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Wellington Freire

O Corolário Trump e a reedição imperial da política externa americana

Wellington Freire - 27 de Janeiro de 2026 | 17h 14
O Corolário Trump e a reedição imperial da política externa americana
Foto: Reprodução - Instagram @REALDONALDTRUMP

A nova Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos, publicada pelo Departamento de Guerra no segundo mandato de Donald Trump, marca mais do que uma inflexão de política externa: ela explicita uma mudança de época. Ao proclamar que o Hemisfério Ocidental é área de interesse vital dos EUA “do Ártico à América do Sul” e ao ameaçar o uso da força contra países que não cooperem com seus objetivos, Washington não inaugura uma doutrina, ressuscita uma antiga. Trata-se de um retorno explícito à Doutrina Monroe, agora reformulada no que o próprio documento chama, sem pudor, de “Corolário Trump”.

A Doutrina Monroe, anunciada em 1823, afirmava que o continente americano não deveria ser objeto de novas intervenções europeias. Na virada do século XX, Theodore Roosevelt acrescentou seu famoso corolário: os Estados Unidos se reservavam o direito de intervir militarmente nos países latino-americanos sempre que julgassem que a “ordem” ou a “estabilidade” estivessem ameaçadas. Era o nascimento do intervencionismo preventivo no hemisfério, legitimado pelo argumento da civilização, da dívida ou da segurança. A estratégia atual ecoa esse passado com inquietante clareza. A diferença é que, se no início do século XX o discurso era civilizatório e no pós-1945 foi liberal-institucional, agora o verniz desapareceu. O documento abandona a retórica da promoção da democracia e dos direitos humanos e assume uma linguagem abertamente coercitiva, ancorada na força militar, na dissuasão direta e na noção de soberania hierarquizada.

O Hemisfério Ocidental reaparece como zona de influência exclusiva, não como espaço de cooperação. Países que não colaborarem no combate ao narcotráfico ou que permitirem a presença econômica, política ou tecnológica da China e da Rússia passam a ser tratados como ameaças potenciais. A estratégia legitima ações militares “focadas e decisivas” e cita, como precedente virtuoso, a operação que resultou na deposição de Nicolás Maduro na Venezuela. A mensagem é inequívoca: a força deixa de ser último recurso e se converte em instrumento regular de gestão regional. Esse deslocamento revela a passagem de uma hegemonia que se pretendia “benevolente” para uma hegemonia coercitiva explícita.

Durante décadas, os Estados Unidos combinaram poder militar com instituições multilaterais, alianças e normas que mascaravam a assimetria real. Agora, a própria estratégia reconhece que não busca consenso, mas obediência funcional. Cooperação, quando existe, é definida como alinhamento; divergência passa a ser vista como hostilidade. A América Latina, nesse contexto, reaparece como aquilo que sempre foi nos momentos de retração liberal americana: um espaço de exceção jurídica. O direito internacional, a soberania e os fóruns multilaterais tornam-se condicionais quando colidem com interesses estratégicos definidos em Washington. O narcotráfico cumpre aqui o papel que o comunismo desempenhou no século XX: um inimigo difuso, transnacional e moralmente absoluto, capaz de justificar intervenções sem declaração formal de guerra.

O aspecto mais revelador do documento, contudo, é sua coerência histórica. Ao mesmo tempo em que propõe “delegar” a contenção da Rússia à OTAN e da Coreia do Norte a aliados asiáticos, os EUA concentram seus próprios recursos no controle hemisférico e no cerco estratégico à China. A lógica é clássica: assegurar o entorno imediato antes de administrar o equilíbrio global. Não por acaso, o texto enfatiza o Canal do Panamá, o Caribe, a Groenlândia e o Golfo das Américas, os mesmos pontos geoestratégicos centrais do pensamento naval de Alfred Thayer Mahan no final do século XIX. O que muda não é a lógica do poder, mas sua franqueza. A ordem liberal internacional, já corroída por crises internas e guerras periféricas, dá lugar a uma ordem declaradamente hierárquica, na qual zonas de influência voltam a ser reconhecidas como legítimas.

Ao chamar essa política de “Corolário Trump”, o próprio governo admite que não está inovando, mas reivindicando uma tradição imperial americana, agora adaptada a um mundo multipolar. A grande ironia é que, ao agir assim, Washington contribui para aquilo que diz querer evitar. Ao tratar a América Latina como quintal estratégico e não como conjunto de Estados soberanos, empurra governos e elites regionais para a busca de contrapesos externos. Ao normalizar a coerção, legitima a coordenação estratégica entre China e Rússia. E ao substituir a diplomacia pela ameaça, acelera a fragmentação da ordem internacional que construiu após 1945. O século XXI, afinal, não caminha para a superação do século XIX. Ele o reencena, dessa vez agora com tecnologia avançada, linguagem direta e menos ilusões.



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