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Wellington Freire

Estados Unidos e Irã: Entre o cálculo e o abismo

31 de Janeiro de 2026 | 11h 32
Estados Unidos e Irã: Entre o cálculo e o abismo
Foto: D. L. "Paul" Farley/Marinha dos Estados Unidos

A movimentação militar dos Estados Unidos no Oriente Médio nas últimas semanas não é fruto de improviso nem simples retórica intimidatória. A chegada de um destróier equipado com o sistema Aegis ao porto vulnerável de Eilat, em Israel, o deslocamento de grupos de porta-aviões, a concentração de centenas de mísseis de cruzeiro Tomahawk, o envio de caças de quinta geração e o reforço de sistemas antimísseis de alta e baixa altitude compõem um desenho estratégico claro e coerente. Trata-se de coerção militar em seu sentido clássico, uma política que busca moldar o comportamento do adversário não pelo uso imediato da força, mas pela ameaça crível de que ela será empregada caso a negociação fracasse.

Esse método não é novo. No século XIX, as grandes potências recorreram à chamada diplomacia do canhonaço, projetando poder naval diante de portos estratégicos para arrancar concessões sem necessariamente disparar um tiro. O princípio era simples: tornar o custo da resistência maior do que o da acomodação. O canhoneiro ancorado diante da cidade não era apenas um meio de combate, mas um instrumento de comunicação política. No século XXI, os cascos de aço deram lugar a destróieres antimísseis, bombardeiros furtivos e arsenais de precisão capazes de paralisar infraestruturas críticas em poucas horas, mas a lógica subjacente permanece surpreendentemente semelhante.

A estratégia adotada por Donald Trump dialoga diretamente com essa tradição. Durante seu primeiro mandato, entre 2018 e 2020, o presidente batizou sua política contra o Irã de “maximum pressure”, combinando sanções econômicas severas com demonstrações seletivas de força, como o assassinato do general Qassem Soleimani. O objetivo não era a guerra total, mas a coerção: pressionar Teerã a renegociar o acordo nuclear sob termos mais favoráveis a Washington, aceitando restrições mais amplas ao seu programa balístico e à sua atuação regional.

O que se observa agora é uma versão ampliada, mais explícita e mais militarizada dessa lógica. Trump abandonou rapidamente a retórica moral que ensaiara no início da crise, quando ameaçou o regime iraniano em nome da repressão a manifestantes. O discurso de direitos humanos cedeu lugar ao vocabulário cru da estratégia: “todas as opções estão sobre a mesa”, ativos militares são posicionados em sequência lógica, aliados regionais, sobretudo Israel, passam a ser incorporados diretamente ao tabuleiro operacional. A política externa deixa de ser justificada por valores e passa a ser estruturada pela demonstração de capacidade.

Esse deslocamento retórico é revelador. A coerção militar eficaz, como formulada por Thomas Schelling durante a Guerra Fria, depende menos da intenção declarada de lutar e mais da capacidade demonstrada de fazê-lo. Não se trata de convencer o adversário de que a guerra é desejada, mas de que ela é possível, plausível e custosa. Cada navio atracado, cada esquadrão deslocado, cada sistema antimísseis ativado envia sinais cuidadosamente calculados, tanto ao inimigo quanto aos aliados e ao público doméstico.

A coerção, porém, é sempre um jogo de risco. Para funcionar, a ameaça precisa ser suficientemente crível para forçar concessões, mas não tão intensa a ponto de empurrar o adversário para uma reação desesperada. A linha que separa dissuasão de preparação deliberada para o uso da força é historicamente tênue. Em 1914, as grandes potências europeias também acreditavam estar apenas dissuadindo rivais por meio de mobilizações, exercícios e demonstrações de poder. O resultado foi uma guerra que ninguém planejou nos termos em que ocorreu.

No caso iraniano, o dilema é ainda mais complexo. Os Estados Unidos detêm ampla superioridade militar convencional, e a experiência recente mostrou a vulnerabilidade das defesas aéreas iranianas diante de forças tecnologicamente avançadas. Mas o Irã não precisa vencer uma guerra para causar danos estratégicos significativos. Basta elevar o custo do conflito: interromper o tráfego no estreito de Hormuz, saturar defesas com mísseis balísticos e drones, estimular ataques indiretos por meio de aliados regionais ou arrastar o confronto para uma escalada prolongada e economicamente disruptiva.

Nesse contexto, a coerção deixa de ser um instrumento cirúrgico e passa a flertar com a imprevisibilidade sistêmica. Quanto mais forças são deslocadas, maior a tentação de empregá-las; quanto mais sinais são enviados, maior o risco de interpretação equivocada. A diplomacia do canhoneiro sempre carregou esse paradoxo: sua eficácia depende justamente da disposição de cruzar o limiar que ela afirma querer evitar.

A coerção militar nunca desapareceu; apenas se sofisticou. O que muda agora é o ambiente estratégico: um sistema internacional fragmentado, cadeias energéticas vulneráveis, alianças tensionadas e uma potência hegemônica que voltou a apostar no poder militar como linguagem central da política externa. Resta saber se essa demonstração de força produzirá negociações, ou se, como tantas vezes na história, acabará produzindo a guerra que pretendia impedir.


  



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