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Saúde

Região Norte terá cirurgias inéditas de redesignação sexual pelo SUS

25 de Agosto de 2024 | 16h 16
Região Norte terá cirurgias inéditas de redesignação sexual pelo SUS
Foto: Ubirajara Barroso Jr/Facebook

Durante a 1ª Jornada Multiprofissional de Cirurgias de Modificações Corporais em Pessoas Trans e Intersexo, organizada pelo Ministério da Saúde (MS) e pelo Hospital Universitário Getúlio Vargas, vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebseh) e à Universidade Federal do Amazonas (HUGV-Ufam), 23 pessoas intersexo e trans passarão pelo processo de redesignação sexual.

O evento clínico ocorrerá em Manaus, no Amazonas, entre a próxima terça-feira (27) e o sábado (31), e reunirá 150 profissionais e acadêmicos, além de capacitar cerca de 150 profissionais do direito, serviço social e da saúde, como médicos, psicólogos, enfermeiros, e fisioterapeutas.

Esta será a primeira vez que esse tipo de procedimento será realizado no Norte do Brasil, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Os organizadores consideram a ação um marco para a região.

Conceição Maria Guedes Crozara, presidente da comissão organizadora, avalia que os impactos do evento serão positivos. “Acreditamos que o evento promoverá desenvolvimento regional, uma vez que o HUGV tem projeto de habilitação das cirurgias que serão realizadas na Jornada, podendo dar seguimento à demanda cirúrgica crescente em nosso Estado, tornando-se o primeiro hospital da Amazônia Ocidental a realizar cirurgias do processo transexualizador”, destaca.

As cirurgias, que atenderão indígenas intersexo e mulheres trans, serão realizadas em três salas simultâneas, por uma equipe de oito cirurgiões urológicos, todos selecionados pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Dentre os pacientes, três são indígenas intersexo.

As pessoas que desejam realizar as cirurgias de conformidade e redesignação sexual, também denominadas de cirurgias do processo transexualizador, aguardam, há muito, por esta oportunidade no SUS.

Em entrevista à Agência Brasil, o urologista Ubirajara Barroso Júnior, chefe do Departamento de Cirurgia Afirmativa de Gênero da SBU e organizador da equipe cirúrgica que atuará durante o evento, disse que o procedimento ainda é restrito, apesar de a demanda ser grande. “Hoje, o acesso a este tipo de cirurgia que envolve a reconstrução genital de pessoas com intersexo e pessoas trans ainda é muito restrito e as filas são enormes. Para intersexo, principalmente, há pouquíssimas pessoas fazendo, porque a visibilidade é muito menor do que as pessoas trans”, observa.

O médico, que é uma referência em cirurgias de redesignação sexual e intersexo, destaca que pacientes intersexo encontram mais dificuldades de acesso. “Essas pessoas ficam no limbo, invisíveis e sem conseguirem atendimento”, constata.

Segundo ele, a Jornada não só dará a oportunidade de realização da operação, mas também promoverá uma assistência de qualidade. “Eu não vejo, no geral, grandes ações para juntar experts e eles irem ao local para fazer uma demanda grande de cirurgias em pessoas que precisam. Então, este é um evento que estamos dando uma assistência de qualidade em um lugar onde as pessoas estão precisando”, garante.

Conforme a Agência Brasil, os três indígenas intersexo serão atendidos pela equipe de Ubirajara Barroso Júnior. Eles passarão por procedimentos para adequação do órgão genital ao sexo biológico.

Tais pacientes, diz o especialista, provém de uma “cultura completamente diferente”. E isto, muitas vezes, provoca problemas, já que a exposição da genitália, desde cedo, é comum entre os indígenas. Por isso, comenta o profissional, a cirurgia é importante, uma vez que, em alguns casos, pacientes com esse tipo de condição podem, até mesmo, ser expulsos de suas tribos.

Pesquisa O evento servirá, ainda, para os médicos coletarem informações acerca da população indígena intersexo, com a finalidade de publicação de um estudo científico pioneiro, que envolverá, também, médicos residentes e alunos de graduação.

“Como foi o reflexo de ter uma genitália atípica com características masculinas e femininas? O que é ter isso dentro de uma tribo indígena. Como foi a infância na tribo? O que sofreram ou não sofreram? Como foi a vivência deles, que são adultos e estão fazendo a cirurgia por decisão própria?” Estes são alguns dos questionamentos que, conforme o urologista, devem ser realizados pelos pesquisadores.

Ubirajara Barroso Júnior salienta que, até o momento, não há informação de quantas pessoas intersexo indígenas vivem no Brasil. “Vou procurar me aprofundar lá, perguntando até para os próprios pacientes, porque, às vezes, isso é familiar. Casos de intersexo têm uma chance maior de serem familiar. É possível que existam outras pessoas que a gente não saiba. Não sei quantos têm. Nasceu mais um, agora, que ainda criança e está sob investigação. Vou avaliar lá”, revela.

