(STF) tem extrapolado todos os limites da tolerância. As suspeitas de
promiscuidade com mafiosos do sistema financeiro causam irritação profunda no
cidadão. Pesquisas de opinião escancaram a rejeição e a desconfiança em relação
à Corte, mas, em vez de mea-culpa, o que vemos é a soberba do poder.
Os fatos são alarmantes: o escandaloso
contrato de R$ 129 milhões do Banco Master com a esposa de Alexandre de Moraes,
viagens em jatinhos, encontros, tornam a permanência no cargo incompatível com os princípios morais de
qualquer república que ao menos finja ser séria. O caso do Ministro Dias
Toffoli e o resort em que os irmãos eram sócios — com revelações recentes de
repasses da JBS a compradores da referida propriedade — retiram do magistrado a
legitimidade para arbitrar até uma partida de "porrinha", quanto mais
a guarda da Constituição.
Já o Ministro Gilmar Mendes, em
sua onipresença midiática, desfilou apenas nesta semana argumentos inconsistentes
em defesa do STF, carregados de preconceitos homofóbicos e ataques ao
regionalismo mineiro. Gilmar atua como um "feitor de platitudes",
emitindo declarações de profundidade centimétrica com o ar de quem profere
verdades abismais. Enquanto isso, o inquérito das Fake News —
transformado em instrumento de perseguição e censura — segue seu curso
indefinido. Como o ministro declarou, com arrogância imperial: "vai
acabar quando terminar".
As violações ao devido
processo legal tornaram-se a única unanimidade entre juristas
independentes. O mesmo STF que ameaça cassar senador pelo exercício da opinião
no mandato ou perseguir ex-governador por bonecos satíricos, atua para limitar
investigações da PF e de CPIs e resiste a um proposto Código de Ética.
A Justiça assiste, inerte ou
cúmplice- com a passividade nociva do PGR e do Congresso-, a impunidade que
grassa no país. No Brasil, condenados a 400 anos de prisão, como Cabral, degustam
uísque na piscina; figuras detidas com malas de dinheiro em apartamentos
tornam-se conselheiros políticos influentes; e, em Brasília, o banco estatal (BRB),
que tem o aval do governador Ibaneis Rocha é sacudido pelo estupro financeiro causado
pelo Banco Master.
É evidente que, se no topo a lei
é facultativa, na periferia do poder o avanço sobre os cofres públicos torna-se
regra. O país é sangrado por "penduricalhos", privilégios e emendas Pix,
que ajudam a nos condenar à miséria e a serviços públicos medíocres. Para
agravar o cenário, paira o risco de o Senado avalizar mais uma indicação servil
de Lula — alguém que, recentemente, pasmem, utilizou o braço da Advocacia-Geral
da União (AGU) para tentar censurar jornalistas e influenciadores.
A situação do brasileiro é de
absoluto desespero. Enquanto o povo luta pela sobrevivência, na sala central do
país, os nauseabundos conspiram contra a nação e a favor da própria impunidade.
Voltava, numa quinta-feira à noite, da reunião semanal na
casa do poeta Antonio Brasileiro, quando percebi o vidro do carro embaçado. Só
ali me dei conta de que Feira, cidade de dois climas, já estava assumindo sua
"outra metade da laranja”.
A primeira metade vai de novembro a março, com corpos que
transpiram reclamações e certa irritação provocada pelo clima de
deserto urbano. É um tempo que deixa no ar uma poeira permanente, capaz de
recobrir, com facilidade, os móveis e os pulmões. A seca castiga as pastagens,
escasseia a comida e aquece as aguadas que, suadas, evaporam. O sol é delicioso
quando se tem os pés na areia do mar, não quando se labuta na rua enquanto ele
esbofeteia a pele, drenando nossa energia vital.
Embora Feira seja uma grande varanda aberta às baforadas do
oceano, a brisa marinha, da capital, só faz efeito nestas bandas ao cair da
noite. Talvez os privilegiados que moram à beira do nosso lago sintam de forma
diferente. É certo que nem sempre a estação — como a vida — apresenta-se tão
bem definida; mas, este ano, as chuvas de março fecharam o verão dentro das
regras, e a cidade, resfriada, já se move em outro ritmo.
Mesmo na casa do poeta o clima mudou. As discussões estão
menos acirradas, e os poemas lidos falam de coisas vãs: nuvenzinhas
inesperadas, passarinhos mensageiros e outros versos de algodão. O mundo segue
incendiário, mas a poesia puxa a rede, e o lirismo do sereno já se
infiltra na alma dos autores. Até Deus deixou de ser debatido; ninguém duvida
d'Ele sob o desamparo do frio.
No Centro, nota-se as pessoas andando devagar, golas mais
altas, saias mais compridas e cabelos soltos — somos todos mais bonitos sob
baixas temperaturas. As cafeterias estão mais cheias; eu mesmo reabri minha
temporada de café esta manhã. Até a pechincha na feira livre já não rende tanta
disputa.
Feira tem esse costume: dias quentes, mas noites em que a
temperatura cai intensamente e o sereno, fino como uma anágua, recobre a
madrugada, os carros e o horizonte. Nossa grande vantagem é que não se trata de
frio excessivo — com as mazelas de tudo que é demasiado —, mas o bastante para
nossa conversão.
