A história raramente repete seus cenários, mas insiste em preservar suas lógicas. Mudam os territórios, os recursos e as tecnologias; permanece, quase intacta, a gramática do poder. A comparação entre a Guatemala de 1954 e a Groenlândia do século XXI revela essa continuidade incômoda. O que separa uma república centro-americana dominada por uma empresa bananeira de uma ilha ártica coberta por gelo não é a natureza do conflito, mas apenas o recurso estratégico em disputa.
Na Guatemala, a soberania foi corroída não por uma invasão formal, mas pela atuação de uma corporação privada convertida em infraestrutura estratégica informal: a United Fruit Company. Seus portos, ferrovias, plantações e canais de influência política constituíam uma verdadeira rede logística, essencial não apenas à economia local, mas aos interesses estratégicos dos Estados Unidos no hemisfério. Quando o governo de Jacobo Árbenz ameaçou esse sistema por meio da reforma agrária, a disputa econômica foi rapidamente transfigurada em ameaça existencial.
Carl von Clausewitz ajuda a compreender esse mecanismo. Para ele, a guerra não é um fim em si mesma, mas a continuação da política por outros meios. Em 1954, esses “outros meios” não exigiram divisões blindadas ou ocupação territorial: bastaram operações psicológicas, pressão diplomática, demonstrações navais e a construção de uma narrativa de cerco. O essencial não era conquistar a Guatemala, mas impedir que ela escapasse à órbita estratégica americana.
Sete décadas depois, a Groenlândia ocupa papel análogo, embora em escala geopolítica ampliada. Se na Guerra Fria tropical o ativo central eram bananas, terras e portos, hoje são minerais críticos, rotas marítimas emergentes e posição geográfica absoluta. A ilha não é apenas um território remoto: é um ponto-chave entre América do Norte, Europa e Rússia, fundamental para sistemas de alerta antecipado e defesa antimísseis. Na linguagem da estratégia clássica, trata-se de terreno decisivo.
Aqui, Alfred Thayer Mahan torna-se indispensável. Ao defender que o controle das rotas marítimas é a base do poder global, Mahan antecipou um mundo em que gargalos oceânicos e pontos de passagem definiriam hierarquias internacionais. A Groenlândia, situada no coração do Atlântico Norte e próxima à Lacuna GIUK ( a Lacuna GIUK é o estreito invisível por onde passa a dissuasão nuclear do Atlântico Norte), encaixa-se perfeitamente nessa lógica. Onde passam navios e submarinos, passa também a dissuasão e, com ela, o imperativo do controle.
Mas a Groenlândia não é apenas mar. É também terra. E nisso ecoa Halford Mackinder. Seu famoso conceito de “pivô geográfico da história” alertava que determinadas regiões, pela combinação de posição, recursos e acesso, condicionam o equilíbrio global. No século XXI, o degelo transforma o Ártico em um novo pivô móvel, onde fronteiras antes congeladas se tornam transitáveis. Controlar a Groenlândia significa influenciar esse novo centro de gravidade estratégico antes que ele se consolide plenamente.
A diferença entre Guatemala e Groenlândia está menos no método do que na transparência. Em 1954, o poder americano agia por intermediação: empresas, serviços secretos, forças locais. Hoje, age por meio de doutrina declarada. A lógica que antes se ocultava sob o anticomunismo agora se apresenta como segurança nacional explícita. Do lobby empresarial silencioso passou-se à ameaça pública; da rádio clandestina, à coerção visual permanente.
Ainda assim, o padrão permanece reconhecível para qualquer leitor de História Militar. Trata-se de uma estratégia de coerção contínua, na qual a guerra raramente se materializa, mas nunca deixa de ser insinuada. O míssil substituiu a banana porque a economia global substituiu o mundo agrário pelo industrial-tecnológico; porque terras-raras valem mais que plantações; porque a dissuasão nuclear exige posições fixas, não mercados instáveis. Mas o gesto é o mesmo: elevar um recurso à condição de vital e, com isso, relativizar a soberania de quem o controla.
A Guatemala oferece, contudo, uma advertência que a teoria estratégica muitas vezes ignora. A intervenção bem-sucedida no curto prazo produziu instabilidade duradoura. O vazio político aberto em 1954 gerou décadas de violência, migração e criminalidade, ameaças mais profundas do que aquelas que se pretendia evitar. Clausewitz lembrava que a guerra nunca é um ato isolado; ela gera consequências que escapam ao cálculo inicial.
Entre bananas e mísseis, o que atravessa o tempo não é o objeto da disputa, mas a estrutura do poder. Quando um recurso é definido como indispensável, a soberania torna-se negociável. O século XXI apenas deslocou o palco da selva ao gelo. A gramática estratégica, essa, permanece intacta.
Nota: a quem deseja aprofundar os temas aqui esboçados recomendo: Clausewitz, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes: 2010; Aron, Raymond. A Paz e a Guerra entre As Nações. Brasília: UNB, 2002.