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  • Feira de Santana, sexta, 10 de julho de 2026

César Oliveira

80 anos do biquíni: uma revolução

10 de Julho de 2026 | 08h 16
80 anos do biquíni: uma revolução
Michele Bernadini , primeira mulher a usar biquíni

Contaminados pela loucura bélica do mundo e a performance vexatória da seleção, deixamos de celebrar o aniversário do biquíni neste 5 de julho. São 80 anos  de uma das mais extraordinárias invenções da história do vestuário — a síntese perfeita da arte de produzir o máximo efeito com o mínimo de cobertura.

A humanidade gastou milênios para ir das peles de animais ao terno de três peças, mas poucas décadas bastaram para revelar que a verdadeira revolução consistia em vestir menos. O manifesto do biquíni mudou costumes, enfrentou censores, causou síncopes em moralistas e transformou as praias no mais democrático laboratório de emancipação social — onde a única heresia era a marca de sol torta.

Mudou também a nossa cobiça. Antes concentrada na visão acidental de um tornozelo ela foi ao êxtase com a exposição dos seios intrépidos desenhados no top e no eterno duelo entre a frente e o verso da área genital. O verso foi exposto antes, provando que o flanco traseiro sempre esteve na vanguarda.

A vocação do brasileiro para a nudez encontrou nessa peça sua redenção. Afinal, a modelo e estilista Miriam Etz, refugiada da Alemanha e radicada no Brasil desde 1936, anos depois botou as manguinhas de fora — e a barriga, as pernas e quase todo o resto também. Ela costurou um duas-peças movida por um desejo revolucionário: tomar sol no umbigo. Depois disso, a linha do equador nunca mais foi a mesma.


Entretanto, foi em 1946 que o engenheiro — vejam a matemática da coisa — e estilista Louis Réard lançou, em Paris, o biquíni oficial. Apenas Micheline Bernardini, dançarina do Cassino de Paris, teve a coragem de usá-lo em público. A criação recebeu o nome do Atol de Bikini, onde os Estados Unidos realizavam testes nucleares. A metáfora era perfeita: a peça também seria uma explosão social, moral e estética. Réard resumiu tudo em uma frase memorável: "Um biquíni só é realmente um biquíni se puder passar por dentro de uma aliança de casamento." Juntou-se, enfim, a vontade de mostrar com a fome de ver. Quanto maior a liberdade feminina, menor o pano que as cobria. Afinal: seu corpo, suas regras.

O Brasil deu contribuições decisivas a essa engenharia minimalista. Primeiro com David Azulay que, na Blue Man, em 1972, criou o biquíni de lacinho. É espantoso pensar que dois pequenos nós são capazes de abrir um universo inteiro de fantasias. Depois, nos anos 1980, Cidinho Pereira levou o imaginário ao limite ao criar o asa-delta e o fio-dental, transformando poucos centímetros de lycra na mais eficiente demonstração de que, às vezes, menos é muito mais — e quase nada é o ideal.

Nunca houve, no vestuário humano, uma peça que simbolizasse tanto a liberdade feminina. A minissaia, lançada nos anos 1960 para libertar a libido, só encontrou terreno fértil porque as praias já haviam libertado as pernas — e todas as áreas adjacentes. No fundo, toda revolução começa pequena. Algumas cabem num panfleto; outras, numa barricada. A do biquíni coube em dois palmos de tecido e, ainda assim, conseguiu escandalizar o mundo, libertar milhões de mulheres e provar que há ocasiões em que a História se escreve com muito menos pano do que supõe nossa vã filosofia. 



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