Os abraços, observem, já demoram um pouco mais: todo
"fiapo" de corpo é calor na alma. É assim porque o calor é conflito;
o frio é paz. O calor é exuberância; o frio, comedimento. O calor nos tira a
razão; o frio nos entrega de bandeja. O calor é sexo, imposição; o frio é amor,
concessão. O calor é exigência; o frio é desejo. O calor afasta; o frio acolhe.
Pode parecer pouco, mas, nele, nossa alma passa a precisar da
lareira que é o outro — e só isso já é um armistício. Não nego que prefiro esta
temporada. Bebe-se vinho melhor, ama-se com mais pertencimento, e a cidade,
mais leve, enfeita-se para dormir, disfarçando suas feiuras com o "véu de
Santana".
Aliás, tive um motorista, o Moraes, que sempre me dizia: “– Homem
não separa no inverno, não, doutor. Ficar sem uma "costela" nesse
tempo? O senhor não sabe, não?” A Rússia ensinou isso a Napoleão e
seu Moraes, a mim. Despeço-me de vocês repassando o conselho: não se separem no
tempo frio. Pode doer nos ossos!
O colunista Valdomiro Silva expôs, recentemente, a nítida
disparidade entre os investimentos realizados nos aeroportos de Caruaru e de
Feira de Santana. Ao compararmos essas cidades e incluirmos no cenário Campina
Grande — que já possui um aeroporto potente e em pleno funcionamento —, fica
evidente que a falta de viabilização do terminal feirense é uma decisão
meramente política, restando ao cidadão apenas a retórica oficial para
"embalar" sua justa indignação.
Os números não mentem e tornam o cenário ainda mais
gritante. Feira de Santana lidera o grupo com 660 mil habitantes e um PIB
robusto de R$ 17,2 bilhões, polarizando uma área de influência que alcança 80
municípios e 1,53 milhão de pessoas. No entanto, sua pista permanecerá limitada a
1.800 metros. Em contraste, Caruaru, com uma população menor (418 mil
habitantes), um PIB de R$ 10,5 bilhões e uma área de influência de 1,25 milhão
de pessoas, vai contar com uma pista de 2.250 metros. Já Campina Grande, com
425 mil habitantes e PIB de R$ 11,2 bilhões, possui uma pista de 1.600 metros,
mas com largura e resistência (42 metros), maior que os 30 de Feira, que garantem uma operação comercial
consolidada e eficiente.
O argumento técnico frequentemente utilizado para esvaziar os investimentos em Feira — a sua proximidade com a capital — cai por terra quando analisamos os vizinhos. Feira está a 119 km de Salvador, uma distância praticamente idêntica aos 114 km que separam Campina Grande de João Pessoa ou aos 134 km entre Caruaru e Recife. Aliás, Campina Grande está apenas a 197km de Recife. O que se vê em Pernambuco e na Paraíba é uma visão estratégica de descentralização e interiorização do desenvolvimento. Nesses estados, os governos compreenderam que um aeroporto no interior não concorre com a capital, mas sim potencializa a economia regional. Na Bahia, contudo, Feira de Santana parece sofrer um "efeito sombra" deliberado, onde a força logística da "Princesa do Sertão" é preterida em favor da centralização em Salvador.
A manutenção do Aeroporto João Durval em um estado de semiparalisia
é, portanto, uma escolha política que ignora o fato de Feira ser o maior
entroncamento rodoviário do Norte e Nordeste. Enquanto Caruaru e Campina Grande
avançam na atração de executivos e no transporte de cargas de alto valor
agregado, Feira de Santana é forçada a "exportar" sua logística,
perdendo competitividade e consolidando um hiato de desenvolvimento que os
números, por si só, já deveriam ter preenchido. O que falta ao aeroporto de
Feira não é demanda, passageiros ou relevância econômica; falta-lhe a vontade
política que sobrou aos seus vizinhos.
Após
uma entrevista à repórter Renata Lo Prete, da GloboNews — na qual foi
confrontado e demonstrou dificuldade em defender as suspeitas que pesam sobre
integrantes da Corte —, o ministro, Gilmar Mendes, do STF
cometeu um ato falho sintomático ao rebater o ex-governador de Minas Gerais,
Romeu Zema, que tem publicado vídeos satíricos contra os magistrados.
Nitidamente
enraivecido, o ministro declarou: Agora, se começamos a fazer
piadas com coisas sérias, com as instituições… Imagine que nós comecemos a
fazer bonecos do Zema como homossexual. Será que não é ofensivo? O se fizermos
ele roubando dinheiro no estado, será que não é ofensivo? É é correto brincar
com isso? Homens públicos podem fazer isso. Só essa questão. É só isso. É isso
que precisa ser avaliado”," questionou na ocasião.
A
fala foi amplamente criticada como homofóbica e considerada incompatível com o
cargo de um ministro da mais alta corte do país. Após a repercussão negativa,
ele publicou um pedido de desculpas, embora sem deixar de tentar transferir a
responsabilidade. "Errei quando citei a homossexualidade ao me referir ao
que seria uma acusação injuriosa contra o ex-governador Romeu Zema. Desculpo-me
pelo erro", escreveu o ministro em sua conta no X (antigo Twitter).
O
ministro afirmou ainda a existência de uma "indústria da difamação" e
prometeu enfrentá-la. O ministro deveria começar esclarecendo as
relações de ministros do STF com o Master, evitando
desinformação.
"O problema não é você não entender as minhas palavras. O problema é os brasileiros não entenderem os seus atos'.
Romeu Zema