Há uma imagem profundamente enganosa da guerra que insiste em
sobreviver no imaginário contemporâneo. Ela é feita de explosões, blindados em
movimento, caças rompendo a barreira do som e soldados avançando sob fogo
inimigo. É a guerra vista da linha de frente. Mas essa imagem, embora
espetacular, talvez seja apenas a superfície do fenômeno. As guerras não são
vencidas apenas onde se combate. Muitas vezes, elas são decididas muito antes
de o primeiro tiro ser disparado.
O recente debate sobre a reorganização da OTAN oferece um
exemplo eloquente dessa transformação. O centro das preocupações da Aliança
Atlântica não está apenas na distribuição de tropas ao longo de suas três
grandes frentes operacionais. Está, sobretudo, naquilo que existe atrás delas:
portos capazes de receber reforços, ferrovias aptas a transportar blindados,
rodovias que suportem colunas logísticas, depósitos de munição, hospitais
militares, centros de manutenção, autorizações diplomáticas para o trânsito de
tropas e uma complexa infraestrutura civil sem a qual nenhum exército permanece
em combate.
Essa constatação obriga-nos a rever uma velha ilusão. A
guerra moderna não é apenas um confronto entre exércitos. É também uma
competição entre sistemas logísticos.
Não se trata de uma novidade absoluta. Alexandre, César e
Napoleão já sabiam que um exército marchava sobre suas linhas de abastecimento
tanto quanto sobre as pernas de seus soldados. A diferença é que, no século
XXI, a retaguarda deixou de ser apenas um espaço de apoio para tornar-se um
verdadeiro campo de batalha. O alvo prioritário já não é somente a divisão
inimiga, mas a ferrovia que a abastece, o porto que a recebe, a ponte que
garante sua mobilidade, a rede elétrica que sustenta seus centros de comando.
Talvez por isso a guerra na Ucrânia tenha produzido uma das
maiores lições estratégicas de nosso tempo. Muito antes da conquista de
cidades, ambos os lados empenharam-se em destruir depósitos de munição, centros
ferroviários, refinarias, pontes e instalações energéticas. O objetivo era
simples: transformar a retaguarda adversária em um território incapaz de
sustentar a frente de combate.
Essa lógica representa uma mudança intelectual importante.
Durante muito tempo, a estratégia concentrou-se na destruição das forças inimigas.
Hoje, cresce a percepção de que um exército pode ser derrotado sem que suas
principais unidades sejam aniquiladas. Basta que deixem de receber combustível,
munição, peças de reposição ou reforços. A vitória pode nascer não da
superioridade tática, mas do colapso silencioso da sustentação.
Clausewitz escreveu que tudo na guerra é simples, mas o
simples é difícil. A logística talvez seja a expressão mais perfeita desse
paradoxo. Nada parece menos heroico do que organizar comboios, reparar
locomotivas ou coordenar autorizações alfandegárias. Entretanto, sem essas
atividades aparentemente prosaicas, o heroísmo da linha de frente converte-se
rapidamente em impotência.
Existe ainda uma dimensão política frequentemente ignorada.
Nas alianças militares contemporâneas, mover uma brigada exige mais do que
combustível. Exige decisões soberanas de diferentes governos, integração entre
administrações civis, compatibilidade de normas nacionais e uma coordenação
multinacional de enorme complexidade. A guerra deixa de ser apenas um problema
militar para tornar-se um gigantesco exercício de governança.
No fundo, a história parece retornar a uma verdade antiga. Os
grandes generais sempre compreenderam que o campo de batalha começa muito antes
das trincheiras. Começa nos portos onde desembarcam os reforços, nas estradas
por onde seguem os caminhões, nas oficinas onde se recuperam os blindados, nos
hospitais que devolvem soldados ao combate e nos depósitos que alimentam, dia
após dia, a capacidade de resistir.
As batalhas continuam a decidir quem vence um combate. Mas são as retaguardas que decidem quem permanece capaz de lutar. Talvez a guerra contemporânea nos ensine, com uma clareza desconcertante, que a verdadeira linha de frente está, paradoxalmente, muito atrás dela.