O cirurgião acrescenta, ainda, que é mais fácil realizar a cirurgia quando a pessoa ainda é criança. No entanto, destaca ele, há situações em que há dúvida de identidade de gênero. Então, em sua opinião, é melhor esperar a pessoa ter maturidade suficiente para decidir.

Para o urologista, como esses procedimentos ainda não são realizados no Norte do país, é fundamental a capacitação e familiarização das equipes locais nas técnicas estabelecidas e já definidas na tabela do SUS. “A gente vai qualificar um grupo de cirurgiões de lá, para deixar um processo perene, em que as pessoas possam, a partir de então, fazerem as cirurgias. Estamos descentralizando e replicando o conhecimento, nesse que é um procedimento que não é simples de fazer”, ressalta, afirmando que “são poucos os cirurgiões que realizam este tipo de procedimento”, no Brasil.

O QUE DIZ A SBU – Ainda de acordo com a Agência Brasil, durante os quatro dias da Jornada Multiprofissional de Cirurgias de Modificações Corporais, os participantes poderão acompanhar palestras e participar de minicursos direcionados à ampliação do conhecimento e da visibilidade sobre transexualidade e intersexualidade no âmbito do atendimento do serviço público de saúde.

Por meio de nota, o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, Luiz Otávio Torres, defendeu que o Brasil precisa ser preparado para atender essa parcela da população. Em função disso, a entidade vem intensificando, nos seus congressos, os treinamentos cirúrgicos para pessoas trans e intersexo e a educação continuada online, com estudos de caso para os associados.

Ele também advertiu que é urgente que o país esteja preparado e possa atender, com qualidade e acolhimento, as pessoas intersexo e trans. “É nossa missão, enquanto sociedade de especialidade, promover e participar ativamente dessas ações que promovem o conhecimento e a inclusão social”, declarou.

O QUE É IntersexoAntigamente, lembra a Agência Brasil, a pessoa intersexo era conhecida como hermafrodita. Hoje, este termo está em desuso, por carregar um viés pejorativo.

A SBU define intersexo como uma condição biológica e salienta que a mesma atinge entre 0,5 e 1,7% da população mundial, “caracterizando-se por uma inconformidade entre o sexo cromossômico (XX ou XY) e o sexo fenotípico (vagina e pênis)”. Isto significa que “a pessoa pode nascer XY e ter o órgão sexual feminino”.

Na visão de Barroso Júnior, o caso da lutadora argelina Imane Khelif, que participou, recentemente, das Olimpíadas de Paris, é um exemplo de como a sociedade ainda desconhece o intersexo. A atleta sofreu preconceito durante as suas lutas.

Redesignação sexual Conforme a SBU, a redesignação sexual, também chamada de cirurgia genital afirmativa de gênero, é um procedimento que pode ser hormonal e/ou cirúrgico. E tem a finalidade de adequar os órgãos genitais do sexo biológico do indivíduo ao gênero pelo qual o paciente se identifica.

À Agência Brasil, o cirurgião especialista, em termos comparativos, disse que a satisfação de uma pessoa trans após o procedimento é semelhante à de um paciente de transplante renal. “Quando o paciente começa a urinar, se vê uma alegria na família, uma coisa espetacular. Quando se faz uma cirurgia de modificação genital afirmativa de gênero, é transformador na vida da pessoa que tem esse incômodo, essa agonia psicológica com o órgão genital. A demanda existe e é preciso que cada vez mais centros sejam habilitados a fazer”, frisa Ubirajara Barroso Júnior.

A demanda maior por cirurgia, diz o médico, é de mulheres trans. E isto ocorre, sobretudo, por uma questão de desinformação. O urologista exemplificou a portaria do SUS que trata do assunto. “As mulheres trans podem fazer a cirurgia, mas, no caso dos homens, é experimental. Nós fazemos aqui, na nossa Universidade, porque temos projetos de pesquisa, e não recebemos nada por isso. Isso já mostra um distanciamento do homem em relação à cirurgia”, esclarece.

Barroso Júnior é o cirurgião responsável pela primeira operação de redesignação sexual realizada na Bahia, em agosto de 2023, por meio do Sistema Único de Saúde. Ele chefia a Divisão de Cirurgia Urológica Reconstrutora e Urologia Pediátrica do Hospital da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Segundo a Agência Brasil, o especialista tem mais de 200 artigos publicados, mais de 20 capítulos de livros, dois livros editados e um livro co-editado, abordando técnicas cirúrgicas inovadoras e novos tratamentos para reconstrução genital e incontinência urinária, além de ser conferencista nacional e internacional.

Equipes de saúde do interior do país, que não puderem participar do evento presencialmente, poderão acompanhar as atividades por meio de transmissões ao vivo, via canal do HUGV no YouTube.





*Com informações da Agência Brasil.



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