Às vésperas de completar quatro
anos, a guerra da Ucrânia corre o risco de ser interpretada de forma
excessivamente restrita: como um conflito regional, centrado em fronteiras
terrestres, identidades nacionais e equilíbrio militar no Leste Europeu. Essa
leitura, embora não errada, é insuficiente. Os acontecimentos recentes, como a
revelação feita hoje de que veículos espaciais russos interceptaram
comunicações de satélites europeus, indicam que a Ucrânia é apenas uma das frentes
visíveis de um conflito muito mais amplo, sistêmico e multidimensional.
Desde 2022, Moscou deixou claro que não enfrenta apenas Kiev,
mas o arranjo estratégico que emergiu após 1991. A guerra convencional no
Donbass e no sul da Ucrânia convive com uma guerra híbrida que inclui sabotagem
de cabos submarinos, ataques cibernéticos, pressão energética, desinformação e,
agora, operações de reconhecimento agressivo no espaço. O objetivo não é apenas
vencer batalhas no terreno, mas testar, revelar e explorar vulnerabilidades
estruturais das sociedades ocidentais, especialmente aquelas altamente
dependentes de infraestruturas tecnológicas integradas.
Nesse sentido, a interceptação de satélites civis e
governamentais europeus não é um detalhe técnico, mas um sintoma. Satélites de
comunicação, navegação e observação são hoje o equivalente funcional das
antigas rotas marítimas: por eles passam dados, fluxos financeiros, comando
militar, logística comercial e sincronização de mercados. Interferir nesses
sistemas é paralisar, ainda que temporariamente, economias inteiras, exatamente
como o bloqueio naval fazia no século XIX e início do XX.
É aqui que o pensamento do capitão Alfred Thayer Mahan
retorna com força inesperada. Para Mahan, o domínio do mar não significava
apenas superioridade naval, mas controle das rotas por onde circulam comércio,
riqueza e poder político. Quem controla os “caminhos do mundo” molda a ordem
internacional. No século XXI, esses caminhos não são apenas marítimos: são
também orbitais, digitais e informacionais. O espaço tornou-se uma extensão
lógica do mar, um novo “oceano estratégico” onde se decide quem vê, quem
comunica, quem coordena e quem permanece funcional em situação de crise.
A Rússia parece ter compreendido isso com clareza. Ao monitorar
satélites europeus, muitos deles civis, lançados em outra era tecnológica, sem
criptografia robusta, Moscou não precisa destruí-los para obter vantagem
estratégica. Basta mapear padrões de uso, identificar dependências, localizar
estações terrestres e conhecer os elos fracos do sistema. Trata-se de dissuasão
por vulnerabilidade, não por destruição aberta. Uma lógica profundamente
mahaniana, adaptada à era espacial e integrada ao conceito russo de guerra
híbrida permanente.
Os Estados Unidos, por sua vez, continuam apostando na
preservação da superioridade global por meio do controle combinado do mar, do
ar, do espaço e do ciberespaço. A doutrina americana parte do pressuposto de
que a manutenção das rotas abertas, marítimas, digitais e espaciais, é condição
essencial para a estabilidade da ordem liberal internacional. Não por acaso,
Washington investe pesadamente em resiliência espacial, constelações
redundantes de satélites, alianças tecnológicas e proteção de cabos submarinos.
O problema é que essa estratégia, ao depender de redes altamente complexas,
também cria novos pontos de fragilidade exploráveis por adversários.
A China, por sua vez, observa e aprende. Pequim não está
diretamente envolvida na guerra da Ucrânia, mas extrai dela lições estratégicas
fundamentais. Seu investimento simultâneo em marinha de águas azuis, controle
de portos estratégicos, rotas da Iniciativa do Cinturão e Rota, e capacidades
espaciais e cibernéticas revela uma compreensão sofisticada da guerra
contemporânea como disputa por conectividade. Para a China, assim como para
Mahan, o poder não reside apenas na força militar direta, mas na capacidade de
garantir, ou negar, o fluxo contínuo de comércio, energia, dados e
comunicações.
Essa ampliação do campo de batalha ajuda a responder a uma
pergunta central: a guerra da Ucrânia é, em essência, uma disputa por rotas? Em
grande medida, sim; mas não apenas por rotas físicas tradicionais. O
Mar Negro, os corredores energéticos, o acesso ao Mediterrâneo e ao Ártico
continuam centrais. Contudo, a disputa atual envolve também rotas invisíveis:
dados, sinais, comunicações e sincronização global. Controlá-las é tão decisivo
quanto controlar estreitos marítimos no passado.
A Ucrânia, portanto, não é o centro do conflito global, mas
sua superfície mais visível. O que está em jogo é a capacidade de Estados e
blocos de garantir o funcionamento contínuo das infraestruturas que sustentam o
mundo contemporâneo. Satélites, cabos, portos, estreitos, redes energéticas e
sistemas digitais formam um único ecossistema estratégico. Atacá-lo, mesmo sem
bombas, é fazer guerra.
Ignorar essa realidade é insistir numa distinção entre guerra
e paz que já não corresponde ao mundo em que vivemos. Como no tempo de Mahan, o
controle das rotas continua sendo o coração da estratégia. Apenas mudaram os
oceanos, e aqueles que não perceberem isso correm o risco de perder uma guerra
que já começou.
*Nota: o que faço é apenas um esboço de discussão. Para o
leitor que deseja aprofundar o tema sugiro como ponto de partida: PARET, Peter
(org). Construtores da Estratégia Moderna. Rio de Janeiro: Bibliex editora,
2000. 2 volumes. Recomendo especial atenção ao segundo volume.