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Wellington Freire

Além da Ucrânia: a guerra pelas rotas do mundo

Wellington Freire - 06 de Fevereiro de 2026 | 12h 22
Além da Ucrânia: a guerra pelas rotas do mundo
Foto: Reprodução/Telegraph

Às vésperas de completar quatro anos, a guerra da Ucrânia corre o risco de ser interpretada de forma excessivamente restrita: como um conflito regional, centrado em fronteiras terrestres, identidades nacionais e equilíbrio militar no Leste Europeu. Essa leitura, embora não errada, é insuficiente. Os acontecimentos recentes, como a revelação feita hoje de que veículos espaciais russos interceptaram comunicações de satélites europeus, indicam que a Ucrânia é apenas uma das frentes visíveis de um conflito muito mais amplo, sistêmico e multidimensional.

Desde 2022, Moscou deixou claro que não enfrenta apenas Kiev, mas o arranjo estratégico que emergiu após 1991. A guerra convencional no Donbass e no sul da Ucrânia convive com uma guerra híbrida que inclui sabotagem de cabos submarinos, ataques cibernéticos, pressão energética, desinformação e, agora, operações de reconhecimento agressivo no espaço. O objetivo não é apenas vencer batalhas no terreno, mas testar, revelar e explorar vulnerabilidades estruturais das sociedades ocidentais, especialmente aquelas altamente dependentes de infraestruturas tecnológicas integradas.

Nesse sentido, a interceptação de satélites civis e governamentais europeus não é um detalhe técnico, mas um sintoma. Satélites de comunicação, navegação e observação são hoje o equivalente funcional das antigas rotas marítimas: por eles passam dados, fluxos financeiros, comando militar, logística comercial e sincronização de mercados. Interferir nesses sistemas é paralisar, ainda que temporariamente, economias inteiras, exatamente como o bloqueio naval fazia no século XIX e início do XX.

É aqui que o pensamento do capitão Alfred Thayer Mahan retorna com força inesperada. Para Mahan, o domínio do mar não significava apenas superioridade naval, mas controle das rotas por onde circulam comércio, riqueza e poder político. Quem controla os “caminhos do mundo” molda a ordem internacional. No século XXI, esses caminhos não são apenas marítimos: são também orbitais, digitais e informacionais. O espaço tornou-se uma extensão lógica do mar, um novo “oceano estratégico” onde se decide quem vê, quem comunica, quem coordena e quem permanece funcional em situação de crise.

A Rússia parece ter compreendido isso com clareza. Ao monitorar satélites europeus, muitos deles civis, lançados em outra era tecnológica, sem criptografia robusta, Moscou não precisa destruí-los para obter vantagem estratégica. Basta mapear padrões de uso, identificar dependências, localizar estações terrestres e conhecer os elos fracos do sistema. Trata-se de dissuasão por vulnerabilidade, não por destruição aberta. Uma lógica profundamente mahaniana, adaptada à era espacial e integrada ao conceito russo de guerra híbrida permanente.

Os Estados Unidos, por sua vez, continuam apostando na preservação da superioridade global por meio do controle combinado do mar, do ar, do espaço e do ciberespaço. A doutrina americana parte do pressuposto de que a manutenção das rotas abertas, marítimas, digitais e espaciais, é condição essencial para a estabilidade da ordem liberal internacional. Não por acaso, Washington investe pesadamente em resiliência espacial, constelações redundantes de satélites, alianças tecnológicas e proteção de cabos submarinos. O problema é que essa estratégia, ao depender de redes altamente complexas, também cria novos pontos de fragilidade exploráveis por adversários.

A China, por sua vez, observa e aprende. Pequim não está diretamente envolvida na guerra da Ucrânia, mas extrai dela lições estratégicas fundamentais. Seu investimento simultâneo em marinha de águas azuis, controle de portos estratégicos, rotas da Iniciativa do Cinturão e Rota, e capacidades espaciais e cibernéticas revela uma compreensão sofisticada da guerra contemporânea como disputa por conectividade. Para a China, assim como para Mahan, o poder não reside apenas na força militar direta, mas na capacidade de garantir, ou negar, o fluxo contínuo de comércio, energia, dados e comunicações.

Essa ampliação do campo de batalha ajuda a responder a uma pergunta central: a guerra da Ucrânia é, em essência, uma disputa por rotas? Em grande medida, sim;  mas não apenas por rotas físicas tradicionais. O Mar Negro, os corredores energéticos, o acesso ao Mediterrâneo e ao Ártico continuam centrais. Contudo, a disputa atual envolve também rotas invisíveis: dados, sinais, comunicações e sincronização global. Controlá-las é tão decisivo quanto controlar estreitos marítimos no passado.

A Ucrânia, portanto, não é o centro do conflito global, mas sua superfície mais visível. O que está em jogo é a capacidade de Estados e blocos de garantir o funcionamento contínuo das infraestruturas que sustentam o mundo contemporâneo. Satélites, cabos, portos, estreitos, redes energéticas e sistemas digitais formam um único ecossistema estratégico. Atacá-lo, mesmo sem bombas, é fazer guerra.

Ignorar essa realidade é insistir numa distinção entre guerra e paz que já não corresponde ao mundo em que vivemos. Como no tempo de Mahan, o controle das rotas continua sendo o coração da estratégia. Apenas mudaram os oceanos, e aqueles que não perceberem isso correm o risco de perder uma guerra que já começou.

 

 

*Nota: o que faço é apenas um esboço de discussão. Para o leitor que deseja aprofundar o tema sugiro como ponto de partida: PARET, Peter (org). Construtores da Estratégia Moderna. Rio de Janeiro: Bibliex editora, 2000. 2 volumes. Recomendo especial atenção ao segundo volume.



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